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ESCRITOS DO DIA A DIA

LENDAS DO JAPÃO!
30.12.2011
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MensagemEnviada: Ter Mar 25, 2008 5:49 am    Assunto: Responder com citação

O deus da Pobreza
Texto e desenhos: Claudio Seto



Há muitos e muitos anos, em algum lugar do Japão, vivia um casal que tinha muitos filhos. Apesar de a família trabalhar bastante, vivia na miséria. Um dia, desgostosos da situação, que nunca melhorava, decidiram deixar de trabalhar.

Quando o inverno chegou, já não havia nem arroz nem verduras para comer. Todos estavam sentindo muita fome, e os filhos disseram:

– Papai, nós temos muita fome, queremos comer alguma coisa.
– Perdão, eu e a mamãe trabalhamos muito, sempre demos duro, mas não sei por que sempre fomos pobres. Falei com a mamãe e decidimos deixar tudo por conta do “seja o que deus quiser”. Se vocês concordarem, saímos desta cidade e vamos tentar a sorte em outro lugar.
– Sim, nós vamos embora. Se continuarmos aqui, vamos morrer de fome – disse o filho mais velho.
Assim, resolveram que se mudariam dentro de três dias e começaram a arrumar as bagagens que levariam. Nessa noite, o pai viu uma criatura estranha em sua casa e levou um tremendo susto.
– Quem é você? O que faz aqui?
– Ora, sou o Binbogami, o deus da Pobreza, e moro aqui – respondeu o ser, que era meio homem e meio oni (demônio).
– Deus da Pobreza?
– Sim. Vivo há muito tempo nesta casa, mas nem sempre sou visível para vocês.
– E o que está fazendo agora?
– Eu vou embora com vocês, por isso estou confeccionando tabizori (calçado para viagem) de palha de arroz para mim. A viagem pode ser longa.
– Você também vai embora?
– Sim, vamos continuar vivendo em harmonia numa nova casa.
Surpreendido com tudo aquilo, à noite, o homem confidenciou tudo para a esposa, contando detalhadamente o ocorrido.
– Então é por isso que sempre fomos pobres! O deus da Pobreza mora em nossa casa.
– O pior – disse o marido – é que ele quer ir com a gente.
– Se ele for conosco, de nada vai adiantar, vamos continuar na miséria. Nesse caso, é melhor ficarmos aqui.
Ao amanhecer, o deus da Pobreza já estava esperando a família na varanda, pronto para partir com o pessoal.
– Puxa, estão demorando demais. Vou fazer mais calçados de palha, para matar o tempo enquanto espero.

O deus da Pobreza esperou o dia inteiro e nada de a família sair com as malas. No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, e ele continuou fazendo calçados para passar o tempo. Assim, esperou durante alguns dias e acabou fazendo muitos calçados. Ele até gostou de fazer sandálias e fazia-as com prazer.
Ao ver os calçados prontos, alguns vizinhos elogiaram, porque eram bem-feitos e pareciam ótimos para andar na neve. Ao ouvir os elogios, o deus da Pobreza ficou entusiasmado e passou a produzir mais ainda.

O dono da casa, vendo que todos os achavam bem-feitos, resolveu vender os calçados. Assim, levou-os até o centro do povoado, trocou-os alguns por alimentos e vendeu outros por bom preço. Porém, lembrou-se que, se o deus da Pobreza continuasse morando com eles, de nada ia adiantar ganhar algum dinheiro, que logo ficaria pobre de novo. Então, resolveu se livrar de vez de Binbogami.
– Com a venda das sandálias, recebi muito dinheiro. Por isso, vamos fazer bastante comida – disse o homem ao deus da Pobreza.
O jantar dessa noite foi regado a saquê (vinho de arroz) e muitas iguarias. O homem convidou Binbogami para jantar com a família. O deus da Pobreza, vendo toda aquela fartura, disse:
– Agora que vocês têm muito dinheiro, eu não posso continuar vivendo nesta casa. Só vou aceitar um pouco de saquê e esta noite mesmo vou embora.
Assim, pouco depois, ele calçou uma bota de palha e foi embora. O casal ficou muito feliz em se livrar do deus da Pobreza.
Antes de dormir, o pai resolveu tomar um banho de ofurô (banho quente de imersão) para amenizar o efeito do saquê. Porém, no corredor, deu de cara com Binbogami.
– Você ainda está aqui?
– Eu fui para outra casa, mas não me senti muito bem, por isso resolvi voltar.

O casal se entreolhou e pensou: “O que vamos fazer? Será que nossa sina é morar sempre com o deus da Pobreza? Pensando bem, já estamos acostumados com a presença dele aqui”.
Assim, Binbogami passava o dia inteiro fazendo sandálias e tomando goles de saquê. Como a produção era grande, concluíram que logo ia faltar palha de arroz para fazer sandálias e dar continuidade ao trabalho. Então, o casal resolveu semear arroz, para poder aproveitar a palha.
Passados alguns meses, não só o arrozal produziu belas palhas, como enormes cachos de arroz.
– Pelo menos sabemos que, agora, não vai mais faltar arroz para comer – disse o dono da casa para a esposa.
– Acho que, sobre o efeito alcoólico do saquê, o poder empobrecedor de Binbogami foi amenizado.
Contam que eles nunca chegaram a se tornar ricos com a venda das sandálias ou do arroz, mas pelo menos não faltou mais dinheiro e viveram felizes para sempre.

Comentário:
Antigamente, no Japão, quando uma família era muito pobre, as pessoas acreditavam que o motivo era que Binbogami (deus da Pobreza) habitava na casa dessa família. Então, realizavam rituais de purificação (orahai) ou exorcismos para expulsar o deus da Pobreza. Existem várias lendas que falam de Binbogami, mas ele não tem o biótipo definido como outros personagens lendários do Japão. Binbogami é retratado muitas vezes como um oni (demônio) de um só chifre, que vive no sótão da casa, ou como um velhinho anão que vive em armários de pobres. Diferente do deus da Fortuna, do deus da Sabedoria e do deus da Longevidade, que são representados com orelhas grandes, Binbogami geralmente tem as orelhas pequenas.

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MensagemEnviada: Qua Mar 26, 2008 5:48 am    Assunto: Responder com citação

Uri sennin
Texto e desenhos: Claudio Seto



No folclore japonês, existem seres imortais chamados sennin. São eremitas que vivem nas montanhas, dotados de poderes mágicos. A eles são atribuídos vários truques ilusionistas ou feitos milagrosos, como voar montados em animais e nuvens. Nos antigos casos que o povo conta, os sennin são citados em várias regiões do Japão, sendo conhecidos mais de 500 deles. Eles aparecem aos humanos em estradas montanhosas ou em sonhos caracterizados como um velhinho de barba branca que porta um cajado. Existem também muitos personagens reais, que, após acumular sabedoria durante toda a vida, se tornaram sennin em idade avançada.

