Lendo este tópico tudo em mim clama por não começar a falar para não ficar difícil parar. Tantos riscos e possíveis distorções se escondem em cada conceito colocado... tantos parênteses poderiam ser colocados.... entretanto, compreendi perfeitamente o sentido pretendido por cada um e concordo com todos.
De minha parte, entretanto, não acredito que a técnica se oponha a criação, nem a razão se oponha a emoção, ou a natureza a cultura humana legada pela tradição. Como tampouco acredito que o corpo seja distinto da alma. Não estou propondo um pensamento que unifique estes conceitos opostos. Pelo contrário, acredito que haja a possibilidade de desenvolvermos um pensamento que ainda não separou estes conceitos em pares opostos. Pensar que na origem tudo é um.
Os ocidentais aprenderam a pensar através deste artifício de criar opostos, mas isso não pertence a natureza das coisas. Nietzsche dizia “não existe quente e frio e sim uma diferença de temperatura.” De fato 10 abaixo de zero é quente em relação a 50 abaixo de zero. O que é frio para o homem não o é para um pingüim. O marco que separa o quente do frio é uma criação do homem e, diga-se de passagem, junto com Nietzsche, do homem que está no poder. O mesmo acontece com o bem e mal, a verdade e a mentira, o belo e o feio, o certo e o errado, razão e emoção, técnica e criação .... nada disso pertence a natureza das coisas mas tão somente a um exercício intelectual do homem ocidental.
Alguém poderá objetar que os orientais têm também seus pares de opostos como o yin e o yang. Mas quem conhece um pouco da cultura oriental sabe que yin e yang não são de modo algum opostos como o são o certo e o errado para o ocidental. Yin e yang formam uma unidade, uma co-pertença mútua.
O exemplo mais esclarecedor desta outra perspectiva de pensamento encontrei no “Manual de pintura do jardim da semente de mostarda” republicado pelo chinês Mai-mai Sze (1957). Lá encontramos os seis cânones, ou regras básicas, da pintura, das quais gostaria de destacar somente as duas primeiras.
1. Ch´i yün sheng tung. A tradução que tenho é a seguinte: A ressonância do espírito que traz o movimento da vida.
2. Ku fa yung pi. Estrutura do osso, uma técnica de pincel.
Não é curioso? O mais transcendental seguido pelo mais objetivo. Os chineses tinham pinceladas especifícas para pintar bambu, montanhas, flores... mas sem a ressonância do espírito elas seriam meras cascas mortas. Bonsais de plástico (que horror). Por outro lado é impossível captar o espírito da vida sem a técnica do pincel. Não se trata aqui de dominar, a técnica como logo imaginamos ocidentalmente, mas de deixá-la a vontade para ela possa refletir e deixar fluir o espírito da vida. Creio que o domínio, o controle, subjugar a pincelada a uma tradição, mata qualquer possibilidade de acesso ao espírito da vida e assim todo o verdadeiro sentido da técnica. Creio que foi isso que o Mario chamou a atenção quando afirmou que algumas pessoas se deixam levar pela tecnicidade. Sendo ainda mais especifico na minha posição; a técnica da pincelada não é mero meio dominado de expressão do Tao. A ressonância do espírito e a técnica do pincel devem ser uma e a mesma coisa. Daí a festa, a mágica, a pincelada viva, o estilo (cultura) natural (vida).
Bem, quem veio até aqui lembre que eu disse que não devia começar... é que me apaixonei pela arte do bonsai porque justamente esta unidade se impõe ainda mais do que na pintura (minha profissão de fato). Que diabo, a árvore que trabalhamos sabe mais sobre o espírito da vida que nós. Nossa posição é humilde. Trata-se antes de ouvir o que ela tem a dizer, ouvir "a natureza que ama se esconder". Acompanhar solícito e obediente suas disposições para sairmos desta relação um pouco mais sábios e apaixonados pela vida. A técnica que não leva isso em consideração está destinada a matar muitas árvores e se extinguir. A outra a evoluir e se transformar.
