Cores dos vasos 1
Ola pessoal. O Antonio Castro sugeriu que eu desenvolvesse uma análise das cores dos vasos de bonsai devido a sua importância para a harmonia do todo. Não sou especialista em bonsai, nem sei se existem princípios específicos, mas tendo alguma experiência em relação ao uso da cor posso desenvolver algumas observações no sentido do fato visual em si mesmo, buscando, na medida do possível, não emitir juízos de valor.
Bem a princípio cabe uma breve introdução das teorias da cor.

No círculo cromático acima temos três cores primárias e três secundárias. As cores primárias são chamadas fundamentais, pois são autônomas no sentido de não serem obtidas pela mistura de outras cores. Por isso tendem ao isolamento. As secundárias são compostas pelas primárias:
azul + amarelo = verde
azul + vermelho = violeta
vermelho + amarelo = laranja.
As secundárias são, portanto mais dinâmicas e estabelecem um diálogo com as duas primárias assim como servem de ligação entre elas.
As cores opostas no círculo se exaltam e são chamadas cores complementares. Temos três pares
Azul e laranja,
Vermelho e verde
E amarelo e violeta
Se misturarmos as três primárias obteremos os diversos matizes quebrados de terra de siena (a madeira dos troncos e os vasos de terras cota tem este tom). Estes matizes variam ora predominando, ou melhor, puxando para uma cor ou outra. Variam também no tom de claro escuro, pois se acrescentamos branco obtemos um tom quebrado que nem tem nome – tipo laminha ou cor de burro quando foge. Em geral os vasos de bonsai não pretendem roubar a atenção da árvore de modo que os Terra-de-Siena (cromaticamente neutros) são largamente utilizados. De fato mesmo quando se opta por um vaso com uma cor determinada é raro o seu emprego em um matiz muito forte e puro – o que na nomenclatura da cor se chama de saturação.
Antes de prosseguir nas análises propriamente ditas gostaria de esclarecer a metodologia que imaginei. Como não tenho tido muito tempo me parece mais cômodo ir desenvolvendo análises de determinadas cores de vaso cada uma a sua vez ao invés de escrever uma única matéria. Assim terei mais tempo de maturar as idéias e coletar exemplos significativos. Optei a princípio pela cor azul devido ao fato de ser uma cor primária e também porque a análise os matizes de Terra-de-Siena ligeiramente azulados compartilha em parte o que aqui será abordado.
VASOS AZUIS
Vejamos este belo exemplo de conjunto. Trata-se de um azul quebrado, não saturado, mas o vaso permanece podendo ser classificado como francamente azulado.

O azul é uma cor primária que dialoga com os verdes das folhagens pois os verdes são compostos de azul + amarelo. Verde e azul são também cores frias o que reforça sua relação estabelecendo assim um certo equilíbrio entre a cor do vaso e da folhagem. Entretanto, este equilíbrio é gerado entre o azul do vaso e a “azulidão” contida no verde da folhagem. Sobra portanto, nesta relação, o amarelo (contido nos verdes) das folhagens. Assim, como podemos observar, o azul do vaso valoriza os verdes mais amarelados da folhagem. No círculo cromático o azul está ao lado do verde, são cores próximas mais não iguais. O vaso azul, portanto, marca seus limites em relação a qualquer musgo ou vegetação que esteja sobre a terra. Basta imaginarmos a utilização de um vaso verde no mesmo matiz da terra para percebermos como seria inconveniente formar um bloco demasiadamente coeso neste caso.