Certa ocasião, há muitos e muitos anos, um carregamento de melões (uri) saiu de Yamato (antiga capital do Japão) rumo a Heian-kyo (nova capital) em uma carroça coberta por um pano grosso e puxado por três homens. No meio do caminho, a norte de Uji, os transportadores resolveram parar para um bom descanso, sob a sombra de um pé de caqui. Devido ao forte calor de verão, resolveram comer um melão cada um e deliciaram-se com a doce e cheirosa fruta.

Nesse momento, apareceu por lá um velhinho portando bastão que parou, de olho nos melões que os homem saboreavam.
– Estou com muita sede, será que não podem me presentear com um pedaço de melão?
– Gostaríamos de lhe oferecer um melão inteiro, mas a carga desta carroça é uma encomenda do palácio imperial, portanto, não podemos desfalcá-la – respondeu um dos homens, em tom de deboche.
– Vocês deviam ser mais educados com as pessoas de idade. Mas tudo bem, vou cultivar meus próprios melões para matar minha sede.
– O senhor vai morrer de sede antes de os melões madurarem – disse um dos rapazes, rindo do velhinho.
O ancião, sem se importar com a risada dos homens, fez o desenho de um canteiro com o bastão, juntou as sementes de melão que os homens haviam espalhado pelo chão e plantou no canteiro improvisado.

Os homens pararam de rir quando perceberam que as sementes recém-plantadas começaram a brotar, e as folhas foram se abrindo diante dos olhares de espanto. Os cipós cresciam sem parar e, em seguida, as flores se abriram e os frutos foram nascendo por toda parte. Em questão de minutos, o velhinho estava colhendo grandes melões maduros e de agradável aroma.

Os homens ficaram boquiabertos com o milagre que acabaram de assistir. Nem tiveram tempo para raciocinar sobre o que estava acontecendo, pois o velhinho disse:
– Vamos comer o melão que plantei e distribuí-lo para todas as pessoas sedentas que por aqui passarem.
Os homens pediram desculpas por terem sido egoístas e aceitaram de bom grado os melões que o bom velhinho estava oferecendo. Fartaram-se de comer e distribuíram a todos os transeuntes. Em dado momento, o velhinho disse:
– Vou continuar minha caminhada, porque já matei minha sede – assim, continuou em frente, até desaparecer nas curvas da estrada.
Quando os três homens voltaram também a seguir para a capital, perceberam que a carroça estava mais leve. Tiraram a lona que cobria os melões e perceberam que eles haviam desaparecido. Concluíram, então, que haviam cruzado com um sennin. E o truque ilusionista do sennin fez com eles comecem e distribuíssem os próprios melões.

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MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 8:22 am    Assunto: Responder com citação

A moça e o pinheiro
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muitos e muitos anos, vivia numa cidade litorânea do Japão uma jovem e sua velha avó. A garota perdeu os pais na infância e foi criada pela avó. Os anos foram passando e sua avó estava com a idade bastante avançada. Assim, não podendo mais trabalhar, a moça sustentava a casa trabalhando de manhã até de noite na mansão de um milionário.

Certa noite, quando a moça voltava para casa e estava no meio do caminho, começou a chover, e ela teve que se proteger em baixo de um enorme pinheiro. O vento era tão forte, que fez os galhos da árvore uivarem como voz humana em forte sussurro. Primeiro, ela levou um susto, mas depois apurou os ouvidos e pôde escutar perfeitamente o que a árvore dizia através do vento:

– Moça, sei que você trabalha muito e leva uma vida difícil, por isso quero ajudá-la. Minha vida também está muito difícil: daqui três dias vou ser cortado por lenhadores e transformado em madeira por ordem do governador desta província. Depois, serei transformado em enorme navio e levado para o mar dentro de três meses.
– Oh! Sinto muito – disse a moça, abraçando a árvore penalizada.
– Quando forem me lançar no mar, eles terão uma surpresa. Eu simplesmente não vou me mover na rampa de lançamento. Então, certamente o governador dirá “já tentamos de todas as maneiras mover esse navio, mas não estamos conseguindo. Aquele que conseguir fazer o navio mover vai ganhar uma grande recompensa. Então, você deve dizer bem alto “navio entre em movimento: um, dois, três!” Daí eu vou me mover lentamente ao mar, e você será feliz pela recompensa que receberá do governador e poderá tratar bem de sua avó, sem ter que trabalhar fora até altas horas da noite.

Na manhã seguinte, ao acordar, a moça pensou que na noite anterior estava muito cansada e andou imaginando coisas, devido ao clima de ventos e trovoadas. Porém, três dias depois, a árvore foi cortada e transformada em madeira. E, três meses mais tarde, um grande navio ficou pronto no estaleiro.

Então, chegou o dia do lançamento do navio ao mar. Todos da cidade foram ao estaleiro para ver o grande acontecimento. Na rampa de lançamento, as travas foram tiradas e muitos homens tentaram empurrar o navio ao mar. Porém, para a surpresa de todos, o navio não se movia. Fizeram de tudo, tentaram alavanca com toras, puxaram com bois, mas de nada adiantou.

Por fim, o governador ofereceu uma gorda recompensa para quem fizesse o navio se mover.

Muitas pessoas se prontificaram, porém, sem sucesso. Então, a moça candidatou-se. O homem que estava recebendo as inscrições disse:
– Muitos homens fortes tentaram e não conseguiram. Como uma moça frágil como você vai conseguir?
E todos riram dela.
– Qualquer pessoa que quiser tentar é bem-vinda – disse o governador.
A moça foi para perto do navio e disse em voz alta:
– Mova-se navio. Um, dois, três!
Para a surpresa de todos, o navio começou a deslizar rampa abaixo em direção da água e, em poucos minutos, estava flutuando glorioso no mar.
O governador e todos os presentes exclamaram:
– Que moça misteriosa! Que estranho poder!
– Não tenho poder nenhum. Eu só repeti o que a árvore me disse. E contou o ocorrido para todos os presentes.
– Vou lhe dar a recompensa prometida – disse o governador – Peça o que quiser, qualquer coisa, sem limites.
– Eu tenho uma avó de idade bastante avançada e doente. Somos pobres e não temos dinheiro para comprar arroz e roupas.
– Você é uma neta dedicada, por isso a árvore resolveu lhe ajudar.
No dia seguinte, os homens do governador chegaram carregando muitas sacas de arroz e vários baús de roupas.

Assim, a garota pôde oferecer a sua avó uma vida confortável e cheia de carinho.

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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 8:50 am    Assunto: Responder com citação

Takarabashi, a ponte do tesouro
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Esta é uma história muito antiga. Do tempo em que os fogões eram à base de carvão. Havia então um jovem carvoeiro chamado Choji, que vivia numa casinha no meio da montanha. Muito trabalhador, ele catava lenha diariamente e preparava carvão para vender na cidade.

Certa noite, o carvoeiro teve um sonho bem diferente e muito bonito. Em seu sonho, ele andava por um caminho cheio de névoa, dentro de uma paisagem onírica, quando um homem de barba branca e cabelos compridos surgiu montado em um belo cavalo branco de asas enormes em sua frente e disse categoricamente:

– Choji, vá à cidade, e procure Takarabashi, a ponte do tesouro, e você se tornará uma pessoa afortunada.

