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bergson
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MensagemEnviada: Qui Mar 13, 2008 5:34 am    Assunto: Responder com citação

Kannon, a deusa da Misericórdia
(Ilustração: Cláudio Seto)



Há muitos e muitos anos, havia uma mocinha meiga e delicada em uma pequena aldeia japonesa. Com a morte de seus pais, ela vivia sozinha e contava com a ajuda dos aldeões para sobreviver. Porém, sentia-se muito sozinha e, em suas orações, vivia perguntando à deusa Kannon se um dia ela voltaria a ter uma família.

Um dia, ao sair de casa, encontrou um monge budista muito pálido, caído do outro lado da rua, em frente à sua casa.

– Monge, o que o senhor tem? – perguntou a menina, colocando a mão na testa do rapaz.

– Nossa, tem febre alta! – disse para si mesma.

Com muito esforço, a mocinha arrastou o monge para dentro de sua casa. Em seguida, acomodou-o em um dos quartos e resolveu fazer um mingau de arroz para o religioso, que estava muito debilitado. Mas, na cozinha, viu que o cereal tinha acabado. Foi, então, à casa vizinha para conseguir um pouco de arroz.

– Desculpe-me, vizinha, a senhora pode me dar um pouco de arroz?

– Claro, mas quero que me ajude quando eu for plantar as mudas de arroz.

– Sim, pode contar com minha ajuda.

A garota foi à outra casa na vizinhança e pediu:

– O senhor teria algum remédio para febre? Será que poderia me dar um pouco?

– Sim, naturalmente, mas, por favor, no dia do plantio das mudas de arroz, quero que me ajude.

– Está bem, agradeço pelo remédio.

Assim, visitou várias casas para conseguir missô (pasta de soja para fazer sopa), tofu (queijo de soja), peixe, vegetais, leite e assim por diante.

Dessa forma, visitou 20 casas, nos três dias em que o monge ficou acamado. Em todas elas, os aldeões pediram à menina que os ajudasse no dia de plantação de mudas de arroz.

Quando o monge já havia recuperado a saúde e partiu para continuar sua peregrinação, deu a menina uma estatueta.

– Obrigado por seus cuidados amáveis. Agora estou muito bem e vou lhe dar esta deusa Kannon (deusa da Misericórdia) como símbolo da minha gratidão.

Uma semana depois, um vizinho avisou a garota:

– Amanhã é o dia em que minha família vai plantar mudas de arroz. Vamos esperar sua ajuda. Assim, um após outro, os lavradores vieram trazendo o mesmo recado. No total, 20 vizinhos disseram a mesma coisa: “Amanhã conto com sua ajuda”.

– Oh, que devo fazer? Eu não posso ajudar os 20 vizinhos a plantar mudas ao mesmo tempo. Deusa Kannon, ajude-me, por favor. O que devo fazer, afinal? Assim, rezou com grande fervor diante da pequena estátua de Kannon.

Enquanto isso, o monge também rezava por ela no alto de uma montanha. De repente, um clarão surgiu no ar e uma bela figura da deusa Kannon apareceu.

– Ouça-me, monge. Neste momento, a menina que lhe ajudou está com sérios problemas. É a sua vez de ajudá-la. Leve consigo 19 garotas para a aldeia dos plantadores de arroz – dizendo isso, a deusa da Misericórdia desapareceu.

O monge visitou várias casas da cidade vizinha, perguntando em cada uma se não tinha alguma jovem que pudesse ajudar na plantação das mudas de arroz. Assim, conseguiu várias mocinhas dispostas a ajudar na plantação.

Na véspera do dia de plantar arroz, a menina ajoelhou-se diante da estatueta de Kannon e rezou:

– Eu não posso ajudar todos ao mesmo tempo. Então, terei que optar por ajudar um dos vizinhos. Se eu trabalhar duramente, é certo que a deusa Kannon vai me ajudar.

Nessa noite, choveu bastante, e amanheceu chovendo no dia seguinte. A menina levantou cedo e bem disposta. Apanhou um chapéu de mino (palha) e um mino-kasa (capa de palha de arroz) e saiu em direção à horta, que ficava no final da aldeia.

Para ela, toda a vizinhança era muito boa, porém, foi trabalhar na última horta da aldeia, porque ali havia um rapaz de quem ela gostava muito. Enquanto isso, o monge e as 19 garotas, igualmente vestidas com chapéu e capa de palha, chegaram à aldeia e se dirigiram cada uma para uma horta. Assim, todas ajudaram na plantação de mudas de arroz, que no Japão é quase um ritual.

No final do dia, com a missão cumprida, cada aldeão agradeceu a respectiva menina pela ajuda. O monge havia ficado na casa da menina, rezando para a estatueta da deusa Kannon.

Quando a noite vinha chegando, a menina voltou para casa, e as 19 meninas e o monge retornaram à aldeia vizinha.

Na manhã seguinte, conforme costume local, os 20 aldeões vieram agradecer, trazendo um presente como símbolo de gratidão.

– Muito obrigado pela ajuda de ontem! – disseram todos eles.

Ela não entendeu direito o que tinha acontecido, porém, vendo que a estatueta da deusa Kannon estava molhada, agradeceu a ela, dizendo:

– Muito obrigada, deusa Kannon, não sei exatamente como, mas tenho a impressão que você plantou as mudas de arroz no meu lugar. Ajoelhada em frente à estátua, a menina agradeceu profundamente.

Nesse momento, apareceu por lá o rapaz que tinha a última horta da aldeia.

– Vim agradecer pela ajuda de ontem e dizer que tenho mais um pedido a lhe fazer.

– Sim, pode dizer...

– Quero pedir que se case comigo.

A garota olhou para a deusa Kannon, e ela estava sorrindo.

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Bergson
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MensagemEnviada: Qui Mar 13, 2008 10:54 am    Assunto: Responder com citação

Olá Bergson!
Grande matéria o amigo está postando.
Tomei a liberdade de escrever para o Jornal Nippo-Brasil pedindo autorização para copiar e divulgar aos associados da APB.

Abração
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"Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos." Jó 14:7
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MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 5:40 am    Assunto: Responder com citação

As origens de Maneki-Neko

Atualmente conhecido em todo o mundo como talismã da sorte e, particularmente, como talismã que atrai fregueses para casas comerciais, o Maneki-neko, o gatinho sentado que tem a patinha levantada, tem diferentes lendas a respeito de sua origem, conforme região do Japão. Esta é uma das versões do lado leste do Lago Biwa, na região central do Japão.

Conta a lenda que quando o lorde guerreiro Ii Naotaka (1590~1659) voltava do cerco e tomada do Castelo de Osaka, após ter comandado 3,2 mil homens e se destacado na Batalha de Tennoji, em março de 1615, surpreendido por uma chuva repentina, abrigou-se em baixo de uma árvore próximo do Templo Gotokuji, em Setagaya.

Gotokuji, na época, era um templo decadente, com pouca freqüência de fiéis e, portanto, muito pobre. No templo, vivia um monge budista e uma gata de nome Tama. Solitário, o monge conversava com a gatinha lamentando quase sempre a situação de penúria do templo.


Salvo pelo gato: raio atingiu a árvore no local em que Naotaka estava encostado
– A situação está cada vez pior. Hoje, nem temos arroz para comer. Bem que você podia dar uma ajuda para melhorar nossa situação, em vez de ficar dormindo o dia inteiro.