Cabe aqui observar ainda uma outra questão relativa as teorias da cor. Como as secundárias são compostas pelas primárias elas tendem a ser mais dinâmicas. Numa escala de vários verdes que oscilam entre verdes ora mais azulados ora mais amarelados, o olhar tende a escorregar pelos matizes intermediários e parar nos mais próximos dos extremos (azul e amarelo). Grosso modo isso quer dizer que as cores primárias são mais estáticas enquanto as secundárias mais dinâmicas. Isso em, nosso caso, significa que o azul do vaso lhe empresta maior estabilidade e que os verdes da folhagem ganham com isso uma maior dinâmica. Fator esse que me parece relevante de acordo com o que se pretenda valorizar na árvore.
Mas vamos prosseguir, pois ainda falta o mais importante – a questão do contexto geral de cor. Em um contexto de cores frias como este o tom neutro do tronco adquire um certo isolamento e, por isso, um peso de destaque ou exceção. Desnecessário comentar a importância do tronco nesta obra e como a escolha das cores o valorizou. A cor também neutra do fundo certamente desvaloriza o tronco no que diz respeito a cor mais por outro lado valoriza suas variações de claro escuro. No caso, devido a tortuosidade do tronco, isto é conveniente e se mostra digno de nota o cuidado do fotografo com a iluminação a fim de expor claramente o oco do tronco.
Os tons frios também valorizam qualquer matiz quente que porventura se apresente. Estou a pensar no vermelho, ou antes, na vermelhidão, que é a terceira cor que falta ao nosso contexto. Note-se que os tons de marrom avermelhado no oco do tronco se apresentam relevantes. E não me parece irrelevante que o conjunto esteja assentado sobre uma mesinha (não sei o nome correto) de mogno avermelhado.

Neste outro exemplo tudo o que foi visto anteriormente se aplica. Sobretudo a valorização do tom quente da madeira do tronco. Mas há uma diferença. O tom de azul é mais saturado e fechado (escuro). Neste caso um musgo mais vivo, consequentemente com um verde mais saturado também, é conveniente. Mas a diferença fundamental é que o escuro do azul valoriza a luminosidade dos verdes. Os fundos escuros, por vezes pretos, também tem essa função, mas neste caso, onde o jogo de claro escuro do tronco é fundamental para sentirmos a obra, isso seria inconveniente.

E o contrário? No caso de um vaso com um tom de azul mais quebrado e neutro? Neste caso os verdes ganharam vibração. São as cores mais vivas e saturadas do conjunto. Se o tom (claro escuro) de azul quebrado fosse um pouco mais claro ele acabaria se confundindo com os tons e cores do tronco, o que em muitos casos funciona. Entretanto, os verdes escuros desta árvore, considerando-se ainda o fundo extremamente claro em que a foto foi tirada, ficariam isolados e sem “apoio”.

Este exemplo demonstra uma outra propriedade das cores. A tensão entre as cores complementares. As cores que se encontram opostas no círculo cromático criam uma relação de tensão e exaltação. No caso do azul sua complementar é o laranja. Nesta obra o azul claro e saturado do vaso exalta as frutas alaranjadas. Neste momento está perfeito, pois as frutas e o vaso têm a mesma luminosidade e intensidade de saturação, mas sem frutas me parece que seria mais conveniente um tom de azul mais escuro. Belo exemplo das dificuldades enfrentamos. A escolha do vaso nem sempre é conveniente para todas as fazes da árvore.

Aqui temos um belo exemplo da estabilidade das cores primárias. O vaso, as flores e o tronco, única referência onde encontramos traços de vermelho (Terra-de-Siena avermelhado), adquirem autonomia e isolamento um em relação ao outro. O azul do fundo em degrade também foi muito bem escolhido, pois não se confunde nem com as flores nem com o tronco. Tampouco se confunde com o vaso pois seu tom de claro escuro é bem mais luminoso.

E este? Não parece que há algo errado? De fato o azul claro do vaso não deu apoio aos verdes mais escuros da folhagem. O apoio de madeira escuro restabelece em parte o equilíbrio mas o alto grau de saturação do azul do vaso também empalideceu o verde da copa. A terra avermelhada criou uma tensão (complementar) com o verde da copa, valorizando o verde na justa medida em que poderia ficar demasiadamente esmaecido. Mas isso criou outro problema. Ficamos com duas cores primárias em baixo, o vaso e a terra, e com o tronco e a folhagem na parte superior. Isso criou um total isolamento entre a parte de baixo (estática) e a árvore. A árvore ganhou dinâmica mas o efeito foi tão forte que parece que ela quer voar para fora do vaso. O isolamento entre as partes no caso do bonsai das flores, entretanto, funcionou. Talvez por se tratarem de três elementos estáticos e não de dois, no caso um estático e outro dinâmico.
É claro não existe certo e errado quando lidamos com a arte, mas existem circunstâncias e possibilidades. Neste caso, eu particularmente, experimentaria outras opções.
Uma cobertura de musgo bem saturado integraria faria uma passagem para o verde da copa e valorizaria o tronco. Algo assim...

