Mc, a idéia de apoiar a base das raízes, para formatar melhor o nebari é excelente, mas o material usado deve ser preferencialmente feito a partir de madeira, que com o passar dos anos apodrece, sem causar danos às raízes. Geralmente pegamos um segmento de madeira cortado de forma circular, com furos, onde amarramos as raizes com cordão de algodão, prendendo-as firmemente e no posicionamento correto, dispersas sempre à volta da base do tronco, para firmar melhor o nebari radial.
Não se usa azulejo ou placa ceramica para isso, pois podem causar danos irreversíveis às raízes, atrasando ou dificultando a formação do nebari. Mas como está feito, deixe então. Melhor ter algo em apoio que não ter nada.
Em relação a sua planta, como está saudável, sugiro uma desfolha total, usando para isso uma tesoura de pontas finas, para que corte no pecíolo, retirando-as todas dessa forma. Com a planta nua, poderá analisar bem a estrutura aerea e cortar o excedente, ou seja, galhos e ramos que estejam "atravessando" uns aos outros, ou crescendo de forma errática. O idela, dependendo de como esteja a estrutura, é reduzir o comprimento de todos os galhos, principalmente os primários, visando criar uma boa divisão, o que irá forçar o surgimento dos galhos secundários e terciários (mais grossos).
Filipe, esperar que uma nativa como a jabu "engrosse" o tronco plantada numa bacia é algo que requer muito mais que simples paciência. Isso por que o engrossamento levará, no mínimo, uns 30 anos ou mais para ocorrer, e assim mesmo será algo insignificante. Essa nativa, como outras de sua família, engrossam melhor e mais rapídamente quando plantadas no chão, lamento dizer. Na bacia, podemos quando muito esperar que ocorra uma boa formação do nebari e da estrutura aerea, que pode ser formatada adequadamente, graças às nossas intervenções nesse sentido, seja através de podas, aramação ou com o aporte regular de adubação e controle de regas.
O unico caso em que pode ocorrer um engrossamento no tronco é quando usamos o recurso de plantar em escorredor e depois, com a saída das raízes pelo fundo do recipiente, depositar o escorredor sobre um substrato bem nutritivo, dentro de uma bacia à guisa da famosa "mamadeira". Hidaka, que foi o precursor desse sistema em nosso país (copiando a idéia dos cultivadores japoneses, aliás), conseguiu engrossar as jabu no curto espaço de tempo de 20 a 25 anos de cultivo!!!
Bem, voltando à jabu do Mc, minha sugestão é a desfolha total, a correção via poda dos galhos, reduzindo seu comprimento. Ao fazer isso, sempre priorizar as primeiras bifurcações dos galhos, de maneira a seguir cortando eliminando sempre o ramo mais grosso a partir da bifurcação, para favorecer a conicidade adequada. Afinal, temos que cuidar da conicidade não só do tronco, mas principalmente nos galhos desde a fase inicial destes, para criar um efeito mais técnico e bonito, esteticamente falando.