Salvo pelo gato: raio atingiu a árvore no local em que Naotaka estava encostado

Esperando a chuva passar sob a árvore, Ii Naotaka olhou para o velho templo e viu um gato sentado sobre suas patas traseiras e acenando com a pata dianteira levantada. O samurai ficou encantado pela habilidade do bichinho e foi em direção do templo para ver de perto a façanha.

Quando Naotaka chegou junto ao templo, um raio fulminante atingiu a árvore exatamente no local em que ele estava encostado. O guerreiro imediatamente percebeu que aquele gesto do gato havia salvado sua vida. Então, entrou no templo para rezar em agradecimento à graça recebida.

No salão principal, havia várias goteiras, e todo o templo estava em condição lamentável. Naotaka fez oferenda de todo o dinheiro que carregava ao altar, comentando com o monge que a sabedoria de Buda iria usar aquele dinheiro para reformar o templo. Após esse episódio, Naotaka passou a freqüentar o Gotokuji, e o local tornou-se, então, o templo oficial da família de Ii Naotaka. Conseqüentemente, tornou-se um local próspero e visitado por todas as pessoas do feudo.

Para homenagear o gesto de Tama, que tanta sorte trouxe ao templo e salvou a vida de Naotaka, foi esculpido e colocado no local uma estátua da gata com a mão levantada. As réplicas em miniaturas da estátua, que eram distribuídas no Templo Gotokuji como lembrança, tornaram-se, mais tarde, amuleto da sorte, com o nome de Maneki-Neko.

Outra versão

História também bastante conhecida, surgida nos meados da Era Edo (1615~1868), conta que existiu, no bairro de Imado, em Edo (hoje Tóquio), uma velha senhora que tinha um gato de estimação. A velhinha estava em péssimas condições financeiras, porque, devido à idade avançada, não conseguia arranjar um trabalho para garantir seu sustento.

Numa determinada ocasião, a situação ficou tão crítica, que ela não tinha mais como alimentar seu gatinho. Então, conversando com o bichinho, disse:

– É com o coração partido que terei de abandonar você. Devido à minha condição de extrema pobreza, não tenho como continuar lhe alimentando.

Depois, com lágrimas nos olhos e barriga roncando, a velhinha foi dormir. Em seu sonho, o gato apareceu e disse:
– Molde minha imagem em barro, que trará muita sorte a você.

No dia seguinte, ela resolveu fazer uma estatueta do gato, conforme o sonho havia sugerido. Enquanto ela moldava o barro, o gato estava “lavando a cara” com gestos exagerados e, achando engraçado, a velhinha resolveu moldar o bichinho com a pata levantada. Nisso, passou uma pessoa em frente de sua casa e, achando interessante, quis comprar a estatueta. Como estava dias sem comer, a velhinha vendeu a estatueta e comprou comida para ela e o gato. Assim, de barriga cheia, resolveu fazer outra estatueta para deixar como talismã da sorte. Porém, apareceu outra pessoa e comprou a segunda estatueta

Quanto mais a velhinha fazia estatuetas, mais aparecia gente para comprá-las. Com isso, ela mudou de vida e nunca mais passou necessidades. E a estatueta da sorte passou a ser conhecida como Maneki-Neko.

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MensagemEnviada: Sáb Mar 15, 2008 9:11 am    Assunto: Responder com citação

Nezumi no yomeiri
(Um noivo para a ratinha)

A Era Heian (794~1192) foi uma época de florescimento cultural do Japão, e muito gloriosa para a aristocracia. Uma era onde o luxo e o refinamento faziam parte do cotidiano. Como havia muitos homens ricos e poderosos senhores de terras e fortunas, também os ratos que viviam nos requintados palácios eram muito sofisticados e exigentes.



Em Heian-kyo, então capital do Japão, existiu um rato milionário que tinha uma única e linda filha. A ratinha era tão bonita e meiga, que seus pais sentiam grande orgulho dela. Quando ela chegou na idade de casar, os pais ficaram muito preocupados, pois achavam que rato nenhum no mundo merecia as mãos de sua linda filha. Ela merecia alguém muito mais importante que um simples rato, alguém mais poderoso do mundo!

Depois de tanto pensar e discutir a respeito, o casal chegou à conclusão de que o sr. Sol era o ser mais importante e poderoso do mundo, pois, sem ele, não existiria luz e calor. E, sem a luz, não existiria vida no mundo. Assim, levando a filha ricamente vestida, foram foi conversar com o sr. Sol, que imperava absoluto no céu.

– Sr. Sol, o senhor é o ser mais poderoso do mundo, por isso, gostaríamos que se casasse com nossa linda filha.
– Fico muito honrado com a proposta, porém, quero preveni-los de que não sou o mais poderoso do mundo. Existe o sr. Nuvem, que muitas vezes aparece no céu e impede minha missão, que é a de iluminar o mundo. Ele é tão poderoso, que me esconde de todos que querem me ver, e eu nada posso fazer.

Diante desse argumento, a família foi procurar o sr. Nuvem.
– Sr. Nuvem, o senhor é o ser mais poderoso do mundo, portanto, ficaríamos muito honrados se se casasse com nossa linda filhinha.
– Realmente, é linda a filha de vocês, porém não sou o mais poderoso do mundo.
– Existe algum ser mais poderoso que o senhor? Quem é?
– É o sr. Vento. Todas as vezes em que tento envolver o mundo inteiro, chega o sr. Vento e com um simples assopro me dissipa. Ele me leva para onde quer, e eu fico sem ação. Por isso, ele é muito mais poderoso que eu.

Assim, como queriam o noivo mais poderoso do mundo para a ratinha, foram falar com o sr. Vento.
– Sr. Vento, o senhor é o ser mais poderoso do mundo. Gostaríamos que ficasse noivo de nossa filha.
– Não sou o ser mais poderoso do mundo, porém a idéia de noivar sua linda filha me agrada muito.
– Nós queremos que ela se case com o ser mais poderoso do mundo!
– Nesse caso, acho que é o sr. Parede. Ele é tão firme, que mesmo eu, soprando com toda força, não consigo derrubá-lo. Ele é mais poderoso que eu.
– É, tem razão, vamos falar com o sr. Parede.
Assim, a família foi falar com uma parede na casa onde moravam.
– Sr. Parede, nós sabemos que o senhor é o ser mais poderoso do mundo. Aceitaria se casar com nossa linda filha?
– Eu ficaria feliz em me casar com sua filha, conheço-a desde que nasceu e ela é lindíssima. Mas devo dizer que existe um ser mais poderoso que eu.
A família ficou espantada. Seria possível existir um ser mais poderoso e resistente que o sr. Parede?
– Por favor, diga quem é este ser tão poderoso!
– Ho, ho, ho! Os seres mais poderosos do mundo são vocês, os ratos. Por mais que eu seja duro e resistente, não posso com os dentinhos afiados de vocês.

Veja quantos buracos já me fizeram.
– O senhor tem razão. Por que não pensamos nisso antes? Foi preciso conversar com os seres mais importantes que existem para descobrir essa verdade. Nós, ratos, somos os seres mais poderosos do mundo!
– Sim, nossa filha precisa se casar com um rato!
Nisso, o casal lembrou que, no buraco vizinho, morava um rato de nome Chusuke, que vivia olhando apaixonadamente para sua linda filha. E a filha ficava corada sempre que Chusuke estava por perto.

Dias depois, foi realizada uma bonita festa de casamento, que durou três dias e três noites. Chusuke foi o noivo felizardo que se casou com a mais bela ratinha do mundo. E os dois foram felizes para sempre e tiveram vários ratinhos.

