A questão em discussão não é o quando o bonsai tornou-se arte, propriamente dita, mas quando surgiu a idéia do bonsai como cultivo. A arte é uma expressão cultural, e sua origem está ligada, obviamente, à aristocracia, à nobreza, pois apenas quando se tinha alguma riqueza é que o homem poderia esquecer as necessidades básicas (alimentação em primeiro lugar) para se voltar para a apreciação do belo pelo belo, sem se importar com mais nada.
Ainda hoje vemos isso, nos leilões de grandes obras artisticas: quem tem milhões para investir em quadros de pintores famosos? Não é a classe C, isso eu garanto. Então, nos primórdios, certamente o cultivo de arvores esteve, inicialmente, voltado apenas para algo prosaico, como produção de frutas e de especiarias voltadas para a area médica, sem duvida nenhuma. Apenas com o transcorrer dos anos, é que os mais abastados, que detenham o poder aquisitivo para esse tipo de cultivares, é que devem ter resolvido adotar outras espécies, além das frutiferas e floriferas e medicinais, para o cultivo apenas da arte pela arte, cultivando outras espécies que nada tinham a ver com a manutenção da qualidade de vida.
Talvez, então, na India ou em outro lugar, alguem tenha visto algo parecido com a imagem abaixo, e tido a feliz idéia de cultivar arvores em vasos decorados, agregando utilidade com futilidade, mas dessa vez mirando o lucro que poderia obter de tal composição junto aos abastados da cidade:
A arte pela arte é algo recente. Mesmo na pintura, inicialmente os grandes pintores estavam "colados" nos que podiam sustentá-los, os chamados "Mecenas", aceitando destes encomendas de pinturas que, séculos depois, iriam se tornar grandes obras mundo afora. Mas, primeiro, o lucro.
Importa, talvez, descobrirmos qual seriam as primeiras arvores cultivadas como bonsai naqueles séculos: acredito que uma das primeiras tenha sido a PUNICA GRANATUM, que nós conhecemos pelo nome comum de ROMANZEIRA. Suas propriedades medicinais são conhecidas há séculos, e por igual período ela vem sendo cultivada, primeiro na Asia, depois no resto do mundo. Além de medicinal, há a beleza de seus frutos e flores, sendo suas sementes consideradas afrodisiacas pelos chineses, que trouxeram as primeiras mudas para seu país (não plantaram as sementes, inicialmente) do Himalaia ou do Irã (antiga Pérsia), de onde é nativa (bem como do Norte do Paquistão e Norte da INDIA). Foi cultivada no Cáucaso desde tempos antigos, sendo levada depois para outras partes da Asia e outros países de lingua arabe, bem como países mediterraneos:
Saber quais espécies foram originais no cultivo como bonsai poderia abrir algumas das portas do mistério sobre a origem desse tipo de cultivo, seja como arte, seja como outro tipo de cultivo, com outra finalidade, ou seja, diversa da artistica para contemplação, como hoje.
Na sequencia, podemos incluir a CAMELIA SINENSIS, originalmente uma árvore de até 15 metros de altura nativa das florestas do nordeste da Índia e sul da China. Apesar da altura máxima elevada, as podas constantes evitaram que ultrapassasse 1,5 metros, sendo então facilmente cultivada e, quem sabe? transportada para outras regiões dentro de recipientes tipo vasos (bandejas?). A C. sinensis é o conhecidissimo chá verde de hoje em dia, apreciado por todo o mundo civilizado.
O que viria depois? Noz moscada, cravo e canela, macieiras e pereiras, quem pode saber, quem pode ter esse tipo de informação? Pode ser que então alguem tenha tido a feliz idéia de presentear um dos antigos imperadores com uma pequena arvore, plantada num vaso ceramico ricamente adornado, sendo a espécie originaria do rincão onde nascera a familia daquele dignissimo cidadão palaciano. Fosse essa primeira arvore o bonsai originário, certamente teria sido um pinus qualquer, ou talvez a idéia tenha sido outra.
Quem sabe algum viajante não trouxera na bagagem uma espécie exótica, plantada numa bandeja rasa, contendo uma arvore diferente para presentear o imperador? A arvore, por ser de outro país, talvez não tivesse sobrevivido naquele clima, mas a idéia pode ter influenciado outros, que trataram de aproveitar e formar novos bonsai, dando inicio a um tipo de arte, voltada é claro para o comércio, pois quem não gostaria de ter algo parecido com o que o imperador ganhara?
Temos como outra espécie provavel, o GINKO BILOBA, que por ser uma arvore cuja antiguidade remonta à pré história, considerada por muitos como um fóssil vivo. Esse seria um motivo mais que forte para os chineses a considerarem sagrada, mas eles, que têm ainda hoje a ciência intimamente ligada ao místico e ao sagrado, vêem no GINKO muito mais que uma simples arvore. Ela é considerada sagrada pelos budistas e é bastante comum encontra-las nas entradas dos templos.
Ganhar um bonsai de GINKO, então, é algo inexplicavelmente arrebatador, para qualquer chinês, incluso aí o imperador citado acima. Seu nome, GINKGO, provém do chinês yin-kuo que quer dizer "frutos prateados":
Acredito que se pesquisarmos ao menos referenciais sobre essas tres espécies, poderemos estar encontrando alguma prova sobre a origem do bonsai (como idéia, não necessariamente como arte), se ela for realmente chinesa, ou persa, ou indu, ou proveniente de algum outro lugar. Talvez o caminho da pesquisa deva seguir, tambem, por essa linha.
A propósito da nossa discussão em pauta, gosto de citar a excelente pagina do AI DO BONSAI, do bonsaista e amigo Paulo Netto:
http://aidobonsai.com/category/bonsai-sua-historia/
Onde além de apresentar algumas idéias interessantes sobre a origem da arte, há ótimas imagens, prevalentes no caso como uma prova cabal do que ele tenta confirmar nesse contexto. É sempre ótimo vermos essas imagens.
Eu sempre gostei imensamente dessas gravuras antigas, tanto que coloquei algumas num post antigo, aqui no forum:
http://www.atelierdobonsai.com.br/forum/viewtopic.php?t=5324&sid=1bd4dd2b3d8c4ab3694ca6fa69cbb491
Bons tempos, aqueles. Tinhamos a participação de grandes amigos, como o Dark e o professor de artes, Marcelo Duprat, grandes foristas, grandes bonsaistas. Duprat, aliás, é hoje referencia quando queremos ilustrar algum estilo classico de bonsai da escola japonesa, com seus magnificos desenhos (à disposição no site do Atelier).