Não há nenhuma convenção ou algo semelhante com relação a isso. O nebari nada mais é que as raízes de sustentação da planta, que a mantêm firmemente presa ao solo, a salvo portanto dos rigores da intempérie (o clima, vento, chuva forte, granizo, nevascas, rajadas de areia, etc). É comum vermos plantas antigas com um raizame espraiado em todas as direções, sobre a superficie do solo, servindo basicamente como âncoras de sustentação da arvore, qualquer que seja a sua espécie.
Ora, em se tratando de um bonsai, termos chance de criar esse efeito, isto é, agregar raízes na área de superfície do solo, o que se chama, em japonês, de nebari (Ne significa "raiz"😉, nada mais é que um complemento, um acessório, que irá transmitir a falsa idéia de que a arvore em questão é bem mais velha do que a realidade. Uma das técnicas que todo bom cultivador aprende desde cedo é justamente a capacidade de "envelhecer" o material que tem em suas mãos, convertendo plantas jovens em árvores vetustas. O nebari, portanto, é um acessório útil e viável para essa finalidade.
A beleza estética de um nebari bem distribuído em toda a volta do tronco, ou parte dele, geralmente disposto no que chamamos "frente" do bonsai, nos induz ao fato de que temos ali, diante de nós, um tronco robusto, excepcional sob todos os aspectos, e, também, velho, muito velho. O melhor exemplo disso que temos espalhado Brasil afora é a arvore Flamboyant. Existente em parques, jardins, praças, ruas, essa árvore possuí justamente essa caracteristica peculiar de produzir um volume imenso de raizame de sustentação na superfície do solo, o que transmite, a quem vê, a falsa impressão de que está diante de uma árvore centenária, quando na verdade talvez aquela planta em vista não tenha nem 20 anos ainda.
É por aí, então, que buscamos o nebari. Por outro lado, embora seja comum e normal termos essa caracteristica na maioria das espécies, é sabido que dificilmente a encontraremos nas coníferas em geral. Exceto, claro, as coníferas de campo, de planicie, menos ingremes que as existentes em encostas, escarpas rochosas ou não. Nessas, como voce bem frisou, há uma escassez de substrato e as raízes não se perdem na superficie, indo buscar nutrientes por entre o emaranhado de rochas, pedras e outras raízes solo adentro.
Uma conífera, junipero ou pinheiro, poderá ter ou não nebari, quando de sua retirada do solo (yamadori), e este será preservado, se possível, sempre obedecendo ao carater puramento estético, que futuramente será um indicador de idade para a planta. Se não existir, por outro lado, não há o que contrapor, pois ao contrário das decíduas e sempre verdes, não é possível, na maioria das vezes, trabalhar o tronco visando sua obtenção. Enquanto naquelas sempre poderemos forçar a saída do nebari via alporque de base, nas coníferas tal procedimento invasivo quase sempre levaria à morte da planta.
Por outro lado, se nossa planta for obtida via germinação de sementes, ou estaquia, aí a conversa é outra. Isso por que, graças a constante intervenção do cultivador, é possível sim obter um nebari, inclusive tão ou mais radial quanto o que vemos nas demais espécies, numa conífera. Um pinheiro germinado de uma semente qualquer, quando consta com uns poucos cm, recebe um corte chamado Sashiki, que tem por finalidade eliminar de pronto as raízes pivotantes em sua fase mais que inicial. Assim, ficando apenas uma estaquinha, é replantada novamente em areia, vindo a desenvolver então raízes radiais, que poderão ser formatadas desde o inicio para a criação de um nebari radial.
Até onde sei, não há material didático em nenhum lugar que confirme o que eu escrevi acima. Por outro lado, ao analisarmos detidamente o farto material publicado, em imagens e fotos, em revistas, livros e similares, poderemos então depreender isso, e compreender que é assim, de fato, que tudo sucede. Em relação ao Sashiki há material didático disponível:
http://www.labboshop.com.br/index.php?eid=70&acao=ex_see&id=18
Juniperos e pinheiros recuperados, isto é, proveniente de retirada direta do solo, apresentam certo grau de dificuldade quanto à sua recuperação. Então, por vezes, é preciso que o cultivador busque consolidar melhor a planta, realizando inclusive enxertos, que podem ser de raizes ou de ramas, afim de aproveitar o tronco espetacular e diferente que conseguir obter. Vai daí, então, que preservar raízes de superficie, as chamadas pivotantes de fixação lateral, nem sempre será possível, nem sempre será viável. Por isso, na maioria das vezes em que apreciamos trabalhos que mostram grandes coníferas, provenientes em sua maioria de yamadori, não terão nebari como uma decídua ou sempre verde qualquer.
Não se trata, como se pode depreender, de uma convenção, mas sim de uma peculiaridade. O nebari é acessório, portanto, dispensável se não for necessário ou atrapalhar, de alguma forma, a recuperação plena da planta. No entanto, coníferas obtidas via germinação de sementes, estaquia ou alporquia, essas sim poderão ter nebari, radial ou parcial, a depender sempre da perícia e conhecimento técnico do cultivador em questão.