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Alexandre S. Coelho
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MensagemEnviada: Sáb Mar 15, 2008 10:29 am    Assunto: Responder com citação

Caro amigo Bergson

Obrigado pela partilha, a leitura nos tras sabedoria e ensinamentos que podemos reverter para o nosso dia-a-dia Exclamation
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Abraços

Alexandre S. Coelho
Associação Nordestina de Bonsai

Bonsai, arte de transformar e ser transformado pela natureza...
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MensagemEnviada: Dom Mar 16, 2008 6:39 am    Assunto: Responder com citação

Caro Alexandre,

É apenas uma boa maneira de fazer uma boa leitura!
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MensagemEnviada: Dom Mar 16, 2008 6:42 am    Assunto: Responder com citação

Namazu


No folclore japonês, existem várias criaturas encantadas com poderes de se transformar em seres humanos, ou capazes das mais diversas peripécias além da imaginação. Entre essas criaturas, as mais conhecidas são o kitsune (raposa), o tanuki (texugo), o hebi (cobra) e o namazu (bagre). Existem várias lendas a respeito de bagres no Japão, e uma das características desse peixe é que ele tem a sensibilidade de prever terremotos. Quando está para acontecer um terremoto, dizem que os bagres se comportam de maneira estranha.

Uma lenda conta que, abaixo das ilhas do arquipélago japonês, mora o Rei dos Bagres, uma criatura gigantesca que, quando se movimenta, provoca calamidade na superfície. Felizmente, sua movimentação está controlada, pois o deus Kashima mantém o bagre gigante sob controle, graças a uma rocha sagrada que ele colocou sobre o animal. Porém, às vezes, Kashima se distrai, e o bagre consegue se movimentar, causando terremotos na superfície e levando sofrimento ao povo.



Takei Watatsu e o bagre

Esta lenda tem origem na pré-história japonesa, na planície perto do Monte Aso, em Kumamoto, na Ilha de Kyushu. Uma história do tempo mitológico em que os deuses habitavam a terra. Naquela distante época, a planície de Aso não passava de um grande lago enlameado. Certa ocasião, o deus Takei Watatsu-no-Mikoto, inspecionando a região, concluiu que o lago transformado em planície seria uma boa área para a plantação de arroz. Decidiu, então, que drenaria o local, cavando um canal para extravasar a água na extremidade ocidental do lago.

Na manhã seguinte ,Takei Watatsu cavou com muito esforço um canal perto da localidade de Teno, a nordeste do lago. A água começou a vazar em profusão, produzindo um belo espetáculo. Satisfeita, a divindade foi descansar depois de um duro dia de trabalho.

No dia seguinte, ele voltou ao lago certo de que toda água já havia escoado pela vazante, porém, para sua surpresa, somente metade da água havia saído. Procurando saber a causa, Takei logo descobriu que um namazu (bagre) gigante, de mil anos de idade, havia obstruído a passagem da água.

O enorme bagre enrolou seus barbilhões em torno de grandes pinheiros ao sul do lago, e sua cauda debulhou um dos picos mais elevados na montanha Aso.

Após algumas ponderações de como se livrar daquele gigante, Takei passou cipós de videira nas narinas do bagre gigante e amarrou-o numa enorme pedra perto da vila de Katsumi. O gigante retorceu-se em dor, e os abanos de sua cauda foram sentidos em Hebi-no-o, a mais de 13 quilômetros de distância. Aos poucos, o bagre gigante foi ficando sem força e parou de se debater. Depois acabou falecendo.

O problema era como removê-lo de lá, já que era grande e pesado demais. Takei, então, cortou o bagre em três pedaços, que foram levados pelas águas. Os pedaços foram rolando, e um deles parou perto da aldeia de Kamimashiki, que, desde então, ficou conhecida como Namazu. As outras partes rolaram mais um tanto e, onde pararam, as partes foram picadas e colocadas em seis rokka (cestas). Nesse local, nasceu uma vila, que foi chamada de Rokka.

Na planície onde existia o lago, foi plantado um grande arrozal. Apesar de verdejantes, quando chegou a época da colheita, Takei Watatsu verificou que quase não havia espigas carregadas. Foi completa frustração. Então, a divindade consultou seu amigo celeste Zenchi-no-Mikoto, o deus da Graça Divina. Ele lhe disse que aquela planície jamais daria bom arroz enquanto o espírito do milenar namazu estivesse inconformado vagando por lá.

Então, Takei mandou erigir um santuário para cultuar o bagre como deus do lago. Depois disso, o espírito do bagre encontrou a paz, e o arroz começou a prosperar na planície de Aso. Ainda hoje, na localidade de Teno, existe um santuário dedicado ao deus Namazu. Em conseqüência disso, até a Restauração Meiji, os fiéis do santuário de Aso não pescavam nem comiam o bagre.

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MensagemEnviada: Seg Mar 17, 2008 5:37 am    Assunto: Responder com citação

Ikiryô, o fantasma dos vivos

Há muitos anos, um homem deixou a hospedaria no meio da noite para seguir viagem a Nagóia. Quando ainda estava nos subúrbios de Quioto, numa encruzilhada, viu uma mulher sozinha, bonita e muita bem vestida. Era hora do boi, muito tarde para uma mulher sair para a rua sozinha. O homem pensou que provavelmente tivesse acontecido alguma coisa e ela precisasse de ajuda. Porém, continuou andando sem interromper sua viagem. Mas a mulher, dirigindo-se a ele, perguntou.



– Para onde o senhor vai?
– Vou a Nagóia – respondeu.
– O senhor deve estar com pressa, com traje de viagem tão tarde da noite. Mas, por favor, poderia parar um pouco, pois tenho de fazer uma pergunta que é muito importante para mim.
– Tudo bem, em que posso servi-la? – perguntou.
– Sabe onde fica a casa de Minbu-no-Taihu? Quero fazer-lhe uma visita, mas estou completamente perdida.
– A casa dele fica para aquele lado – disse, apontando para a direção – Gostaria de lhe ajudar, mas estou com muita pressa e não posso acompanhá-la.
– É muito importante para mim, por favor, leve-me até lá.

Constrangido, o homem saiu de seu roteiro e acompanhou a mulher. Ao mesmo tempo, sentiu certa satisfação por ajudá-la. Ela o seguiu silenciosamente até a porta de uma casa depois de caminhar cerca de uma hora.

– Aqui é a casa de Minbu-no-Taihu.
Ela agradeceu, disse que morava em Shiga com a filha e deu seu endereço.

– Quando o senhor passar em Shiga, por favor, faço questão que nos visite. Assim, terei a oportunidade de lhe oferecer um chá como agradecimento.

O homem abaixou a cabeça como cumprimento de despedida e saiu andando, porém, ao voltar a cabeça, a mulher havia desaparecido. Achou estranho, pois não a viu bater à porta, nem ninguém a abrindo. Então, voltou uns passos, examinou a porta e viu que ela estava fechada como antes. Olhou ao lado da casa, mas não havia ninguém. Ficou intrigado e pensou em bater à porta da casa, porém não queria incomodar ninguém àquela hora da noite. De repente, ouviu um grito horripilante no interior da casa. Chegou a ter impressão que alguém havia morrido de susto lá dentro. Porém, achou por bem esperar um pouco. Não seria prudente de sua parte entrar e se intrometer em questões alheias. Esperou ansiosamente que alguém abrisse a porta. Enquanto isso, começou a amanhecer.

Quando um criado abriu a porta, o homem perguntou o que aconteceu lá dentro na madrugada.