Bom chega de azul né? Espero que o artigo não tenha ficado muito cansativo. Em breve volto para perturbar mais comentando outras cores.
Bem a princípio cabe uma breve introdução das teorias da cor.

No círculo cromático acima temos três cores primárias e três secundárias. As cores primárias são chamadas fundamentais, pois são autônomas no sentido de não serem obtidas pela mistura de outras cores. Por isso tendem ao isolamento. As secundárias são compostas pelas primárias:
azul + amarelo = verde
azul + vermelho = violeta
vermelho + amarelo = laranja.
As secundárias são, portanto mais dinâmicas e estabelecem um diálogo com as duas primárias assim como servem de ligação entre elas.
As cores opostas no círculo se exaltam e são chamadas cores complementares. Temos três pares
Azul e laranja,
Vermelho e verde
E amarelo e violeta
Se misturarmos as três primárias obteremos os diversos matizes quebrados de terra de siena (a madeira dos troncos e os vasos de terras cota tem este tom). Estes matizes variam ora predominando, ou melhor, puxando para uma cor ou outra. Variam também no tom de claro escuro, pois se acrescentamos branco obtemos um tom quebrado que nem tem nome – tipo laminha ou cor de burro quando foge. Em geral os vasos de bonsai não pretendem roubar a atenção da árvore de modo que os Terra-de-Siena (cromaticamente neutros) são largamente utilizados. De fato mesmo quando se opta por um vaso com uma cor determinada é raro o seu emprego em um matiz muito forte e puro – o que na nomenclatura da cor se chama de saturação.
Antes de prosseguir nas análises propriamente ditas gostaria de esclarecer a metodologia que imaginei. Como não tenho tido muito tempo me parece mais cômodo ir desenvolvendo análises de determinadas cores de vaso cada uma a sua vez ao invés de escrever uma única matéria. Assim terei mais tempo de maturar as idéias e coletar exemplos significativos. Optei a princípio pela cor azul devido ao fato de ser uma cor primária e também porque a análise os matizes de Terra-de-Siena ligeiramente azulados compartilha em parte o que aqui será abordado.
VASOS AZUIS
Vejamos este belo exemplo de conjunto. Trata-se de um azul quebrado, não saturado, mas o vaso permanece podendo ser classificado como francamente azulado.

O azul é uma cor primária que dialoga com os verdes das folhagens pois os verdes são compostos de azul + amarelo. Verde e azul são também cores frias o que reforça sua relação estabelecendo assim um certo equilíbrio entre a cor do vaso e da folhagem. Entretanto, este equilíbrio é gerado entre o azul do vaso e a “azulidão” contida no verde da folhagem. Sobra portanto, nesta relação, o amarelo (contido nos verdes) das folhagens. Assim, como podemos observar, o azul do vaso valoriza os verdes mais amarelados da folhagem. No círculo cromático o azul está ao lado do verde, são cores próximas mais não iguais. O vaso azul, portanto, marca seus limites em relação a qualquer musgo ou vegetação que esteja sobre a terra. Basta imaginarmos a utilização de um vaso verde no mesmo matiz da terra para percebermos como seria inconveniente formar um bloco demasiadamente coeso neste caso.

Cabe aqui observar ainda uma outra questão relativa as teorias da cor. Como as secundárias são compostas pelas primárias elas tendem a ser mais dinâmicas. Numa escala de vários verdes que oscilam entre verdes ora mais azulados ora mais amarelados, o olhar tende a escorregar pelos matizes intermediários e parar nos mais próximos dos extremos (azul e amarelo). Grosso modo isso quer dizer que as cores primárias são mais estáticas enquanto as secundárias mais dinâmicas. Isso em, nosso caso, significa que o azul do vaso lhe empresta maior estabilidade e que os verdes da folhagem ganham com isso uma maior dinâmica. Fator esse que me parece relevante de acordo com o que se pretenda valorizar na árvore.
Mas vamos prosseguir, pois ainda falta o mais importante – a questão do contexto geral de cor. Em um contexto de cores frias como este o tom neutro do tronco adquire um certo isolamento e, por isso, um peso de destaque ou exceção. Desnecessário comentar a importância do tronco nesta obra e como a escolha das cores o valorizou. A cor também neutra do fundo certamente desvaloriza o tronco no que diz respeito a cor mais por outro lado valoriza suas variações de claro escuro. No caso, devido a tortuosidade do tronco, isto é conveniente e se mostra digno de nota o cuidado do fotografo com a iluminação a fim de expor claramente o oco do tronco.
Os tons frios também valorizam qualquer matiz quente que porventura se apresente. Estou a pensar no vermelho, ou antes, na vermelhidão, que é a terceira cor que falta ao nosso contexto. Note-se que os tons de marrom avermelhado no oco do tronco se apresentam relevantes. E não me parece irrelevante que o conjunto esteja assentado sobre uma mesinha (não sei o nome correto) de mogno avermelhado.

