Gil, sua dúvida é interessante e pertinente, embora tenha resposta anterior a ela no forum. Mas para encurtar sua busca, aí vaí a explicação:
Um substrato para ser bem composto e funcionar de acordo tem, necessariamente, de promover o desenvolvimento do sistema radicular da planta. Isso implica que ele deva possuir algumas qualidades essenciais, em se tratando de um bonsai, que o diferenciem em muito do solo normal em que a planta se desenvolve (no chão, melhor explicando). A diferença aqui consiste em fatores básicos: boa drenagem da agua da rega diária, com retenção hídrica minima para a manutenção via umidificação do sistema radicular, permeabilidade ao aporte regular de adubação, que via lixivação, isto é, ao ser molhado pela rega, irá se diluír e penetrar com facilidade por entre os granulos do substrato, chegando dessa maneira às células captadoras existentes nas extremidades e corpo principal das finas raizes capilares (raízes de alimentação da planta).
Essa permeabilidade tambem se destina a circulação de ar, via oxigenação, que tem acesso não apenas pela parte superior (superficie do solo), mas igualmente pela parte inferior, acessível pelos orificios de drenagem no fundo do recipiente (no caso de um vaso), ou lateralmente e no fundo (no caso de outros recipientes, como bacias e escorredores). Esse oxigenio que acessa o sistema radicular é fundamental para a saúde e desenvolvimento das raízes, pois sem ele, a planta perde qualidade de crescimento e suas raízes poderão sofrer sérios danos, muitas vezes culminando na morte prematura delas, o que levará então à morte da própria planta.
Ora, sabemos que quanto mais espaço de drenagem e circulação de ar o substrato promover, melhor então será para a planta como um todo, vez que ao estimular o desenvolvimento e aumento do sistema radicular, haverá então respostas no mesmo sentido em toda a planta, com mais e melhores brotações, folhas, flores e frutos.
A diferença básica entre pedrisco e caco ceramico está na capacidade de retenção liquida por parte do segundo elemento. Os cacos ceramicos, se voce puder observar num microscópio, possuem micro orificios que acondicionam gotículas de agua proveniente da rega diária, ensejando que por isso mesmo, retenham-na por mais tempo, de maneira a que essa umidade seja liberada gradativamente, ao longo do dia ou noite, de forma a manter uma saudável umidade no seu interior, o que favorece enormemente ao sistema radicular da planta. Sempre dizemos que o solo da planta deve apresentar-se levemente umido, porem jamais encharcado. Solo pobre em caco ceramico leva a essa consequencia nefasta, vez que não permite a retenção de gotículas, mas retem muita umidade, o que acaba prejudicando o sistema radicular, podendo inclusive causar a morte da planta por asfixia de suas raízes no excesso hidrico existente no subsolo.
Os micro poros do caco ceramico, porém, não ocorrem nos pedriscos, vez que esses, por serem mais compactos e duros, não os possuem ou se os tiverem, serão em quantidades tão infimas que a umidade retida se esvairá em tempo menor, o que não irá permitir ao sistema radicular usá-lo em seu favor, causando um ressecamento rápido e danoso ao sistema.
Podemos comparar essa porosidade e capacidade de retenção de umidade do caco ceramico com uma imagem parecida com essa:
Entrentanto, a maioria dos pedriscos não possui essa capacidade de retenção, pois suas moléculas são muito aglutinadas e coesas, ao ponto de não possuir esses tão necessários micro espaços em seu corpo, o que inibe então seu uso em maior quantidade quando da composição do substrato.
Lembrando que nós, aqui no Brasil, não temos na natureza nada que se pareça com o substrato usado no Japão e na Europa, chamado de AKADAMA. Esse solo, originário de uma região japonesa de mesmo nome, tem resiliência e resistência, por sua origem vulcânica, sendo um excelente material que é largamente usado no bonsai, e mesmo no cultivo de outras plantas (frutiferas e floriferas), quando em vasos e recipientes similares, por reter umidade minima e permeabilidade ao oxigenio e outras qualidades, como o material que tentamos, fracamente, reproduzir com as misturas que, infelizmente, temos por aqui.