– Meu mestre tinha uma esposa em Shiga, mas a abandonou porque se juntou com outra mulher e mudou-se para cá – contou o criado. O ikiryô (espírito) da mulher anterior veio atrás do meu patrão, e a nova esposa dele ficou seriamente doente.

Nesta madrugada, a nova esposa deu um grito horrível, tentou correr e caiu morta no fundo da casa. Fico pensando, um ikiryô (espírito ou fantasma de uma pessoa viva) pode matar uma pessoa desse jeito?

Então, o viajante compreendeu. Depois que Minbu-no-Taihu abandonou a esposa, ela deixava seu corpo enquanto dormia para caçar a mulher que havia roubado seu marido. Ao se apresentar diante da mulher, em seu corpo espiritual, teria causado um susto capaz de lhe tirar a vida.

O viajante ficou atemorizado e arrependido de ter ajudado aquele fantasma, mas o que havia acontecido não havia como desfazer. Deu meia volta e seguiu sua viagem para fora de Quioto.

Alguns dias depois, recuperado do susto e descansado da viagem de volta, o assunto voltou à sua cabeça. Então, para satisfazer sua curiosidade, resolveu ir até Shiga e buscou pelo endereço fornecido pela “mulher fantasma”. Quando achou a casa, ele entrou e conversou com ela. A mulher novamente agradeceu a ajuda e disse:

– Jamais esquecerei da sua ajuda, aquela noite me deu uma grande alegria.
Lembrarei disso até a próxima encarnação.

Ato seguinte, a mulher deu ao homem doce finos e ricas peças de seda. O presente era valioso demais para se recusar, e o homem aceitou tudo de bom grado – assim conta o livro Konjaku Monogatari, compilado em 1120 no Japão.


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MensagemEnviada: Ter Mar 18, 2008 5:42 am    Assunto: Responder com citação

O cachorro de Michinaga



No Japão, existem várias lendas que contam façanhas de cachorros. E todas elas testemunham que ele é o melhor amigo do homem. A julgar pelas descrições das lendas, elas foram acontecendo ao longo do tempo, até chegar a grande quantidade que hoje existem. A lenda que escolhemos para esta edição aconteceu na Era Heian (794~1192), envolvendo o ministro plenipotenciário Fujiwara-no-Michinaga (966~1027). Em 1022, Mizunoe Inudoshi (Ano do Cachorro de Água-Yin), Michinaga mandou construir, em Quioto, o Templo Hojoji, tendo ao redor o “Jardim da Terra Pura”. Contam os historiadores que ele gostou tanto do jardim, que deixava seu palácio para visitar o templo diariamente e sempre levava consigo seu fiel cachorrinho branco.

Certa ocasião, naquele mesmo ano, quando o carro de boi que levava Michinaga aproximou-se do templo, o cachorrinho correu na frente, parou na entrada e latiu tanto, que impediu a carruagem de continuar. Michinaga desceu da carruagem, ficou observando o comportamento do animal e concluiu, pela reação do cachorro, que havia algo de errado. Então, mandou um de seus criados chamar Abe-no-Seimei, o astrólogo e adivinho da Corte.

Não tardou muito, e Seimei chegou ao local. Michinaga queria saber o que o cachorrinho estava querendo dizer com seu estranho comportamento. Seimei andou para frente, mas o cachorro não tentou impedi-lo. Pediu, então, que um dos criados fosse em direção ao templo, mas, igualmente, o cachorro não esboçou reação. Quando Michinaga tentou andar para frente, o cachorro começou a latir e a impedir sua passagem. Então, Seimei concluiu:

– Em algum lugar desta estrada existe um feitiço enterrado. Essa mandinga foi elaborada com o objetivo de prejudicá-lo. Se Vossa Excelência pisar o local em que ela está enterrada poderá ser acometido por uma terrível doença. Ainda bem que seu cachorro farejou esse instrumento do mal.
– Sabe me dizer onde o feitiço está enterrado? – perguntou o regente Michinaga.
– Ali – disse Seimei, fazendo gesto mágico e atirando um guiso no ar.
O local onde o guiso caiu foi cavado pelos criados de Michinaga. Foram encontradas duas tigelas unidas pelas bocas e amarradas em cruz com um fitilho amarelado.
– Conheço esse tipo de magia, acho que é obra do mago Doman Ashiya, meu desafeto.

Abe-no-Seimei pegou um pedaço de papel e fez origami em forma de tsuru (garça grou). Sacudiu o tsuru no ar e disse palavras sagradas. A dobradura de garça transformou-se em garça de verdade e voou na direção sul. Seimei ordenou que dois fortes criados de Michinaga seguissem a garça para ver onde ela pousaria.

Pouco tempo depois, os dois criados voltaram trazendo um velho monge à força. O regente Fujiwara-no-Michinaga fez questão de interrogá-lo pessoalmente. Interrogado por tão ilustre figura, o monge confessou que Akimitsu, o ministro da esquerda, ordenou que ele fizesse um feitiço para impregnar o regente de praga.

Michinaga tirou o cargo de Akimitsu e o exilou na distante Harima. Dizem que Akimitsu maldisse o regente pelo resto de sua vida. E, ao falecer, teria se transformado em um fantasma vingativo que andava assombrando Michinaga.

O cachorrinho que salvou a vida de Michinaga foi tratado como nobre pela criadagem de seu senhor e viveu como um rei para o resto de sua vida.

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MensagemEnviada: Qua Mar 19, 2008 5:53 am    Assunto: Responder com citação

O cavalo dos sonhos e as sete berinjelas



No Japão, existe um ditado que diz: “Se ama seu filho, deixe que ele viaje”. O imigrante japonês no Brasil conhece bem o sentido dessa frase. Há muitos e muitos anos, numa aldeia rural do Japão, viviam dois inseparáveis amigos. Eisuke era filho do chefe da aldeia, uma família abastada, dona das terras daquela região. Goro era filho de pobres lavradores, que trabalhavam nas terras do pai de Eisuke. Apesar da diferença social e econômica das famílias de ambos, eles viviam sempre juntos, desde quando pequeninos.

Certa ocasião, os dois, cansados de viverem dentro dos limites da aldeia, resolveram conhecer outras paragens e ganharam a estrada.

Caminhavam alegremente, ora cantando, ora tirando músicas assoprando folhas de bambu esticadas nos lábios. Prosseguiam a viagem despreocupados.

Dias depois, na travessia de uma montanha, perderam-se no meio da mata. A noite caiu, e a floresta transformou-se em completa escuridão. Apesar do medo, continuaram caminhando, pois permanecer ali parecia por demais perigoso. De repente, avistaram uma luz no meio da mata. Os dois rumaram apressados em direção à luz, pois devia, com certeza, ser uma casa. Por sorte, era uma hospedaria. Os meninos ficaram aliviados e pediram uma pousada para a velha dona da pensão. Cansados que estavam, Eisuke logo adormeceu. Goro, que nunca tinha dormido numa hospedaria, apesar de exausto, não conseguia pegar no sono.

De repente, percebeu que alguém estava abrindo o shoji (parede móvel de papel), então fechou os olhos e fingiu que estava dormindo. De olhos semi-serrados, viu que a dona da pensão olhou para dentro do quarto e, vendo que os dois estavam dormindo, deu uma risada horripilante e se afastou corredor. Goro ficou arrepiado de medo, aquela não era uma situação normal.

