Bas, a rega é uma situação que cada cultivador enfrenta à sua maneira, inclusive por questão de tempo disponível, dependendo é claro do tamanho do viveiro, para fazer bem feito. O meu viveiro consome entre 1:30 a 2 horas para ser totalmente irrigado bem. E geralmente eu inicio as 16:30, mais tardar as 17 horas, para concluir antes que o sol se ponha e fique escuro. Mas houve casos em que tive que regar após as 19 horas, então providenciei iluminação para facilitar quando isso ocorresse, e não faltasse agua em nenhum recipiente de cultivo (escorredores, bacias plasticas e vasos).
Outros amigos, como os bonsaistas Glauco Felix e Francisco Lustosa, se empenham em molhar ao menos duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, sendo que o Lustosa usa ainda regar algumas plantas, mais expostas ao sol, durante o meio dia. A meu ver, isso é um contrasenso, pois durante a parte mais quente do dia, que geralmente começa por volta das 11 horas da manhã, quando não uma hora mais cedo que isso, as plantas tem um mecanismo de defesa para evitarem a perda hidrica, murchando suas folhas.
Para entendermos bem como se dá esse procedimento nas plantas, é preciso analisarmos as folhas delas, de forma a entender seu mecanismo:
A folha desempenha basicamente duas funções importantíssimas para a vida das plantas: fotossíntese e transpiração. Para que seja entendido como a folha realiza essas funções, vamos conhecer os estômatos.
Os estômatos são estruturas existentes na epiderme das folhas, constituídas de duas células especiais, as células-guardas. Entre essas duas células, existe uma abertura que comunica o interior da folha com o ambiente externo. Essa abertura é chamada ostíolo. Através dos ostíolos, as folhas fazem as trocas gasosas entre a planta e o meio externo.
O controle de abertura e fechamento dos ostíolos é feito pelas células-guardas. Quando se enchem de água, elas empurram a parede oposta ao ostíolo para as laterais e abrem o orifício. Quando falta água, elas murcham e fecham o ostíolo.
Então temos o seguinte: se os ostíolos estão fechados, de que adianta regar ao meio dia? Os cultivadores mais céticos (por desconhecerem esse mecanismo ou não se interessarem pelo assunto), veem suas plantas "voltarem" à vida, isto é, as folhas antes murchas adquirem vivacidade quando molhadas ao meio dia, e, para eles então, é algo a ser feito sempre. Ocorre que dependendo do calor solar nesse período do dia, essa recuperação será efemera, e em pouco as folhas voltarão ao estado murcho anterior, ou então, o calor somado com a agua poderá causar "queima", tanto macro quanto microscópicamente falando nas folhas, o que acaba por depor contra essa rega nesse horário.
É preciso atentar para um detalhe: a planta, através de suas folhas, não absorve toda a agua que jogamos sobre ela, nem a aproveita na totalidade tambem. Um pouco da umidade de que necessita ela retira do ar, bem como de outras partes da própria planta. Para repor a água evaporada e perdida para o meio ambiente na transpiração, as folhas exercem uma espécie de força de sucção sobre os vasos lenhosos da planta, provocando a subida da seiva bruta.
Por isso, por ter conhecimento desse processo das folhas, é que evito irrigar pela manhã e ao meio dia, preferindo antes fazer a rega apenas ao final da tarde. Venho fazendo isso há tempo suficiente para comprovar a eficácia disso, bem como tambem para comprovar que não há necessidade de repor agua no solo seco dos vasos ao meio dia, pois sempre haverá um pouco de umidade na camada intermédia do substrato, isto é, entre a superficie seca e o fundo, de maneira que as raizes capilares terão sua cota de umidade o suficiente para manterem a planta bem provida e sem riscos.
Por outro lado, as plantas em vasos mini, Mame e alguns shohin, dependendo da espécie, ficam sob a proteção de uma tela de sombrite 50% durante as horas mais quentes do dia, para evitar que o solo, com pouco substrato, seque demasiadamente rápido, causando sufocamento nas raizes pelo excesso de calor. Levanto o sombrite apenas à tarde, durante a rega, voltando a baixar por volta das 11 horas da manhã do dia seguinte.
Lembrando que resido no DF, onde os indices de umidade relativa do ar costumam ter médias baixissimas e o calor durante a maior parte do dia ser insuportávelmente quente durante certas épocas do ano. Mas mesmo assim continuo a manter o padrão de rega que descrevi, não alterando a rotina nem uma unica vez desde que o adotei. Posso falar então por mim, e não pelos outros cultivadores. Por isso que afiancei, logo no inicio, que o critério do horario da rega segue de acordo com o cultivador.
Para entender um pouco mais o mecanismo das folhas e ter argumentos para validar a sua maneira de regar, sugiro ler o texto abaixo:
http://www.portalbrasil.net/educacao_seresvivos_plantas_angiospermas_folhas.htm
Vc pode ainda aumentar um pouco mais seu conhecimento nessa area, pesquisando a fundo outras publicações, artigos e textos sobre a ação da rega diária, ou da agua da chuva, nas folhas, tronco, galhos, ramas, raizes. É importante termos noção da fisiologia vegetal, para aprendermos a lidar corretamente com nossas plantas, e com isso, estabelecermos desde já critérios sobre qual a melhor ação a adotar, inclusive tendo em vista a região, estado e cidade onde moramos e temos nosso cultivo. Isso é muito importante. Leia tambem sobre adubação, e sua ação sobre partes isoladas da planta, mas não se esqueça de adequar seus estudos, direcionando-os para o cultivo controlado e o manejamento em vasos e recipientes de cultivo.
Isso por que na maioria das vezes as respostas a nossas duvidas vem descrevendo o cultivo em solo, que apresenta singularidades e diferenciações em relação ao cultivo do bonsai. Há que ter esse entendimento, antes de sair aplicando, ou explicando, alguma coisa que lemos nesses artigos.