Como fui eu quem postou o trabalho do amigo Lustosa, devo primeiramente agradecer aos nobres colegas e amigos pelos elogiosos comentários. Fico imensamente satisfeito em saber que agradou e que possa ser usado como referencial para o desenvolvimento de seus próprios trabalhos. Isso é muito inspirador, sem dúvida nenhuma.
Prumo, em relação à sua crítica, devo salientar que existem diferentes maneiras de compor um penjing. Face a isso, há variantes, por assim dizer, que seriam algo parecido com os tradicionais estilos de bonsai, que todos nós conhecemos. Um dos "estilos", chamemos assim, de penjing é chamado de Penjing Landscape. Nessa variante, a paisagem é vista pelo observador, que se encontra em um determinado ponto, como algo à distância de onde ele está posicionado.
É preciso compreendermos isso com a visão oriental de ver, não com a ocidental. Isso se torna necessário por que nossa visão é limitada a uma perspectiva plana, isto é, em 2D: há alguns objetos reunidos dentro de uma bandeja e ponto final. Na visão oriental, Há uma árvore maior em razão da proximidade dela em relação ao pescador. A casa parece pequena demais para ele por que o pescador não está ao lado dela, mas sim na outra extremidade do rio onde esté pescando. A arvore menor existe por dois motivos: está mais próxima ao pescador, portanto justifica seu tamanho. Faz parte da composição para "fechar" a triangulação.
A visão triangular é uma caracteristica inerente ao bonsaista, não ao criador de penjing. Por isso, está presente nessa obra do Lustosa, que só pôde ser construída tendo esse parametro como regra, segundo a visão do autor, que segue a linha natural de construção japonesa, ainda que o tipo de paisagem explicitada seja caracteristicamente chinesa, incluso por seus elementos: plantas, pedras e miniaturas.
A perspectiva visual em profundidade é um elemento crucial para desenvolver trabalhos de qualidade, mas é preciso que o observador intua isso ao olhar o trabalho. Explicando em miúdos: se voce não "entrar" na cena, não usar um pouco de imaginação para "ver", não irá realmente ver o trabalho como ele se apresenta. A agua não está lá, presente, mas podemos "intuir" sua presença, devemos imaginá-la não ocmo um lago, mas como um pequeno riacho que serpenteia por entre as pedras, separando os espaços onde crescem as arvores.
A visão que temos que ter ao observarmos trabalhos como esse do Lustosa, ou outros realizados por outros artistas, é uma visão filosófica: há algo mais ali, que o olhar atento e observador deixa escapar, mas que a mente, ágil e perspicaz, capta. Há uma mensagem a ser lida nas entrelinhas: o espaço, ali, vai mais além que a nossa visão física entrevê.
Ao fazermos esse tipo de analise, iremos aos poucos "descobrindo" nuances, percebendo ritmos, descortinando algo oculto dentro da paisagem, que dessa forma fica um pouco mais rica, mais criativa. Não é um amontoado ao acaso de pedras, plantas e miniaturas, mas sim, uma linda composição, repleta de poesia e de vivacidade, premente e pulsante, como tudo mais na vida aliás. É preciso "ver" com os olhos da mente, para descobrirmos tudo isso numa simples paisagem.
Voltando às variantes chinesas de PENJING, algumas delas são composições isoladas, onde a planta tem o trabalho de "puxar" a intuição do observador e apresentar algo que não está à vista, mas oculto e um simples olhar não irá revelar isso logo de inicio. É algo como um quadro: está lá, mas poucos conseguem ver se não observarem atentamente, buscando os minimos detalhes. Parece algo complexo e de fato é. Ou, ao menos, não é tão simples quanto a arte do bonsai.
Precisamos considerar que a cultura chinesa existe há mais de cinco mil anos, enquanto a japonesa é algo recente, comparando. Por isso, a simplicidade alcançada num trabalho penjing só é simples aos nossos olhos ocidentais, mas tem outro alcance aos olhos orientais. Temos que melhorar, e muito, o nosso entendimento a respeito, se quisermos aprender algo com eles, nesse sentido. Veja alguns exemplos de penjing. Primeiro, a arvore como tema principal:
Inserção de elementos: primeiro, rocha ou pedra (s):
Rochas e miniaturas de animais:
Miniaturas humanas:
Rochas, miniaturas humanas e animais:
Repare que na obra acima tem inicio a analise sobre perspectiva: o tamanho da pedra remete a uma montanha, que implica então no uso de uma arvore pequena e um animal em sua base, para transmitir essa idéia de proporcionalidade corretamente. Aqui, ainda não há o penjing landscape, pois não há uma visão em profundidade, apenas em relatividade: o tamanho de uma montanha em proporção com o tamanho da arvore e do animal que pasta próximo.
Voltemos ao tema "arvore". Podemos ter duas ou mais, que se somam ou que subtraem, uma da outra, a visão do observador. Tudo irá depender da intenção do artista, claro:
Bem, melhor parar por aqui, senão o assunto cansa. Apenas ressaltando que há um sem numero de possibilidades e variantes de trabalho, culminando, por assim dizer, na variante que serviu de tema para esse post, o penjing landscape. Esse é, de longe, o mais divulgado e conhecido, tendo se tornado por assim dizer num cartão de visitas do penjing chinês, apesar de não ser a unica forma de expressão dessa arte milenar, como muitos pensam. A arte, aliás, é bem mais ampla e permissiva, em termos de criação, que geralmente nós ocidentais, conseguimos "ver".
A variante LANDSCAPE, ou em tradução literal: terra distante, implica no uso do recurso da proprocionalidade, perspectiva, ritmo, etc, podendo usar materiais os mais diversos, inclusive só pedras
Ou pedras e uma miniatura, que pode ser humana, animal ou ambas:
Sem árvores? Isso mesmo, sem nenhuma planta. Ou acrescida de algo, como uma base espelhada, para simular agua, ou plastico ondulado, para simular ondas no mar ou um rio agitado, etc:
Alguns trabalhos serão imensos, outros caberão na palma da mão: tudo dependerá da visão do artista no momento da criação de sua obra. E da imaginação do observador, em enxergar além da sua visão limitada:
PS: algumas imagens, principalmente as do site AIDOBONSAI, deixaram ser carregadas devidamente, mas podem ser visualizadas, bastando para isso copiar/colar, para que o texto possa ser compreendido integralmente. Tentei repor essas imagens, mas sem sucesso. Sorry!! 😉