Da porta corrediça que a velha deixou semi-aberta, Goro podia vê-la na sala no fim do corredor. A velha sentou-se perto do irori (fogareiro), mexeu as cinzas com dois palitos de ferro e acendeu o fogo assoprando as brasas no centro do irori. Em seguida, depositou algumas sementes nas cinzas. Goro não estava entendendo nada do que estava acontecendo.

Para a surpresa do menino, as sementes plantadas começaram a brotar e a crescer em segundos. As folhas finas e compridas denunciavam que eram pés de arroz, que incrivelmente começaram a soltar cachos, que ,carregados, fizeram as hastes curvarem. Segundos depois, os cachos pendentes ficaram amarelos e prontos para ser colhidos.

A velha colheu o arroz, tirou a casca esfregando-o em uma peneira de bambu e cozinhou-o no fogareiro. Depois, amassou-o num pequeno pilão e fez quatro motis (bolinhos de arroz glutinoso). Goro, que assistiu a tudo, pensou em contar para o amigo, mas, vendo Eisuke roncando, resolveu deixar para o dia seguinte. Cansado, Goro também acabou pegando no sono.

No dia seguinte, quando Goro despertou, o sol já estava alto. Olhou para o leito ao lado e viu que Eisuke já havia se levantado. Então, levantou-se depressa e correu para a sala. A dona da hospedaria estava oferecendo os bolinhos para Eisuke. Goro gritou para que ele não comesse aquele moti, porém, era tarde. Eisike havia posto o bolinho na boca e degustou-o com satisfação.

– Nossa, que bolinho gostoso. Quero mais.
– Sim, coma! – disse a dona da pensão.
– Não coma! – gritou Goro.


Mas era tarde. Eisuke botou as mãos sobre a barriga, começou a se contorcer e, por mais incrível que possa parecer, transformou-se num cavalo. Um cavalo bonito, mas diferente de todos os cavalos que o menino tinha visto até então. Um cavalo todo colorido, como se fosse um cavalo de sonhos. Goro ficou paralisado de susto. Compreendeu que a velha dona da pensão era, na verdade, uma Yamanbá (bruxa da montanha), que transforma todos os viajantes que ali se hospedam em cavalos de sonhos. Já havia ouvido qualquer coisa a respeito, mas não acreditou que pudesse ser verdade. No entanto, seu amigo Eisuke era agora um cavalo de sonhos, com colorido impressionantemente belo e maluco.

– É sua vez. Coma os motis, garoto – disse a velha, esticando o prato com dois bolinhos ao garoto.

Goro estava paralisado de medo, mas, numa reação desesperada, derrubou o prato dos bolinhos com a mão e saiu correndo da casa. Correu desesperadamente, sem rumo, até que avistou uma casa de lavrador no vale.

Quando Goro abriu os olhos, estava estirado sobre um tatame (esteira de palha) na casa do vale. Um velhinho com barba e cabelos compridos, que aguardava pelo seu despertar, sorriu e disse:

– Vejo que está melhor. Você bateu na minha porta e desmaiou de canseira.
– Estou com sede. Muita sede – disse Goro, percebendo que estava diante de um Sennin (sábio imortal), e que só ele poderia ajudá-lo a salvar seu amigo.

Depois que tomou várias tigelas de água, Goro contou o ocorrido ao bom velhinho e pediu ajuda para salvar seu amigo. O ancião ensinou, então, que o único modo de salvar Eisuke era fazer ele comer sete berinjelas de um mesmo pé.

– Só assim seu amigo voltará a ser humano. Em seguida, o velho fez um mapa ensinando onde o menino poderia encontrar uma grande plantação de berinjelas e como chegar de volta à casa da Yamanbá. Assim, Goro, agradecendo ao velhinho, seguiu o que indicava o mapa.

A plantação de berinjela era enorme. Goro saiu contando pé por pé quantas berinjelas tinha cada um. Depois de várias horas, finalmente achou um pé com as sete berinjelas. Então, arrancou o arbusto e foi em direção à casa da Yamanbá.

O cavalo estava amarrado em uma árvore ao lado da “hospedaria”. Goro aproximou-se sorrateiramente, desamarrou a corda e disse:

– Eisuke, escute, sou eu, Goro.
O cavalo olhou-o como se reconhecesse o amigo e balançou a cabeça no sentido vertical.
– Olha, você tem que comer estas sete berinjelas. Assim que as comer, o encanto se quebrará, e você voltará a ser gente – o cavalo fez movimento horizontal com a cabeça, como quem desaprova a idéia.
– Puxa, agora lembrei que você não gosta de berinjelas. Sua mãe vive dizendo para você comer berinjelas, mas você as detesta. Só que, desta vez, você vai ter de comer as sete, se não quiser continuar cavalo para o resto da vida. Essas berinjelas foram sugeridas por um Sennin, não tem erro.

Assim, fazendo cara de poucos amigos, o cavalo começou a comer as berinjelas. Depois, ao digerir a última, como num passe de mágica, voltou a ser Eisuke. Os dois se abraçaram de alegria e trataram de fugir do local o mais rápido possível. De volta à aldeia, cada um foi para sua casa e, durante bom tempo, tiveram histórias para contar. Anos depois, tornaram-se sócios em plantação de berinjelas e continuaram bons amigos para sempre.

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MensagemEnviada: Qui Mar 20, 2008 8:57 am    Assunto: Responder com citação

A lenda do Nobre Cachorro

Há muitos e muitos anos, na Era Mitológica, em Takama no Hara, a Alta Planície Celeste, Amaterasu Oomikami, a Augusta deusa Sol, pediu para o deus guerreiro Ama-no-Wakahiko (Jovem Divindade Celeste) que fosse a Mizuho no Kuni (País das Espigas de Arroz), hoje Japão, para verificar se os habitantes locais eram fiéis a sua soberania, pois havia comentários de que chefes das tribos terrestres eram por demais indisciplinados, arrogantes e não prestariam obediências a nenhum deus celeste.



Nessa época, Zenchi-no-Mikoto (deus da Graça Divina) estava para selecionar alguns animais para comandar simbolicamente o destino da humanidade. Então, pediu que Wakahiko, quando chegasse ao País das Espigas de Arroz, dialogasse e convidasse vários animais interessantes para estarem no Monte Fuji, na manhã do ano-novo. Os primeiros doze que chegassem receberiam o honroso título de Nobres Animais-Signos.

O guerreiro celeste Wakahiko, procedeu conforme o pedido da divindade Zenchi-no-Mikoto e entrevistou muitos animais. Aqueles que ele considerava interessantes convidava para comparecer ao Monte Fuji. Assim, o cachorro e o gato foram convocados para dialogar com ele. Tanto o cachorro como o gato queriam ser um dos escolhidos e travou-se um clima de competição entre eles.

O gato contou para Wakahiko que o cachorro comia demais e tudo que sabia fazer era ficar tomando conta de portas. Por sua vez, o cachorro disse ao Divino Guerreiro que o gato costumava roubar comida e só comia do bom e do melhor. Além disso, a única coisa que sabia fazer era correr atrás de ratos. Assim, os dois começaram a travar uma feroz discussão diante de Wakahiko.

A certa altura da conversa, o Guerreiro Celeste perguntou ao cachorro quanto ele comia por dia. O cachorro respondeu com honestidade que comia uma tigela grande de comida a cada refeição. Então, Wakahiko fez a mesma pergunta ao gato, que, bancando o esperto, respondeu que só lhe davam uma tigela pequena de comida por dia, por isso era menor que o cachorro. Wakahiko ficou com pena do gato e disse que ele tinha bom argumento em querer ser um Nobre Animal-Signo, mas que o cachorro também poderia participar da escalada ao topo do Monte Fuji.