Na manhã seguinte, lembrando do sonho que lhe pareceu tão real ao mesmo tempo fantasioso, Choji ficou pensando que aquele senhor que falou com ele em sonho só podia ser Zenchi-no-Mikoto, o “Deus das Graças Divinas”, e resolveu ir até o referido local.

Como tinha algumas entregas para fazer, colocou dois sacos de carvão nas costas e desceu a montanha em direção à cidade.
Depois de entregar os sacos de carvão para o comerciante que lhe havia encomendado, Choji foi até a ponte do tesouro e ficou ali parado, esperando, mesmo sem saber o que ia acontecer.

– Que tipo de fortuna virá ao meu encontro neste local? – pensou com seus botões.
Assim, o jovem carvoeiro ficou de plantão no meio da ponte, durante horas e horas, mas nada aconteceu. Exausto de tanto esperar, acabou sentando no assoalho da ponte e, ao anoitecer, pegou no sono ali mesmo.
No segundo dia, o sol estava muito forte, mas ele agüentou firme, com medo de não estar ali caso algo de bom viesse acontecer. Porém, o dia passou, a noite chegou e nada aconteceu.

No terceiro e no quarto dias, igualmente esperou dia e noite, mas nada aconteceu.
Na noite do quinto dia, o dono da loja de tofu (queijo de soja) que ficava quase em frente à ponte, despertado pela curiosidade, veio até perto de onde estava Choji e perguntou:

– Tenho observado você e já faz cinco dias que está aqui no meio da ponte. O que está esperando afinal?
– Eu tive um sonho em que Zenchi-no-Mikoto, o “Deus da Graça Divina”, me disse para vir a essa ponte – respondeu Choji.

O tofuyá (fabricante de tofu), ouvindo o rapaz , deu uma gostosa gargalhada e disse:
– Isso é uma coisa absurda! Eu não acredito em sonho. Sonho não tem nexo. Eu também sonhei que o deus Zenchi-no-Mikoto, com sua enorme barba branca, cavalgando um belo cavalo branco, aparecia de repente e dizia: “Na montanha, vive um homem chamado Choji. Vá até lá e cave a terra ao pé do pinheiro que fica ao lado da casa dele. Você ficará muito feliz com o que vai encontrar”. Por isso que não acredito em sonho, eu não conheço ninguém chamado Choji, muito menos alguém que mora na montanha.

Ao ouvir o seu nome, o carvoeiro ficou muito surpreso. Porém, como estava muito cansado, não deixou transparecer o susto. Em seguida, voltou para casa, cavou perto do pinheiro ao lado da casa e encontrou uma arca cheia de tesouros.
A partir dessa data, passou a ser chamado de Choja (milionário) e não mais de Choji, como de costume.

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MensagemEnviada: Sáb Mar 29, 2008 9:15 pm    Assunto: Responder com citação

O guardião do tesouro (Conto Zenchi)
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



No templo Byodo-in, onde havia famosos monges guerreiros, o “guardião do tesouro budista” morreu numa luta com o famoso espadachim Miyamoto Musashi. O mestre superior convocou, então, todos os monges lanceiros para escolher quem ocuparia o honroso cargo.

– Será o guardião do tesouro budista aquele, dentre vós, que conseguir solucionar o problema que eu vou apresentar – disse o mestre aos discípulos que estavam concentrados no grande salão.

Ato seguinte, o mestre colocou uma mesinha e, sobre ela, fez um lindo arranjo floral.

– Eis o problema! Resolvam!

Todos ficaram olhando a bela ikebana sem entender o que o mestre quis expressar com aquele arranjo, simples, porém de extrema beleza. Então, começou um zunzum de pessoas pensando alto:

– O que significa?

– Qual é o mistério?

– Por que um vaso achatado e uma flor esguia? Seria in (yin) e yô (yang)?

– O que a ikebana está representando?

De repente, um dos discípulos levantou-se empunhando uma lança, foi até o centro do salão e, num gesto rápido, decepou a flor e destruiu o vaso. Depois, voltou ao seu lugar e sentou-se.

– Você é o novo guardião do tesouro budista – disse o mestre. Não importa que o problema seja algo de extrema beleza. Se for um problema, precisa ser eliminado.

Nunca é demais lembrar um pensamento japonês que diz: “Não é possível beber saquê numa xícara cheia de chá; é necessário esvaziar primeiro a xícara, para então enchê-la de saquê”.

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MensagemEnviada: Dom Mar 30, 2008 11:51 am    Assunto: Responder com citação

O Buda de madeira
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muitos e muitos anos, existiu um homem muito rico, que vivia lustrando uma estatueta de Buda fundida em ouro. Sentia-se orgulhoso mostrando a todo mundo aquela preciosidade que lhe pertencia.

Num quartinho no fundo do quintal de sua mansão, vivia um jovem empregado, cujo trabalho diário consistia em preparar banho quente de imersão (ofurô) para todos que lá viviam.

Um dia, quando o jovem foi à montanha cortar lenha, encontrou um toco de árvore retorcido, cuja forma lembrava uma estatueta de Buda. O rapaz levou-o para seu quarto e, com uma faca conseguiu um belo trabalho, fazendo acabamento na madeira. Então, colocou-o sobre um móvel e, diariamente, rezava para o Buda de madeira. Uma oração simples, mas com toda a dedicação, pois assim ele se sentia protegido.

Certo dia, um dos criados que queria agradar ao patrão sugeriu que fosse realizada uma luta de sumô entre o Buda de ouro e o Buda de madeira.

– Patrão, seu Buda de ouro é magnífico. Com certeza vai vencer a luta de sumô.
– Sem dúvida nenhuma.
Assim, mandou chamar o jovem e fez a seguinte proposta: Se o seu Buda de madeira vencer a luta, dou toda a minha fortuna a você. E todos os dias vou preparar o ofurô para todos da mansão. Esta é uma proposta irrecusável.
O jovem voltou ao seu quartinho e contou ao Buda de madeira a proposta que havia recebido. Mas se sentia desconfortável ao tratar seu Buda como se fosse um objeto de apostas.

Porém, o Buda de madeira disse:
– Por mim está bem assim, não se preocupe. Vamos nessa.
O jovem levou um susto, pois era a primeira vez que ouvia seu Buda falar. Depois, recuperado do susto, levou seu Buda para a disputa. Todos, exceto o jovem, achavam que o Buda de ouro ganharia a luta.

A luta consistia em colocar os dois Buda sobre um tablado redondo, imitando a arena de sumô. Os dois jogadores batiam com os punhos de leve, porém repetidamente no suporte, fazendo vibrar a arena. Um Buda empurraria o outro movido pela vibração. Aquele que caísse ou saísse da arena perdia a luta. Teoricamente, o Buda de ouro venceria a partida, pois ouro é muito mais pesado que madeira, portanto, mais difícil de ser derrubado, ou de ser empurrado para fora por causa da vibração.