Neste outro exemplo tudo o que foi visto anteriormente se aplica. Sobretudo a valorização do tom quente da madeira do tronco. Mas há uma diferença. O tom de azul é mais saturado e fechado (escuro). Neste caso um musgo mais vivo, consequentemente com um verde mais saturado também, é conveniente. Mas a diferença fundamental é que o escuro do azul valoriza a luminosidade dos verdes. Os fundos escuros, por vezes pretos, também tem essa função, mas neste caso, onde o jogo de claro escuro do tronco é fundamental para sentirmos a obra, isso seria inconveniente.

E o contrário? No caso de um vaso com um tom de azul mais quebrado e neutro? Neste caso os verdes ganharam vibração. São as cores mais vivas e saturadas do conjunto. Se o tom (claro escuro) de azul quebrado fosse um pouco mais claro ele acabaria se confundindo com os tons e cores do tronco, o que em muitos casos funciona. Entretanto, os verdes escuros desta árvore, considerando-se ainda o fundo extremamente claro em que a foto foi tirada, ficariam isolados e sem “apoio”.

Este exemplo demonstra uma outra propriedade das cores. A tensão entre as cores complementares. As cores que se encontram opostas no círculo cromático criam uma relação de tensão e exaltação. No caso do azul sua complementar é o laranja. Nesta obra o azul claro e saturado do vaso exalta as frutas alaranjadas. Neste momento está perfeito, pois as frutas e o vaso têm a mesma luminosidade e intensidade de saturação, mas sem frutas me parece que seria mais conveniente um tom de azul mais escuro. Belo exemplo das dificuldades enfrentamos. A escolha do vaso nem sempre é conveniente para todas as fazes da árvore.

Aqui temos um belo exemplo da estabilidade das cores primárias. O vaso, as flores e o tronco, única referência onde encontramos traços de vermelho (Terra-de-Siena avermelhado), adquirem autonomia e isolamento um em relação ao outro. O azul do fundo em degrade também foi muito bem escolhido, pois não se confunde nem com as flores nem com o tronco. Tampouco se confunde com o vaso pois seu tom de claro escuro é bem mais luminoso.

E este? Não parece que há algo errado? De fato o azul claro do vaso não deu apoio aos verdes mais escuros da folhagem. O apoio de madeira escuro restabelece em parte o equilíbrio mas o alto grau de saturação do azul do vaso também empalideceu o verde da copa. A terra avermelhada criou uma tensão (complementar) com o verde da copa, valorizando o verde na justa medida em que poderia ficar demasiadamente esmaecido. Mas isso criou outro problema. Ficamos com duas cores primárias em baixo, o vaso e a terra, e com o tronco e a folhagem na parte superior. Isso criou um total isolamento entre a parte de baixo (estática) e a árvore. A árvore ganhou dinâmica mas o efeito foi tão forte que parece que ela quer voar para fora do vaso. O isolamento entre as partes no caso do bonsai das flores, entretanto, funcionou. Talvez por se tratarem de três elementos estáticos e não de dois, no caso um estático e outro dinâmico.
É claro não existe certo e errado quando lidamos com a arte, mas existem circunstâncias e possibilidades. Neste caso, eu particularmente, experimentaria outras opções.
Uma cobertura de musgo bem saturado integraria faria uma passagem para o verde da copa e valorizaria o tronco. Algo assim...

Bom chega de azul né? Espero que o artigo não tenha ficado muito cansativo. Em breve volto para perturbar mais comentando outras cores.