Sabendo que o rato havia sido convidado anteriormente, o gato, como era dorminhoco, pediu insistentemente para ele que o acordasse bem cedo na manhã do ano-novo. Porém, quando o dia chegou, o rato deixou o gato dormindo e foi em direção ao Monte Fuji. Apesar da fama de dorminhoco, havia muita ansiedade, e o gato até que acordou cedo naquele ano-novo. Mas, na hora que ia saindo de casa, viu o cachorro indo à sua frente. Então, deu um tempo, com medo de que o cachorro o atacasse por ele ter mentido ao guerreiro Wakahiko.

Quando os primeiros raios de sol do novo ano iluminaram o Monte Fuji, a divindade Zenchi-no-Mikoto chegou ao topo em seu cavalo alado. Em seguida, foi nomeando os animais por ordem de chegada. O cachorro chegou ao topo do monte quando a lista dos doze já estava quase completa. Restava somente dois lugares a serem preenchidos. O cachorro recebeu da divindade Zenchi-no-Mikoto a outorga de Nobre Cachorro-Signo, por sua sinceridade. Dessa forma, o Nobre Cachorro passou a compor os doze animais do Zenchi Junishi Onmyodo, também conhecido como horóscopo japonês.

Quando o gato chegou ao topo do Monte Fuji, já estava completo o grupo dos 12 animais signos. Assim, o gato ficou fora do panteão dos Nobres Animais-Signos, porque o javali chegou antes dele por acaso. Por isso, o gato ficou com muita raiva do rato, que não o acordou conforme o combinado. Então, até hoje ele persegue o rato para dar lhe uma lição. Por sua vez, o cachorro persegue o gato, que usou de mentiras contra ele diante do Guerreiro Celeste.

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MensagemEnviada: Sex Mar 21, 2008 7:14 am    Assunto: Responder com citação

Hariko Inu, o cão-guardião



Os cães são protetores naturais dos homens, são fiéis aos seus donos e estão sempre ao seu lado, com a incrível capacidade de detectar situações perigosas às quais estão sujeitos no cotidiano. Antigamente, os japoneses acreditavam que os cães tinham faro para identificar os oni (demônios), que, muitas vezes, se disfarçavam em forma humana para infiltrar-se em povoados e praticar o mal. A crença popular nipônica conta que os cachorros são associados à proteção de crianças, por isso existe um talismã antigo, que até hoje é muito popular, chamado Hariko Inu; trata-se de um cachorrinho feito de papel machê e pintado com cores fortes. Dizem que esse talismã traz sorte, saúde e proteção. Por isso, as mães, quando vão ganhar um filho, ou quando a família tem bebê em casa, deixam o Hariko Inu enfeitando o quarto, para que a criança cresça com saúde e esteja sempre protegida dos demônios.

Existem algumas versões sobre a origem do Hariko Inu, mas esta é particularmente interessante, porque envolve o grande mestre Kukai (nascido no Ano do Tigre de Madeira – 774) que ficou conhecido, após a sua morte, como Kobo Daishi, o fundador da seita budista Shingon.

Durante sua peregrinação na ilha de Shikoku, o monge Kukai passou a noite na cabana de um lavrador. O dono da casa era um senhor muito amável e o hospedou com grande alegria e cordialidade. Kukai, então, disse que gostaria de recompensá-los pela hospedagem e pediu que dissessem como ou quanto deveria pagar.

O lavrador recusou pagamento, mas, devido à insistência do monge, disse que gostaria de receber um amuleto e justificou:

- Nós não tivemos sorte com o tempo nesses últimos anos. Nossa plantação de arroz tem sido devastada por javalis selvagens e, quando os cachos de arroz estão madurando, são devorados pelos pássaros. Sem dizer que, às vezes, existem secas em época de crescimento ou enchentes antes da colheita.

O monge, então, rabiscou alguma coisa em um pedaço de papel, depois dobrou-o cuidadosamente em forma de envelope. Essa dobradura foi pregada na porta do celeiro.

Naquele ano, a colheita foi normal, nenhuma intempérie veio a prejudicar a boa safra. No ano seguinte, a mesma felicidade. Os agricultores festejaram a boa colheita com um festival de tambores e danças. No terceiro ano, a mesma coisa.

O agricultor e a esposa estavam muito felizes com a simpatia que o monge Kukai havia lhes presenteado. Porém, durante os três anos a curiosidade foi crescendo, crescendo e até que, não agüentando mais, abriram o papel para ver o que o monge havia rabiscado ali.

Não deu tempo de o casal ver o que estava escrito no papel. Bastou começar abrir a dobradura e um cachorro pulou para fora do papel. O cachorro sumiu, nunca mais voltou, e ninguém sabe para onde ele foi. O papel estava em branco, mas o lavrador e sua esposa haviam visto Kukai rabiscar alguma coisa nele. Desde então, a colheita não foi mais boa. Como se houvesse perdido a proteção divina, a plantação de arroz passou por toda sorte de dificuldades, até mesmo ataque de insetos.

O pessoal da aldeia raciocinou que o cachorro estava protegendo a casa e a plantação de arroz. E, desde então, passaram a confeccionar pequenos cachorros de papel machê, para ficar de guarda, protegendo a casa e as crianças enquanto os pais trabalhavam na roça.

Restou a curiosidade do povo. Alguns disseram que o monge teria escrito simplesmente a palavra inu (cão); outros disseram que ele fez desenho de um cachorro, pois, além de monge, calígrafo e poeta, era excelente desenhista. Há também estudiosos de seitas que afirmam que Kukai escreveu Inukami, que pode ser traduzido como “deus cão” (inu=cão e kami = deus). Uma vez que papel também é kami em japonês, quando o casal abriu a dobradura, a palavra ganhou vida e materializou-se em animal.

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MensagemEnviada: Sáb Mar 22, 2008 8:40 am    Assunto: Responder com citação

Binbogami



Há muitos e muitos anos, em uma pequena aldeia japonesa, vivia um casal muito pobre. Com idade consideravelmente avançada, marido e mulher trabalhavam bastante, mas continuavam sempre pobres.

– Eu estou cheio de ser pobre. Quero beber e comer do bom e do melhor, comprar roupas bonitas e ir passear em uma grande cidade – disse o marido à sua mulher.
– Isto é um sonho impossível. Para não morrer de desgosto, a melhor coisa a fazer é continuar trabalhando seriamente em nossa lavoura, sem perder as esperanças – respondeu a esposa.
– É...acho que você tem razão.
Assim, o casal continuou trabalhando duramente na lavoura. Labutavam de cedo até a noite. Mas, por mais esforço que fizessem, não sobrava dinheiro nenhum. Quando a época da colheita chegava, as espigas de arroz que pareciam carregadas não apresentavam grandes resultados.