Todos queriam apostar na vitória do Buda de ouro. Entretanto, quando começou o embate, o Buda de madeira foi empurrando o Buda de ouro até a borda da arena. Para surpresa de todos, o Buda de ouro foi posto para fora da arena.
Desesperado, o homem rico perguntou ao seu Buda:

– Por sua causa tornei-me um homem pobre. Por que foste cair?
– Não queira me culpar, porque o culpado é você. Faltou devoção de sua parte, por isso eu não tenho força. Como você queria apenas me exibir para todo o mundo por eu ser de ouro, você vivia me lustrando ao invés de rezar. Eu estava tão liso de lustro, que o Buda de madeira me deu apenas um empurrão e eu escorreguei para fora da arena.

Nesse momento, o homem reconheceu seu erro e prometeu que mudaria seu modo de ser.

O jovem ficou muito feliz com a vitória. Recebeu a fortuna prometida e viveu feliz para sempre, pois era muito generoso e distribuía comida diariamente para os pobres da região.

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MensagemEnviada: Seg Mar 31, 2008 5:35 pm    Assunto: Responder com citação

O Tengu Azul e o Tengu Vermelho
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Antigamente as florestas japonesas eram habitadas por criaturas chamadas tengu. Eram gênios da montanha com aparência humana. Uma de suas características era que tinham um leque mágico e à medida que abanava, seu nariz ia crescendo.

Nessa época, morava no alto da montanha um tengu vermelho chamado Vermelhão e um tengu azul chamado Azulão.

Certa ocasião, os dois sentados em cima de um enorme pinheiro, no pico da montanha, conversavam na maior descontração.

- Sabe amigo Vermelhão, estive pensando... Nós ficamos todos os dias daqui de cima, observando os seres humanos lá embaixo.

- É verdade amigo Azulão.
- Será que nós tengu gostamos de observar os seres humanos, amigo Vermelhão?
- Sei lá amigo Azulão, nunca pensei nisso. Observamos os humanos porque todos os tengu fazem isso.
- É verdade amigo Vermelhão.
- Amigo Azulão, quanto tempo faz que observamos eles daqui de cima?
- Acho que uns quinhentos anos, amigo Vermelhão.
- Os homens mudaram muito durante esse tempo, mas nós não mudamos nada - observou o tengu vermelho.
- Vira e mexe, eles constróem cidades, depois brigam e destróem. Depois constróem de novo, um pouco diferente, depois brigam e destróem. Vale dizer que de guerra em guerra, eles vão mudando um pouco e hoje estão completamente diferentes de quinhentos anos atrás - comentou o tengu azul.
- Acho que já sei amigo Azulão, temos que brigar e xingar. Nós nunca brigamos nestes quinhentos anos de convivência, por isso que nós estamos sempre na mesmice.
- Mas brigar para que se somos bons amigos? Para nós tengu, briga e guerra são coisas totalmente desnecessárias.
- Pois é, nunca brigamos, por isso nunca progredimos!
- Está bem, vamos brigar então. Assim, imitando os humanos, um passou a xingar o outro e ficaram de mal.

Certo dia Azulão estava, como de costume, observando as pessoas. De repente, viu alguma coisa muito bonita lá embaixo no castelo. Como ficou com vontade de tocar no belo objeto que via ao longe, começou a fazer vento no nariz com seu abanador mágico. O nariz começou a crescer, a crescer e foi crescendo na direção do castelo. O nariz atravessou rios, montes, ruas e muros do castelo, e passou em um quintal, onde uma criada estava estendendo formosos quimonos de uma princesa para secar. Distraída, a criada pendurou o quimono no nariz do tengu, pensando que era a vara de secar roupas.

Assustado com o repentino peso sobre seu nariz, o tengu recolheu seu nariz, abanando ao contrário. Como os quimonos estavam presos por grampos, foram levados para as copas das árvores. O tengu vermelho chegou no local para observar e perguntou:

- Quantos quimonos bonitos, como conseguiu?
- Alonguei meu nariz até o castelo, aí penduraram vários presentes. Vou te dar a metade.
- Não quero, estamos de mal, lembra-se? - dizendo isso Vermelhão foi para outro lugar.
Na verdade o tengu vermelho ficou com inveja de Azulão e resolveu fazer o mesmo.
- Eu também quero roupas bonitas. Vou alongar meu nariz até o castelo!
E assim, Vermelhão foi abanando e abanando seu nariz, até que esse atingisse o castelo. Alguns samurais praticavam kenjutsu, a arte do manejo da espada. Vendo aquele nariz avançando na direção deles, não tiveram dúvida, cortaram aquela coisa estranha que mais parecia uma cobra cega.

Vermelhão ao sentir uma dor aguda, recolheu o nariz mais do que depressa.
Azulão se aproximou do colega e perguntou o que havia acontecido. Vermelhão chorando de dor contou a tragédia.

Azulão penalizado disse novamente para Vermelhão não chorar mais e deu metade dos quimonos para ele. Assim os dois viveram em harmonia por mais quinhentos anos.

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MensagemEnviada: Ter Abr 01, 2008 11:03 am    Assunto: Responder com citação

O cúmulo da cortesia
Texto e desenhos: Claudio Seto



Nintoku Tenno que reinou entre os anos 313 a 399 foi um dos maiores imperadores da época proto-histórica do Japão. Conta a tradição que antes dele subir ao trono, houve uma homérica competição de modéstia e cortesia entre ele, príncipe Ohosazaki, e seu meio irmão, o Príncipe Herdeiro que residia no castelo de Uji. Foram necessários três longos anos, para os príncipes decidirem quem não seria o imperador. Isso porque, apesar do trono estar vazio, cada qual se achava menos apto de tornar-se o grande mandatário do País que o outro.

Naqueles dias, numa aldeia próxima de Naniwa, um pescador apanhou um peixe excepcionalmente grande e resolveu fazer uma cortesia ao imperador. Colocou esse peixe em um cesto e alguns menores em outro, cada cesto na extremidade de um pau, para balancear o peso. Assim, com os cestos equilibrados no ombro e seguido por mais meia dúzia de pescadores, dirigiu-se orgulhoso ao palácio em Naniwa para fazer sua oferenda.

Na portaria do palácio de Naniwa disseram ao pescador que levasse o peixe ao palácio de Uji, pois ali morava o imperador. Os pescadores percorreram em fila indiana, entre um palácio e outro e foram recebidos com grande cortesia no palácio de Uji.