Por ter um preço altamente proibitivo, o AKADAMA, infelizmente, não irá atender às nossas necessidades. Por isso, temos então de partir para a fabricação ou obtenção de material que provenha nossas plantas de algumas das qualidades que o Akadama promove naturalmente. Alguns bonsaistas nacionais tem tentado obter algo parecido com esse tipo de solo ao longo dos anos, mas até hoje, pelo que sei, não temos tido sucesso na empreitada. O bonsaista e amigo Gerson Araldi, por exemplo, descobriu um solo fragmentado que comercializa há tempos, que chama de Qualitá, e que possuí algumas das propriedades naturais apresentadas pelo Akadama, mas infelizmente não pode ser usado em todas as plantas, vez que sua retenção liquida é minima, sendo dispersada em tempo menor, quando comparado ao Akadama, o que acaba por reduzir seu grau de utilidade para nós.
Fiz uso desse material do Gerson em várias espécies que cultivo, e infelizmente, por essa razão, retenção minima de umidade, minha experiencia com o material, em se tratando da grande maioria das espécies, não resultou satisfatório. Novamente, aqui, tive que apelar para o caco ceramico integrado ao material do Araldi, contrariamente do que faria se tivesse usado apenas o Akadama japonês, que é usado em diferentes granulometrias e em parceria com outros solos japoneses: Kiriu e Kanuma, a depender claro da espécie cultivada. Esses outros dois solos, porém, não são ceramicos, mas terrosos/argilosos, com baixa concentração vulcanica, resultando num material mais denso, que compacta rapidamente.
A compactação do solo é um fator preponderante, dependendo sempre da espécie cultivada, o que nos obriga então a proceder a reenvases periódicos (3 a 5 anos para coníferas, um a dois para as demais espécies). Por isso, ao procedermos a uma boa mistura de substrato, ao caco ceramico adicionamos o pedrisco, que tem por finalidade evitar a compactação rápida do solo, além é claro de trabalhar a favor do espaçamento maior entre os granulos, favorecendo uma otimização da circulação de oxigenio, eliminação dos resíduos não aproveitados do aporte regular de adubação, e expulsão do excedente de agua proveniente da rega diária.
A adição concomitante de outros ingredientes, como carvão e casca de arvore (geralmente pinheiro, por ser porosa), convem a uma complementação, vez que torna o solo interior um pouco mais ácido, o que certamente favorece bastante o sistema radicular de algumas espécies, mais que outras, ao se decomporem gradativamente. Como precisamos de um solo mais permeável que orgânico, na maioria das espécies que cultivamos, com algumas exceções claro, então usaremos esses complementos em quantidades menores que os dois primeiros.
Sempre é bom lembrar que: ao se ter um solo bem drenante e com as qualidades que explicitei acima, o sistema radicular da planta irá aumentar bastante, causando eliminação desse material, vez que as raízes, em busca de espaço, irão aos poucos expulsar os granulos, ou entranhar-se em demasiado neles, de maneira que em pouco tempo o espaço de confinamento das raízes estará todo tomado no interior do recipiente abaixo da superficie ou mesmo sobre esta.
A um volume maior de raízes, então, não irá chegar com a devida precisão e necessidade, o material que fornecemos para o desenvolvimento correto da planta, como a agua da rega diária, o aporte de adubação e, principalmente, o tão necessário oxigênio. Acarretará uma perda considerável no desenvolvimento da planta, levando-a a uma redução em sua qualidade, vez que sem espaço para se desenvolverem, as raízes acabam por secar, definhando até morrer. Ou então, começam a sair pelos orificios de drenagem.
Aqui, então, teremos o nosso maior problema: reenvasar a planta, promovendo a eliminação do excedente de raízes, e acondicionando a planta em um substrato novo, com a mesma composição do anterior, para que a planta possa continuar a se desenvolver com a mesma qualidade.