E ..................................... 🙄 ........................................
De minha parte, entretanto, não acredito que a técnica se oponha a criação, nem a razão se oponha a emoção, ou a natureza a cultura humana legada pela tradição. Como tampouco acredito que o corpo seja distinto da alma. Não estou propondo um pensamento que unifique estes conceitos opostos. Pelo contrário, acredito que haja a possibilidade de desenvolvermos um pensamento que ainda não separou estes conceitos em pares opostos. Pensar que na origem tudo é um.
Os ocidentais aprenderam a pensar através deste artifício de criar opostos, mas isso não pertence a natureza das coisas. Nietzsche dizia “não existe quente e frio e sim uma diferença de temperatura.” De fato 10 abaixo de zero é quente em relação a 50 abaixo de zero. O que é frio para o homem não o é para um pingüim. O marco que separa o quente do frio é uma criação do homem e, diga-se de passagem, junto com Nietzsche, do homem que está no poder. O mesmo acontece com o bem e mal, a verdade e a mentira, o belo e o feio, o certo e o errado, razão e emoção, técnica e criação .... nada disso pertence a natureza das coisas mas tão somente a um exercício intelectual do homem ocidental.
Alguém poderá objetar que os orientais têm também seus pares de opostos como o yin e o yang. Mas quem conhece um pouco da cultura oriental sabe que yin e yang não são de modo algum opostos como o são o certo e o errado para o ocidental. Yin e yang formam uma unidade, uma co-pertença mútua.
O exemplo mais esclarecedor desta outra perspectiva de pensamento encontrei no “Manual de pintura do jardim da semente de mostarda” republicado pelo chinês Mai-mai Sze (1957). Lá encontramos os seis cânones, ou regras básicas, da pintura, das quais gostaria de destacar somente as duas primeiras.
1. Ch´i yün sheng tung. A tradução que tenho é a seguinte: A ressonância do espírito que traz o movimento da vida.
2. Ku fa yung pi. Estrutura do osso, uma técnica de pincel.
Não é curioso? O mais transcendental seguido pelo mais objetivo. Os chineses tinham pinceladas especifícas para pintar bambu, montanhas, flores... mas sem a ressonância do espírito elas seriam meras cascas mortas. Bonsais de plástico (que horror). Por outro lado é impossível captar o espírito da vida sem a técnica do pincel. Não se trata aqui de dominar, a técnica como logo imaginamos ocidentalmente, mas de deixá-la a vontade para ela possa refletir e deixar fluir o espírito da vida. Creio que o domínio, o controle, subjugar a pincelada a uma tradição, mata qualquer possibilidade de acesso ao espírito da vida e assim todo o verdadeiro sentido da técnica. Creio que foi isso que o Mario chamou a atenção quando afirmou que algumas pessoas se deixam levar pela tecnicidade. Sendo ainda mais especifico na minha posição; a técnica da pincelada não é mero meio dominado de expressão do Tao. A ressonância do espírito e a técnica do pincel devem ser uma e a mesma coisa. Daí a festa, a mágica, a pincelada viva, o estilo (cultura) natural (vida).
Bem, quem veio até aqui lembre que eu disse que não devia começar... é que me apaixonei pela arte do bonsai porque justamente esta unidade se impõe ainda mais do que na pintura (minha profissão de fato). Que diabo, a árvore que trabalhamos sabe mais sobre o espírito da vida que nós. Nossa posição é humilde. Trata-se antes de ouvir o que ela tem a dizer, ouvir "a natureza que ama se esconder". Acompanhar solícito e obediente suas disposições para sairmos desta relação um pouco mais sábios e apaixonados pela vida. A técnica que não leva isso em consideração está destinada a matar muitas árvores e se extinguir. A outra a evoluir e se transformar.
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