Quando souberam do que se tratava, o príncipe de Uji pessoalmente lhes disse:
- Se querem presentear o imperador com esse magnífico peixe, por favor, levem para meu irmão no palácio de Naniwa. Ele é o Imperador.
Os pescadores novamente puseram o pé na estrada e foram para Naniwa. Sabendo que seu irmão recomendara pessoalmente que os peixes fossem entregues a ele, o príncipe Ohosazaki, disse com toda modéstia e cortesia:
- Eu, Imperador? Imagine uma coisa desta, sou indigno para tão grande honraria. Meu irmão sim, ele é o Imperador. Portanto, por favor, senhores pescadores, levem o peixe para ele com meus votos de grande estima e consideração.
Como o príncipe de Naniwa acrescentou ao peixe seus votos de estima, os pescadores se viram obrigados a levar o presente e o recado ao príncipe de Uji. Assim percorreram mais uma vez, a estrada que cortava vilas e arrozais.
Chegando no palácio de Uji, novamente foram mandados a Naniwa. E assim como bolinha de tênis, iam e vinham de palácio à palácio. Enquanto isso os peixes foram apodrecendo e a comitiva de pescadores puxa-sacos, deixava rastro de mau cheiro por onde passavam.

O Nihongi, o segundo livro mais antigo do Japão, conta que essa interminável competição às avessas, estava se eternizando e não chegaria a parte alguma. Então, o príncipe herdeiro disse antes de cometer suicídio: “Cheguei a conclusão que não é possível mudar a decisão de meu irmão. Enquanto eu estiver vivo ele achará que o trono é meu. Não devo mais causar problemas ao Império”.

É o cúmulo da cortesia. O príncipe herdeiro se mata para dar lugar ao seu irmão.
Quando o príncipe Ohosazaki (futuro imperador Nintoku) recebeu a notícia que seu meio irmão Príncipe Herdeiro morreu, ficou chocado. Foi para o palácio de Uji a cavalo. Diante do defunto bateu em seu peito, gritou e gemeu, expressando grande desespero.

Em seguida desatando o nó de seu cabelo e sentando-se sobre o cadáver, chamou pelo meio irmão três vezes, sacudindo-o pela gola.
- Meu irmão príncipe! Meu irmão príncipe! Meu irmão príncipe!
De repente o príncipe herdeiro voltou a vida e levantou-se. Então o príncipe Ohosazaki indagou:
- Ah! Que desgraça! Quanta tristeza! Por que fostes embora por sua própria vontade? O que pensará de mim no outro mundo o espírito do Imperador, nosso pai?
- Este é o meu destino. Ninguém poderia me deter. Se eu chegar a morada de meu pai, direi sem nada omitir, que meu irmão mais velho é um sábio e que muitas vezes tentou me ceder o trono - respondeu o Príncipe Herdeiro.
- Fico sem palavras diante de tanta cortesia.
- Cortesia fizestes Vossa Alteza, vindo de tão longe para me ver. Quero que aceite o símbolo de minha eterna gratidão.
Dizendo isso, o príncipe herdeiro ofereceu a sua irmã mais nova, nascida da mesma mãe, a princesa Yata.
- Creio que ela não é digna de se tornar sua imperatriz, mas honre-a tendo entre as damas da corte.
Depois, o Príncipe Herdeiro voltou à esquife e morreu de novo.

Comentário:
Esta lenda envolvendo personagens reais (em todos os sentidos) mostra que antes do confucionismo chegar ao Japão, e nortear os rumos do poder de Estado, o cúmulo da cortesia era visto como virtude, a ponto de um defunto de três dias, voltar à vida, só para isentar o imperador Nintoku de sua morte.

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MensagemEnviada: Qua Abr 02, 2008 12:04 pm    Assunto: Responder com citação

O desejo de visitar o Grande Santuário de Ise e morrer
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Em tempos antiqüíssimos, antes dos guerreiros samurais e de seus enormes castelos, o Grande Santuário de Ise, da religião nativa xintoísmo, era a mais bela obra construída pelo homem no Japão. Havia uma expressão popular que dizia: “Visitar o Grande Santuário de Ise e morrer!”. Era desejo do povo japonês da época visitar esse famoso santuário, pelo menos uma vez na vida. Esse desejo, conforme contam as lendas, não se limitava apenas ao homem, mas a todos os seres viventes.
Naquela época, moravam, em uma montanha na província de Mie, um macaco e uma carpa. Certa ocasião, o macaco estava na margem do rio, e a carpa comentou:
– Há muito tempo tenho vontade de visitar o Santuário de Ise.
– Eu também sempre tive esse desejo. Por que não vamos juntos? – perguntou o macaco.
Dito e feito. A carpa saiu nadando rio abaixo e o macaco desceu a montanha pulando de galho a galho, até encontrar um enorme campo. O macaco mediu com os olhos a dimensão da pradaria e disse à carpa:
– Eu gosto de montanhas cheias de árvores e confesso que sou um fracasso para percorrer um campo tão grande e tão reto. Não sei o que fazer...
Enquanto eles pensavam numa solução, apareceu por lá, de passagem, um cavalo e perguntou:
– O que vocês fazem tão pensativos?
Então o macaco contou que pretendiam visitar o Grande Santuário de Ise, mas estavam em dificuldades, pois o verde campo que tinham que atravessar era demais para suas pernas tortas.
– Visitar o Santuário de Ise é uma maravilha. Eu também sempre tive esse desejo. Deixem-me acompanhar vocês. Venha, macaco, suba no meu dorso e vamos embora.
Assim, o macaco montou nas costas do cavalo, e a carpa seguiu nadando pelo rio.
Mais para frente, o rio em que a carpa seguia nadando desembocava numa praia. Então, a carpa parou e disse para os dois amigos:
– Eu não gosto do mar. Não consigo nadar em águas salgadas.
A carpa, o macaco e o cavalo ficaram pensando em como vencer aquela dificuldade.
– Eu tenho uma boa idéia – disse o macaco, logo em seguida – Precisamos providenciar um balde, colocar água doce nele e a carpa vai andando junto com a gente dentro do balde.
– Um balde cheio de água é pesado. Eu não tenho mão para carregá-lo – disse o cavalo.
– Deixe comigo, que eu tomo conta da carpa – disse o macaco, todo prestativo.
E o macaco foi até o povoado e trouxe um balde de madeira, típico balde japonês daquela época. Encheu-o de água, colocou a carpa dentro dele e subiu no dorso do cavalo com o balde.
– Obrigada pela ajuda – disse a carpa, agradecida.
– Foi uma grande idéia – observou o cavalo.
Assim, seguiram a viagem ao Santuário de Ise, quase todos muito felizes.
Quase, porque o cavalo teve que carregar o macaco e um balde de madeira cheio de água nas costas. A carpa, apesar de não fazer nenhum esforço dentro do balde, não conseguia apreciar a bela paisagem a caminho do santuário. Já o macaco, sentado confortavelmente no dorso do cavalo, usufruiu a visão privilegiada do alto e ia ditando o caminho: “agora, vire à direita e, em seguida, vire à esquerda!”
Assim, chegaram ao Santuário de Ise sem maiores problemas, provando que “a união faz a força” e que quem tem idéias faz menor esforço.

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MensagemEnviada: Qui Abr 03, 2008 9:25 am    Assunto: Responder com citação

Hachizuke, o deus Inari
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muitos e muitos anos, havia um castelo de nome Obana no feudo de Wakasa, onde hoje é a província de Fukui. Naquela época, o senhor do castelo era obrigado a passar meio ano em Edo, então capital do Japão, por determinação do xogum Tokugawa.