Porém, um certo ano, na véspera do ano-novo, em contraste com os anos anteriores, a mulher estava feliz. Havia um farto banquete sobre a mesa.
– Devemos agradecer a Zenchi-no-Mikoto, o deus da Graça Divina, pois, este ano, depois de fazer um pedido a ele, consegui guardar algumas moedas. Todos os meses, eu guardava algumas moedas na horta, dentro de um pote, e agora temos uma boa quantia. Pude comprar iguarias e arroz glutinoso para fazer moti, o bolinho da sorte.
– Nossa, que bela surpresa! Enquanto eu ficava lamentando todos os dias a nossa pobreza aqui dentro de casa, você conseguiu juntar um bom dinheiro na horta! – disse o marido, olhando para dentro do pote de barro onde a mulher tinha guardado as moedas.
– Agora, temos bolinho da sorte e vamos comer amanhã no primeiro dia do ano. Assim, teremos um ano de fartura! Pois, dizem por aí que quem come moti no primeiro dia do ano pode tornar-se kanemochi (possuidor de dinheiro), zaisanmochi (possuidor de herança), fukumochi (possuidor de sorte), tochimochi (possuidor de terras) e possuidor de muitas coisas mais.
Nisso, eles ouviram um grito que veio do sótão. Era Binbogami, o deus da Pobreza, que havia botado a cara para fora do sótão.
– Ah, então é isso! Temos um Binbogami morando em nossa casa. É por isso que trabalhamos muito, mas de nada valeu! Por sua causa, nunca conseguimos ganhar dinheiro – disse o dono da casa ao deus da Pobreza.
– Vocês me enganaram. Guardaram dinheiro longe da casa, por isso ficou fora do alcance do meu poder empobrecedor. Fizeram um rico banquete para o ano-novo e isso vai atrair o Daikoku, o deus da Fortuna. Aliás, tenho que ir embora, porque ele já deve estar chegando.
– Nossa vida vai melhorar daqui para frente. Ele vai embora – disse a mulher.
– Já vai tarde – disse o marido.
– Isso são modos de tratar quem viveu com vocês por tanto tempo? Saibam que existem valores mais importantes que o dinheiro. A verdadeira riqueza está no coração, e não num cofre cheio de moedas.

Binbogami continuou falando e começou a chorar, porque não queria ir embora. Disse que adorava os dono da casa, por isso sempre se sentiu à vontade e nunca os incomodou; que gostava de cantar a mesma música que os dois sempre cantavam. Aos poucos, o casal foi ficando com pena do deus da Pobreza e passou a consolá-lo.

– Reconsidere sua decisão de partir e continue morando aqui – disse o dono da casa, penalizado.
– Mas o deus da Fortuna vai chegar a qualquer momento, é impossível dois deuses viverem na mesma casa.
– Se chegar, expulse-o. Empurre-o para fora da casa.
– Mas eu não tenho força. Vivo com fome e não tenho energia para lutar com ele.
– Pois, então, coma à vontade. Temos peixe, verduras cozidas e bolinhos de arroz – disse a mulher, oferecendo uma tigela e um par de hashi (pauzinhos para levar comida à boca).
– Nossa! Nunca comi uma refeição tão gostosa! Por favor, mais uma tigela de arroz.
Com a barriga cheia, Binbogami se sentiu em condição de enfrentar o deus da Fortuna. Então, vestiu uma tanga de sumô (luta japonesa) e fez exercícios de alongamento, enquanto esperava a vinda de Daikoku.

De repente, na rua, diante da casa estava o deus da Fortuna.
- Oh! Essa é a casa onde vou morar a partir de hoje! – a divindade abriu a porta e foi entrando.
– Com licença, sou Daikoku, o deus da Fortuna. Vim aqui para morar e vou fazer os donos da casa muito ricos. Binbogami, você já não é hóspede desta casa, portanto, caia fora logo.
– Não, eu nunca vou sair desta casa. Quero ficar aqui para sempre! Meu amo e sua mulher me disseram para empurrá-lo para fora. Vou mostrar do que sou capaz. Desta vez, a pobreza não será derrotada pela fortuna.
Dizendo isso, Binbogami atacou Daikoku com toda a força. Surpreso, o deus da Fortuna, olhando para o casal, disse:
– Não dá para acreditar que vocês preferem viver com o deus da Pobreza. Estão malucos.

Como num golpe de sumô, Binbogami deu um empurrão em Daikoku e o jogou para fora da casa. Daikoku caiu sentado no meio da rua e, ainda atordoado com a queda, saiu resmungando e foi embora.
– Nunca mais volto para esta casa. O Binbogami que mora aqui é metido a lutador de sumô, e os donos da casa, excêntricos demais, preferem a pobreza à riqueza.
Assim, Daikoku foi embora sem perceber que tinha derrubado seu Uchide no kozuchi, o malho mágico da fortuna. Vendo aquele objeto caído perto da porta, Binbogani pegou-o e disse:
– Nossa, é o martelo mágico da fortuna! Basta malhar com este martelo que moedas de ouro vão surgindo a granel. Se Daikoku perdeu seu martelo mágico, ele não é mais o deus da Fortuna. Eu, sim, que tenho o martelo, agora sou o deus da Fortuna.

Olhando para os donos da casa, o ex-Binbogami disse, enquanto se dirigia ao sótão:
– Peçam o que quiserem, que agora posso lhes dar. Nunca mais serei o deus da Pobreza.
O casal continuou trabalhando, levou uma vida feliz e nunca mais faltou dinheiro.

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MensagemEnviada: Dom Mar 23, 2008 8:47 am    Assunto: Responder com citação

Binbogami e o preguiçoso



Há muitos e muitos anos, viveu numa aldeia japonesa um homem muito preguiçoso e pobre. Ele vivia se queixando de sua condição de pobreza, sem raciocinar que, se trabalhasse, poderia amenizar pelo menos um pouco a sua situação financeira.

Inconformado com a situação em que vivia, foi para a casa do homem mais rico da aldeia e perguntou:

- Não entendo por que sou tão pobre e não estou conformado com isso. Por favor, diga-me como devo agir para resolver minha situação.
- Quando a pessoa é pobre por muito tempo, é sinal de que em sua casa mora um Binbogami, o deus da Pobreza. O único modo de melhorar a situação é expulsando essa criatura de sua casa.- Mas, senhor, eu nunca vi nenhuma criatura estranha morando em minha casa.
- Ele nem sempre é visível, principalmente quando a casa está suja demais. Dizem que, quanto mais suja a casa, mais ele gosta, e mais invisível se torna, porque seu espírito “encosta” em algum objeto, animal preguiçoso ou pessoa pessimista e fica o tempo todo morando na casa sem que ninguém desconfie.
- E como devo agir para expulsar essa criatura de casa?
- Primeiro, você tem que fazer uma limpeza na casa, já que ele gosta da sujeira. Depois, você continua limpando diariamente, para manter a casa sempre limpa. Binbogami vai sentir-se pouco à vontade com tanta limpeza.
- Não existe um jeito mais fácil?
- Se você quer vencer na vida, terá que trabalhar bastante e sem reclamar. Quando chegar o dia 15 de novembro, cerque sua casa com um shimanawa (corda sagrada da religião xintô que separa o terreno sagrado do profano). Quando a noite chegar, dance cantando: “Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza!” Vá dançando e cantando por todos os cômodos da casa, sem parar. O deus da Pobreza não vai suportar ouvir essa música repetidamente e sairá de seu esconderijo. Assim, assustado com a limpeza que encontrará em sua casa, certamente irá embora. Depois, sua situação financeira irá de ruim para boa, e de boa para melhor.

Entusiasmado, o homem voltou para casa certo de que, a partir daquele conselho, sua vida se transformaria de água para saquê (vinho de arroz). Porém, como era muito preguiçoso, deixou a limpeza para o dia seguinte.

No dia seguinte, e nos outros que se seguiram, estava com muita preguiça e foi adiando a limpeza da casa. Na verdade, ele, em vez de começar a limpeza, ficou apenas preocupado em contar os dias que faltavam para 15 de novembro. Quando a data esperada chegou, o preguiçoso estendeu um shimenawa em volta da casa e começou a cantar dançando, como o ricaço havia lhe ensinado.

– Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza! – Apesar do jeito desajeitado de dançar e da voz pouco agradável de ouvir, sua performance era até interessante e, principalmente, muito engraçada. Enquanto dançava por toda a casa, tropeçou no cachorro preguiçoso que ele tinha.
O cachorro, que vivia o dia inteiro dormindo e tinha preguiça até de latir, esticou o pescoço lentamente e ficou assistindo a seu dono dançar. De repente, ficou de pé e começou a dançar, contracenando com seu dono. O homem ficou assustado vendo o cachorro dançando de pé. Porém, a surpresa maior veio quando o cachorro foi transformando, diante de seus olhos, num ser estranho com um chifre na cabeça e que lembrava o oni (demônio). Na verdade, o cachorro voltou a andar de quatro patas e o ser demoníaco desprendeu-se dele e foi em direção à porta.
– Nossa! Você deve ser o Binbogami, deus da Pobreza, e estava encostado no meu cachorro. Agora que deixou o cachorro, vai embora da minha casa, não é mesmo?
– Eu vou dar uma saída e volto logo. Assistindo e participando de sua dança, gostei demais. Aliás, bom demais para guardar só para mim. Por isso, vou chamar outros Binbogami para participarem também. Continue cantando e dançando. Meus amigos vão adorar essa casa suja e pobre.

Conta a lenda que, depois desse dia, a casa ficou tão cheia de Binbogamis, que nenhuma reza brava conseguiu exorcizar essas entidades malevolentes.

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MensagemEnviada: Seg Mar 24, 2008 9:32 am    Assunto: Responder com citação

De como o demônio vermelho chorou
(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)



Era uma vez, uma única vez no mukashi banashi (antigas histórias do Japão), que havia um jovem Akaoni (demônio vermelho) bonzinho, simpático e muito amável. Ele morava sozinho, isolado, numa caverna da montanha, próximo de uma aldeia. Na verdade, ele havia sido expulso dos fundões da serra, por causa de seu jeitinho dócil de ser. Os outros demônios, que tinham a fama de cruéis, violentos e maldosos, discriminavam-no e tocaram para perto da civilização. Afinal, um demônio meio maricas era algo inconcebível para os temidos onis do velho Japão. Então, só lhe restou um amigo, Aooni, mas este demônio, por ser azul, morava em outra montanha, onde residiam os demônios da cor dele.

Akaoni, uma vez que não era aceito entre seus semelhantes, alimentou o sonho de viver amigavelmente entre os seres humanos. Queria travar amizade com o povo da aldeia que existia próximo de sua caverna. Porém, embora bonzinho, ele tinha chifres na cabeça, a pele vermelha e a cara feia demais para o gosto das pessoas. Por isso, o povo da aldeia temia sua presença nas proximidades e evitavam passar perto de sua caverna.

Uma bela manhã de primavera, quando a montanha estava coberta de flores de cerejeiras, Akaoni acordou inspirado, escreveu uma placa e pendurou-a numa árvore na beira de uma picada, próximo de sua caverna: “Na caverna, mora um oni bondoso, cujo sonho é fazer amizade e viver em harmonia com o povo da aldeia. Vá visitá-lo, há bolinhos de arroz e chá para recebê-lo”.

Assim, Akaoni limpou a caverna e ficou ansiosamente esperando que alguém lesse a placa e aceitasse seu convite. Antes mesmo do meio-dia, dois agricultores curiosos apareceram na entrada da caverna. Akaoni recebeu-os com toda a cortesia e ofereceu-lhes chá com bolinhos sem esconder sua alegria em ter pessoas da aldeia em seu lar.

Porém, os agricultores que nunca tinham visto um demônio de perto, estavam desconfiados, achando que poderiam ser devorados a qualquer momento e saíram correndo antes mesmo de terminar o chá.

Akaoni ficou arrasado. Muito nervoso, foi retirar a placa e jogou-a precipício abaixo. Naquele momento, passava por lá o Aooni (Demônio Azul), o único amigo que Akaoni tinha. Ele procurou saber o que tinha acontecido e o Demônio Vermelho contou toda a história.

– Meu amigo Akaoni, os seres humanos não confiam em nós, onis. Por isso, não adianta tentar conquistar a amizade deles com gesto amável ou boa conversa. É necessária uma boa estratégia que os levem a confiar em você.

– Mas como seria isso?

– Tenho um plano. Vou até a aldeia, faço uma adorável bagunça, arrebento os móveis da casas e dou um tremendo susto neles. Aí, você aparece e me expulsa a socos e pontapés. O pessoal da vila vai achar que você é um herói salvador e será tratado com muito respeito e amizade.

Akaoni ficou meio receoso, pois aquela farsa era violenta demais para sua maneira de ser. Porém, arrastado pelo amigo, foi até a aldeia e ficou escondido.

Aooni entrou gritando na aldeia e revirando tudo que via pela frente. Diante da súbita invasão, o pessoal ficou apavorado e tremendo de medo. Aooni berrava, ameaçando devorar todos da aldeia, derrubando caixas e móveis ao chão, numa tremenda algazarra que deixava todos em pânico.

Vendo o povo apavorado, Akaoni saiu de seu esconderijo e agarrou seu amigo para que ele parasse de atormentar o povo.

– Dê um soco na minha cara! –disse baixinho o Demônio Azul.

– Eu não consigo fazer uma coisa dessas – respondeu o Demônio Vermelho.

– Se você não me der socos até me botar fora da aldeia, pensarão que é meu comparsa e lhe odiarão ainda mais.

Embora muito a contragosto, Akaoni saiu socando seu amigo até botá-lo fora da aldeia.

O povo, agradecido, baixou a cabeça para Akaoni e fez dele um herói protetor. Assim, as pessoas passaram a visitar sua caverna e tornaram-se suas amigas. Akaoni estava feliz da vida, pois finalmente havia realizado seu sonho de ser amigo dos humanos.

Porém, meses depois, começou a sentir falta do seu amigo Aooni. Os humanos eram boas pessoas, mas a maioria deles só pensava em como ganhar dinheiro. Descobriu que a amizade que as pessoas tinham por ele era apenas por interesse. Na verdade, o povo queria proteção, e não amizade.

Desde o acontecimento da aldeia, nunca mais havia visto o Demônio Azul. Então, movido pela saudade, resolveu visitar o amigo, que morava numa caverna na montanha vizinha.

Chegando na entrada da caverna, chamou Aooni, mas não obteve resposta. Entrou para verificar, mas não encontrou ninguém dentro da caverna. De repente, percebeu que havia uma carta fixada na parede. Então, apanhou-a e leu:

“Amigo Akaoni:

Sei que agora você vive feliz, contando com a amizade dos humanos da aldeia. Por isso, acho que nunca mais nos veremos. Pois, se o virem conversando comigo, vão desconfiar de você, o que não será bom. Por isso, eu resolvi ir embora. Jamais lhe esquecerei. Grande abraço de seu amigo Aooni”.

Akaoni leu a carta várias vezes, até seus olhos encherem de lágrimas. Akaoni chorou, pois havia perdido o único amigo sincero que tivera.

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Claudio Seto, 60 anos, foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor. Atualmente trabalha também nos jornais Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná. É editor do Jornal Garça da Sorte e da revista Planeta Zen.
_________________
[]s

Bergson
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Editado pela última vez por bergson em Ter Mar 25, 2008 5:54 am; num total de 1 vez
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