Sobre esse tipo de trabalho, o melhor exemplo que gosto sempre de apresentar é o das imagens abaixo:
Repare que os galhos primários tem uma saída, a partir do tronco, com um ligeiro movimento e não necessáriamente retos como o tronco. Isso caracteriza maior naturalidade na construção, retirando o aspecto contrário, isto é, a artificialidade. A busca pela planta natural é o consenso que norteia o bonsai na atualidade e deve sempre ser observado, mesmo no estilo Hokidachi:
O sequenciamento buscado será então a ramificação fina, que é presença obrigatória em espécies como a jabu, o ulmus, a carmona, a serissa, caliandra, dentre outras:
A vantagem do estilo Hokidachi, na minha opinião, é a facilidade de sua construção em razão das variedades possíveis dentro do próprio estilo, em que há diferentes alturas e medidas para o tronco, bem como variadas saídas de suas ramificações primarias, ou seja, os troncos que formam o "arcabouço" da parte aerea, abrindo os galhos primários a partir de forquilhas na parte final do tronco, predispõe certo contraste, facilitando a formação a partir de várias possibilidades de saída. Eis alguns exemplos dessa permissividade:
No exemplo acima temos um formato mais alongado quanto ao apice:
Na imagem abaixo, o tronco é baixo, atarracado, e a estrutura aerea tem uma conformação mais arredondada, com cobertura tradicional. Reparem que os troncos de saída sobem mais verticalmente, abrindo-se as ramificações a partir de diversos pontos ao longo deles, algo bem diferente da primeira imagem:
A vantagem de se trabalhar com espécies como a zelkova, ulmus, jabu é justamente a permissão que temos de proceder a uma desfolha completa, sempre que necessário, para observar e analisar detidamente a saída dos troncos formadores do estilo, de maneira a conduzi-los adequadamente, dentro da variedade mais adequada para a planta. Isso significa que não precisamos modificar a saída, mas apenas adequa-la, construindo-a dentro da linha que a própria planta indica, sem precisar forçar em demasia com o uso de aramação, por exemplo.
É preciso uma analise criteriosa quanto a esse estilo, vez que aprendemos sempre que o estilo Hokidachi tem forma de vassoura e ponto final!, quando na verdade não é bem assim, como podemos ver nas imagens acima. É importante considerar o formato de saída dos troncos e trabalhar de acordo com eles, sempre cuidando de fazê-lo dentro das especificações que a espécie cultivada indica, não fugindo às regras de construção corretas, mas sempre com prevalência para a planta, não forçando-a além do que ela apresenta de condições dentro dessa linha de trabalho.
Mas afinal, o que significa todo esse palavrório? Bem, simplificando, temos que relevar que se a espécie for um ulmus ou uma zelkova, poderemos "criar" os galhos de saída a partir de determinado ponto do tronco, desde o inicio. Cortamos o tronco rente ou em cunha com formato em "V", e aguardamos suas brotações, que irão ocorrer em toda a volta do anel de corte. A partir dessas brotações, escolhemos os galhos mais bem posicionados, em toda a volta do tronco, e formaremos com ele então os troncos de saída do estilo, seja alongando-os seja mantendo-os numa posição mais baixa ou intermédia.
No caso das nativas, como a jabu, não temos como realizar esse tipo de intervenção de formação inicial. Se cortarmos o tronco e aguardarmos novas brotações, elas não virão nem na quantidade necessária, nem tampouco no ponto de corte, sendo que este poderá inclusive secar, ou mesmo toda a planta vir a morrer.
Por isso, se quisermos construir o estilo, teremos que partir dos troncos existentes na saída do tronco principal, e formar, com eles, a base corretamente trabalhada. Veja o exemplo disso na planta mostrada abaixo. Ela foi construída, isto é, teve o tronco cortado e com as novas brotações foi formada a estrutura aerea:
No caso das nativas, as vezes é até mais fácil chegarmos ao ponto correto, apenas orientando os troncos de saída da maneira certa:
Bem, voltando à sua planta Mc, não faça os cortes que voce marcou em linha vermelha. Use os troncos base (originados no ponto de saída do tronco principal) para iniciar neles a formação Hokidachi. Essa variedade parece ser bem vigorosa e o crescimento intenso e bem interessante, o que poderá facilitar a construção correta dentro do estilo Hokidachi. Com a desfolha, se quiser, volte a fotografar, mostrando a planta ao menos por quatro lados distintos, numerados, e poste aqui novamente, para que possamos analisar com maior detalhe e, assim, postar com maior correção as informações sobre como conduzir adequadamente. Os cortes marcados devem ser abandonados, pois irão atrasar ou dificultar a correta formação estrutural, perdendo muito mais tempo na formação. E isso, como deixei bem claro, é algo que temos que evitar nessa espécie.