Assim, quando o feudatário estava ausente, os vassalos cuidavam do castelo, porém não tomavam nenhuma decisão importante sem a ordem do senhor. Essa ordem chegava via postal, trazida por um carteiro da capital. Nessa época, demorava em média 15 a 16 dias para um carteiro ir correndo de Edo a Wakasa.

Quando os conselheiros discutiam uma maneira de encurtar o tempo, Hachizuke pediu uma audiência e disse:

– Posso entregar as mensagens ao senhor em cinco ou seis dias. Encarreguem-me dessa missão e não se arrependerão.
Os conselheiros não acreditaram muito na história, mas, como não tinham outra alternativa, resolveram arriscar, enviando uma mensagem a Edo.
Hachizuke saiu correndo, cortando campos, montanhas e rios sem passar pelas tortuosas estradas e evitando povoados e multidões das cidades que ficavam na rota tradicional. Conseguiu avançar cem milhas por dia, e os conselheiros ficaram muito felizes com seu trabalho.

Certa ocasião, um dos conselheiros disse a Hachizuke:
– Você é uma grande ajuda para nosso castelo. Fico preocupado que algo de mal possa acontecer a você e atrapalhar seu trabalho.
– Bem, eu não gosto de cães. Fico receoso, imaginando que um cachorro que está amarrado numa estalagem em Odawara possa se soltar e barrar meu caminho. Credo, como são repugnantes os cachorros!
– Nossa! Você tem mesmo medo de cão. Que coisa estranha – observou o conselheiro.

O tempo foi passando e Hachizuke prestou relevantes serviços ao Castelo de Obana. Certo dia, quando ele partiu para mais uma missão de Wakasa a Edo, percorreu como o vôo de um pássaro campos e montanhas. Quando chegou na estalagem em Odawara, um fato inesperado aconteceu. O cão soltou-se das amarras e avançou latindo para Hachizuke. O rapaz pensou em correr para a estrada, mas era tarde, estava cercado. Então, o carteiro entrou num buraco sob o assoalho da estalagem, na tentativa de se esconder do cão. Mas o cachorro também entrou embaixo do assoalho, em seu encalço. Foi uma barulheira danada naquele local.

Quando o silêncio voltou a reinar sob o assoalho, o cachorro saiu debaixo dele com uma raposa branca na boca. O dono da estalagem encontrou uma caixa amarrada no pescoço da raposa. Ao abri-la, constatou que era uma importante carta para o senhor que estava em Edo. Então, o homem levou a carta para o magistrado.

Assim, o mistério da rapidez do carteiro do Castelo de Obana estava desvendado. Hachizuke era, na verdade, uma raposa branca encantada. Por isso era atravessava campos e montanhas com incrível rapidez.

– Que exemplo digno a ser seguido! Trabalhou duramente para servir o senhor de Obana – disse o magistrado, com admiração.
Hoje, existe um santuário dedicado ao deus Inari Hachizuke, onde outrora existiu o Castelo de Obana.

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MensagemEnviada: Qui Abr 03, 2008 7:10 pm    Assunto: Responder com citação

Boa essa, eu morei quase 3 anos em Fukui, é um lugar muito bom.

Abração,
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MensagemEnviada: Sex Abr 04, 2008 2:01 pm    Assunto: Responder com citação

Caro Fabiano,

Fico feliz em poder trazer boas lembranças!
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MensagemEnviada: Sex Abr 04, 2008 2:07 pm    Assunto: Responder com citação

Kin no kamikazari
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Com a obrigatoriedade criada pelo governo Tokugawa de que cada senhor feudal deveria permanecer metade do ano em Edo (hoje Tóquio), o comércio de luxo cresceu vertiginosamente, e a capital japonesa oferecia aos ricos senhores presentes que agradavam às mais belas e exigentes mulheres, tais como quimonos de seda pura, cerâmica de fino trato e maravilhosos adornos para cabelos.

Certa ocasião, quando um comerciante de produtos finos vendia um adorno para cabelos a uma rica senhora em sua loja, uma garotinha aproximou-se e ficou olhando admirada para os ornamentos que estavam sendo mostrados para a cliente.

Quando a rica senhora foi embora, a garotinha aproximou-se do vendedor e, apontando um ornamento para cabelos, disse que queria comprá-lo.
– Comprar o kin no kamikazari, o ornamento de ouro! – exclamou, surpreso, o proprietário da loja.
– É um presente para minha irmã. Por favor, faça um embrulho bem bonito.
– Você tem dinheiro suficiente para pagar?
A menina, então, tirou da manga do quimono um lenço dobrado, colocou-o sobre a mesinha e mostrou quanto dinheiro trazia.
– Veja, tenho tudo isso!



Eram poucas moedas, que somavam pequeno valor.
– Acho que minha irmã mais velha merece esse presente. Desde que mamãe morreu, ela cuida de mim e de meu irmãozinho com muito carinho. Ela trabalha tanto, que não tem tempo para se cuidar. Com esse ornamento, quero vê-la muito bonita.
O dono da loja colocou o ornamento numa embalagem laqueada e embrulhou-a cuidadosamente, com o lenço de seda.
– Sua irmã vai gostar muito do presente – disse o homem, entregando o embrulho para a menininha.
A menina foi embora toda feliz, e o dono da loja, com os olhos emocionados, acompanhou-a, até que ela desapareceu no final da rua.
Na tarde desse mesmo dia, uma bela moça procurou pelo dono da loja. Ao ser atendida, colocou na mesinha um embrulho conhecido e perguntou:
– Esse ornamento foi comprado aqui?
– Sim – confirmou o homem.
– Pode me dizer quanto ele custou?
– Quando se trata de um presente, é falta de ética dizer o preço.
– Foi a minha irmãzinha quem o comprou.
– Nossa loja só pode revelar o preço se a cliente assim o desejar.
– Minha irmã só tinha poucas moedas. Ela não poderia comprar um ornamento tão valioso.
– Ornamento de ouro – disse o dono da loja, refazendo o embrulho com muito cuidado. Em seguida, dobrou-o devidamente com o lenço de seda e entregou-o para a garota.
– Sua irmãzinha pagou o preço mais alto que qualquer pessoa pode pagar. Ela deu tudo o que tinha.
A moça apertou o embrulho junto ao peito e lágrimas rolaram por sua bela face. Em seguida, desfez o embrulho, pegou o ornamento de ouro e prendeu-o em seus cabelos. Despediu-se do dono da loja e saiu muito feliz, arrumando o ornamento e dizendo:
– Acho que os pequenos vão gostar de me ver assim.

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MensagemEnviada: Sáb Abr 05, 2008 6:42 am    Assunto: Responder com citação

Shizuka-gozen e Sato Tadanobu - Parte I
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



No século XII, duas poderosas famílias disputaram o poder político do Japão durante décadas de guerra civil. De um lado, os Minamoto – conhecidos por clã Genji –; e do outro, os Taira – conhecidos como clã Heike. Na primeira fase, os Heike foram vitoriosos e dominaram o país por muitos anos. Porém, mais tarde foram derrotados pelos Genji, comandados por Minamoto- no-Yoritomo (1147~99). Durante uma série de batalhas em mar e terra, na guerra que ficou conhecida como Genpei, destacou-se um jovem general chamado Minamoto-no-Yoshitsune (1159~89), meio-irmão do comandante Yoritomo.

Os feitos de Yoshitsune durante a guerra ganharam grande popularidade, e ele se tornou um grande herói para o povo japonês. Nessa época, Yoshitsune tinha uma namorada chamada Shizuka, que era filha de Iso-no-Zenshi. A bela Shizuka Zenshi entrou para a história como Shizuka-gozen, pois gozen era um termo usado para identificar a mulher de um guerreiro. Shizuka era considerada uma das melhores shirabyôshi (praticante de dança sagrada) de Quioto.

Como reconhecimento por sua bravura, o imperador aposentado Goshirakawa presenteou Yoshitsune com um tsuzumi (tamboril – instrumento musical em forma de ampulheta). Como esse instrumento tem duas faces de couro, comentavam na corte que uma representava Yoshitsune e outra seu meio-irmão, o comandante Yoritomo.

Esses acontecimentos levaram Yoritomo a desconfiar que, devido à incrível popularidade conseguida por Yoshitsune, este poderia insurgir-se contra ele e tomar o poder. Então, ordenou que seu exército fosse ao encontro de Yoshitsune e acabasse com a vida dele. Realmente, havia comentários na corte que, se Yoshitsune batesse o tamborete tsuzumi, presenteado pelo imperador, uma rebelião seria conduzida com apoio da corte imperial contra o xogum Yoritomo. Entretanto, apesar de saber que seu irmão enviara um exército para matá-lo, Yositsune não bateu o tamboril, porque não queria guerrear com seu próprio irmão e com ele procurava conciliação.

Naquele dias, ocorreu um imprevisto: Mussashi-bo Benkei, monge guerreiro e fiel servidor de Yoshitsune, matou um soldado de Yoritomo, tornando quase impossível um entendimento entre os irmãos. Yoshitsune ficou furioso com Benkei e mandou que ele desaparecesse de sua frente, porém Shizuka intercedeu pelo amigo, dizendo a Yoshitsune que Benkei matou o servidor de Yoritomo por fidelidade a ele e deveria ser perdoado.

Como Yoshitsune não queria que seus fiéis guerreiros enfrentassem os soldados de Yoritomo, a única alternativa foi fugir para evitar o confronto.

Acompanhado de Shizuka e de cinco fiéis guerreiros: Mussashi-bo Benkei, Kamei Rokurô, Kataoka Hachirô, Ise Saburô e Suruga Jirô, para não chamar atenção por onde passasse, Yoshitsune empreendeu uma fuga e chegou ao santuário Inari (raposa) em Fushimi, localidade ao sul de Quioto.

Esse episódio envolvendo Shizuka e o tamboril deu origem a uma das mais famosas lendas do Japão.

Os cinco fiéis guerreiros de Yoshitsune reuniram-se e resolveram que Shizuka não devia mais acompanhar o grupo, pois estava retardando a fuga e pondo em risco a vida de todos. Se continuasse assim, seriam alcançados e exterminados pelo exército de Yoritomo.

Mas Shizuka queria acompanhar seu amado de qualquer modo e estava inflexível sobre a questão. Então, como prova de seu amor, Yoshitsune deixou sob a guarda dela o precioso tamboril que recebeu do imperador. Mesmo assim, Shizuka insistia em segui-lo. Não restou outra opção a Yoshitsune senão mandar seus guerreiros amarrarem as mãos de Shizuka num pilar do santuário.

– Logo, os sacerdotes estarão de volta e vão te libertar. Entenda que isso é para seu próprio bem, pois, se o exército de Yorimoto nos alcançar, não vão deixar ninguém vivo para contar a história.
Assim, Yoshitsune e seus guerreiros partiram do santuário Inari. Porém, antes que os sacerdotes voltassem, uma tropa comandada pelo capitão Hayami-no-Tota encontrou Shizuka.
– Mas que boa surpresa! A mais bela dançarina do Japão abandonada pelo seu herói e amante Yoshitsune.
– Abandonada nunca! Tenho comigo a prova do grande amor de Yoshitsune por mim: o tsuzumi imperial. Aconteceu que os guerreiros concluíram que eu estava atrasando seus passos e me forçaram a ficar aqui no santuário, sob a proteção dos sacerdotes – disse Shizuka, irritada.
– Soltem as mãos dela e vamos levá-la como prisioneira. Para mim, foi um presente dos deuses, eu não pretendia mesmo enfrentar os valentes guerreiros de Yoshitsune. Mas, levando sua amante e o famoso tamboril imperial, serei fartamente recompensado pelo comandante Yoritomo.
Os soldados de Tota agarraram Shizuka e arrastaram-na para fora do santuário Inari. A dançarina gritava a todo pulmão, resistindo violentamente à ação dos brutamontes. Naquele momento, surgiu um valente guerreiro. E, com incrível força e agilidade, foi derrubando um por um os soldados inimigos.

O guerreiro em questão era Sato Tadanobu, um fiel servidor de Yoshitsune. Assustados com a força sobre-humana de Tadanobu, os soldados saíram correndo de medo. O capitão Hayami estava fugindo com o tamboril. Vendo o instrumento musical sendo levado pelo inimigo, Tadanobu ficou furioso e perseguiu-o com incrível velocidade. Tomou o tamboril, matando Hayami-no-Tota a chutes, socos e golpes de artes marciais.

Yoshitsune e seu grupo, que ouviram os gritos de Shizuka ecoando montanha acima, voltaram a tempo de assistir de longe a façanha de Sato Tadanobu.

– Sou eternamente grato por ter salvado Shizuka e o tamboril. Mostrou uma valentia digna de um guerreiro Genji. Mas você não estava na sua terra natal, cuidando de sua mãe doente?
– Quando soube do desentendimento entre você e seu irmão, vim correndo para juntar-me a vocês.
Tenho dois pedidos a lhe fazer: primeiro, aceite esta armadura como símbolo de minha gratidão. Segundo, peço que retorne a Quioto levando Shizuka. Seja a sombra dela, protegendo-a até que haja conciliação entre mim e meu irmão.
Sato Tadanobu abaixou a cabeça, expressando sua fidelidade, e Yoshitsune partiu confiante que sua amada estava segura sob a guarda do valente Tadanobu.

Shizuka-gozen e Sato Tadanobu - Parte Final
(Texto e desenhos: Claudio Seto)




Na primeira parte desta lenda, foi retratada a rivalidade entre os Heike e os Genji, que lutaram entre si pelo poder do Japão durante vários anos. Quando os Genji, comandados por Minamoto-no-Yoritomo (auxiliado por seu habilidoso meio-irmão Minamoto-no-Yoshitsune), chegaram ao poder, boatos começaram a colocar um irmão contra o outro. Preocupado com um golpe, Yoritomo decidiu matar seu irmão e enviou seu exército para cumprir a missão. Yoshitsune, no entanto, querendo evitar o confronto com o irmão, decidiu fugir em companhia de seus fiéis guerreiros. Sua namorada, Shizuka, entretanto, foi obrigada a ficar para trás, em companhia de Sato Tadanobu, outro leal seguidor de Yoshitsune.

Com a investida do capitão Hayami-no-Tota, a bela Shizuka Zenshi compreendeu quanto sua presença seria perigosa na fuga de Yoshitsune. Assim, resignada, tomou o caminho de Quioto em companhia de seu guarda-costas, Tadanobu.

Pouco depois da primeira caminhada, encontraram um camponês que os alertou do perigo em continuarem na direção da capital. O exército de Yoritomo havia colocado postos de guarda nas divisas de cada cidade e várias tropas vinham naquela direção, vasculhando tudo.

Shizuka então resolveu que deveriam ir atrás de Yoshitsune, e ambos retornaram, seguindo na direção para onde fora o irmão de Yoritomo. O Monte Yoshino estava ainda coberto de neve, mas as mil cerejeiras já estavam todas floridas.

Shizuka ficou deslumbrada ao ver que o Monte Yoshino estava totalmente cor-de-rosa. Coberta de cerejeiras em flor, a floresta era um espetáculo da natureza de indescritível beleza. Então, ela resolveu descansar sob uma árvore, enquanto apreciava as flores.

De repente, ela percebeu que Sato Tadanobu havia desaparecido. Olhou para todos os lados e não havia ninguém perto dela. Vendo as pétalas das cerejeiras caindo levemente como plumas ao vento, Shizuka colocou o tamboril no ombro e resolveu tocar o instrumento enquanto cantava uma canção de amor e ensaiava passos de dança.

Quando ela produziu sons no couro do tamboril, repentinamente o guerreiro Sato Tadanobu surgiu ao lado dela. Shizuka levou um susto, mas conteve a emoção e continuou com sua música. Sem resistir à melodia, Tadanobu fez contradança com Shizuka.

Ela ficou admirada com a habilidade que Tadanobu tinha para dançar, pois era quase inacreditável que um homem forte, robusto e grande como ele pudesse dançar com gestos delicados de tamanha leveza.

Shizuka começou a desconfiar que aquele não era o guerreiro Tadanobu, mas, antes que pudesse interrogá-lo, ele havia desaparecido novamente. Solitária na bela paisagem florida do Monte Yoshino, a dançarina Shizuka compunha verbalmente poesias para seu amado. Quando tocava o tamboril para fazer acompanhamento, Tadanobu surgia repentinamente ao seu lado. Havia um mistério no ar.

Na verdade, aquele não era o verdadeiro Sato Tadanobu, e sim uma raposa branca encantada que se fazia passar pelo guerreiro. Pelo fato de ser uma raposa branca, quando não estava transformada na figura de Tadanobu, era confundida com a neve que cobria o chão do Monte Yoshino.

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MensagemEnviada: Dom Abr 06, 2008 6:25 am    Assunto: Responder com citação

O incêndio de furisode
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Em meados do século XVII, havia em Edo (atual Tóquio) uma linda garota de nome Osame, que era filha de um rico comerciante chamado Hikoyemon. Esse comerciante era distribuidor de um saquê famoso da marca Hyakushô-machi, e seu depósito ficava no distrito de Azabu.

Certa ocasião, Osame foi a um festival num templo e ficou apaixonada por um belo e elegante samurai. Infelizmente para ela, o jovem desapareceu na multidão antes que os empregados de seu pai pudessem descobrir de quem se tratava e de onde teria vindo.

Foi amor à primeira vista. Os dias passaram-se, mas a imagem do jovem guerreiro ficou impregnada na memória da garota. Desde o rosto jovial até as cores e detalhes de seu traje, tudo lhe pareceu extremamente maravilhoso. Então a garota mandou confeccionar para ela um quimono de mangas longas com as mesmas cores do traje do rapaz. Ela tinha esperança de chamar a atenção dele quando o encontrasse, numa ocasião futura. Quando o quimono ficou pronto, ela o deixou armado sobre um cabide e ficava imaginando o seu príncipe encantando acariciando o traje. Às vezes, passava horas e horas pedindo a Buda que proporcionasse um encontro com seu sonhado amor e freqüentemente repetia a invocação da seita do budismo Nichiren: Namu myo ho rengue-kyo. Mas, apesar de procurar por todos os cantos da cidade vestindo seu furisode (quimono de mangas longas), nunca mais viu o rapaz.

Desgostosa e sentindo-se extremamente solitária, adoeceu, foi definhando e morreu tempos depois. Durante o velório, ela trajava o furisode, mas, depois de cremada, conforme costume da época, a veste de mangas longas foi doada ao templo budista Honmyoji, do distrito de Hongo. Era uma maneira de os fiéis ajudarem na manutenção do templo, pois o monge podia vender o traje a um bom preço, já que se tratava de uma roupa de seda pura.

De fato, o furisode foi comprado na semana seguinte por uma mocinha com mais ou menos a mesma idade de Osame. A nova proprietária do furisode usou-o apenas um dia, ficou doente e começou a agir estranhamente, gritando que estava tendo visões de um jovem bonito e que iria morrer por amor a ele. Dias depois, realmente veio a falecer.

O quimono de mangas longas pela segunda vez foi doado ao templo. E, uma vez mais, o monge vendeu-o a uma mocinha, que o usou apenas uma vez. Ela disse estar tendo visões de um belo rapaz e morreu também. A vestimenta foi doada pela terceira vez ao templo. O monge começou a suspeitar de que havia algo de estranho naquele furisode.

Então, uma garota com mais ou menos da mesma idade das outras insistiu na compra do quimono. O monge acabou vendendo-o. A tragédia repetiu-se, e o furisode foi doado pela quarta vez ao templo.

Então, o monge não teve mais dúvidas. Aquele furisode estava tomado por uma força maligna. Chamou seus auxiliares e mandou fazer uma fogueira para queimar o quimono. Assim que fizeram a fogueira, a veste foi jogada nas chamas. O monge rezava com grande fervor para espantar a força do mal:

– Namu myo ho rengue-kyo! Namu myo ho rengue-kyo!

De repente, uma labareda subiu da fogueira e pegou fogo na madeira do telhado do templo. Nesse momento, um vendaval soprou sobre a cidade, e o fogo espalhou-se por várias casas, de rua em rua, de distrito em distrito, e quase toda cidade foi consumida pelas chamas. Existe outra versão desta mesma história que conta que, quando o monge botou fogo no furisode, a veste em chamas saiu correndo pelas ruas e espalhou o fogo pela cidade.

Comentário
Esta é a versão popular do grande incêndio da capital japonesa ocorrida no dia 18 de janeiro de 1657, que matou 10 mil pessoas. O incêndio ficou conhecido como Furisode Kaji e foi registrado num antigo livro chamado Kubin Daijin.


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