NEBARI, técnica de formação tipo casco de tartaruga
Em 2002, durante um evento de que participei aqui em Brasília, esteve presente o Bonsaista Vicente Romagnole, da Bonsai Center. Na oportunidade, eu tinha em mãos meu primeiro exemplar da revista japonesa de bonsai, Bonsai Sekai, editada naquele idioma. Mostrava a todos, admirado, o nebari diferenciado num Acer palmatum, que os japoneses chamam de Momiji.
A característica principal desse tipo de nebari é que ele é bem amplo, como se houvera sido confeccionado a partir de uma base bem larga. Diversas fotos mostram vários aceres com aquele tipo de nebari, sendo alguns com múltiplos troncos e outros com apenas um tronco. Curioso sobre o que tanto olhávamos e discutíamos, Vicente se aproximou e esclareceu que aquele tipo de nebari era formado graças a uma técnica avançada japonesa, que faz uso de uma placa de madeira ou cerâmica perfurada, com certa espessura, por onde seriam inseridas mudas jovens, mantendo as raízes na parte inferior da placa.
Após fazer isso, a placa era então enterrada, ficando de fora apenas os caules das mudas, que poderiam ser na quantidade que o cultivador quisesse formar. Com o passar do tempo, aos poucos as raízes das plantas iriam se fundindo, formando então aquela carapaça. Ao ser retirado do substrato, o cultivador eliminava a placa e ficaria com uma planta com aquele tipo de nebari.
Desejoso de tentar obter uma planta com aquela característica singular envidei então esforços no sentido de obter mudas jovens com que trabalhar. Consegui algumas, e usei, inicialmente, uma placa de cerâmica, que adaptei do fundo de um filtro caseiro, que tinha um furo. Fiz outros furos na placa e cortei, deixando-a com aproximadamente 15cmx7cmx2cm, enterrando em seguida o conjunto, usando como recipiente inicial um escorredor perfurado, desses de plástico.
Alguns anos de cultivo bastaram para ver que a placa cerâmica não era o material mais adequado a esse trabalho, vez que a força gerada pelo engrossamento dos caules somada ao crescimento e aumento no calibre das raízes acabara por fragmentar a placa cerâmica, reduzindo-a a pedaços dispersos. Por isso, da vez seguinte, cortei uma prancha de ipê, confeccionando placas de 12cmx6cmx2cm, nas quais fiz cinco furos, sendo dois nas extremidades e um ao centro.
Usando mudas que desenvolvi a partir de estacas, selecionei as que julguei melhores e mais saudáveis, retirando folhas e ramas que cresciam nelas, deixando apenas o caule limpo, que passei pelos furos, cuidando de manter as raízes na parte inferior da placa. Após, fiz o plantio em escorredores, usando um substrato bem drenante: caco cerâmico, pedrisco, terra de cupinzeiro, carvão. Ao fim do primeiro ano de cultivo, os cinco recipientes apresentavam as raízes das plantas começando a sair pelos orifícios no fundo do escorredor, ensejando então que os depositasse sobre bacias plásticas perfuradas, um pouco maiores que os escorredores, contendo além do substrato acima descrito, mais um componente de peso: esterco bovino curtido. Eis, em síntese, a nossa famosa “mamadeira”.
Para ilustrar melhor, abaixo os colegas podem observar um trabalho executado por um cultivador japonês, usando essa técnica. O resultado final apresenta duas opções: numa, o cultivador cuida de formar apenas um nebari radial, adotando o estilo derivativo Kabudachi, onde a partir de uma mesma base de raiz derivam múltiplos troncos, mas que, em essência, trata-se na verdade de apenas um único tronco.
A outra opção, o cultivador cuida de manter as raízes em crescimento e desenvolvimento sob a placa de madeira perfurada, objetivando a fusão das raízes, adotando o estilo derivativo Korabuki, em que há vários troncos partindo de uma base ampla em comum, como se tivessem crescido a partir de uma carapaça de tartaruga.
O que irá definir um ou outro será o cultivador: se antecipar a retirada do material, ficará com a primeira opção. Se mantiver o cultivo por mais algum tempo, obtém-se a segunda posição. No cultivo que desenvolvi, busco alcançar o estilo derivativo Korabuki, ou seja, em formato de casco de tartaruga. Vejamos então as imagens referentes a esse tipo de trabalho:
O primeiro passo é selecionar mudas com ligeira semelhança quanto a grossura do caule. Em seguida, usando uma placa de madeira previamente perfurada, insere-se as mudas:

Em seguida, enterramos o conjunto, podendo ser num recipiente tipo escorredor ou mesmo um vaso com uma altura relativa:

Para facilitar o cultivo, bem como o trato diário necessário, podemos encurtar as mudas:

Após algum tempo de cultivo, percebemos que com a rega diária e mesmo a ocasionada por chuvas, o substrato no interior do recipiente tende a baixar, mostrando então a formação inicial do nebari superior:

Com mais alguns meses, percebemos que o volume de raizes constituintes do nebari superior alcançou um bom volume de raizes capilares:

Ao mesmo tempo que o volume aumenta, engrossam os caules das plantas usadas no trabalho:
]

Mais um pouco e o cultivador, que resolveu adotar a primeira opção, retira o material, analisando detidamente a qualidade superior do nebari formado:

Nesse ponto, podemos perceber bem as duas opções de trabalho que citei acima, quando fica a critério do cultivador eliminar o raizame que cresce na parte inferior da placa de madeira, mantendo apenas o nebari desenvolvido na parte superior:

Esse é o ponto que podemos chamar de "divisor": ou o cultivador mantem o conjunto, enterrando tudo novamente e fazendo uso de outro recipiente maior, para favorecer o engrossamento das raizes inferiores e sua consequente fusão, ou então, corta a parte inferior, cuidando de manter apenas o nebari superior:

O cultivador, nesse caso, optou pela primeira:

A partir desse ponto, irá então estabelecer a formação estrutural aerea da planta, que como frisei no inicio, passa a ser uma planta apenas com multiplos troncos:

A continuidade no cultivo da forma que descrevi porém, permite estabelecer um tipo diferente de nebari, em que ocorre a chamada fusão: com ela, podemos obter então o nebari estilo casco de tartaruga, que pode ser formado apenas para um tronco, ou multiplos, a depender do cultivador:



Nas imagens abaixo, meu primeiro trabalho visando esse tipo de fusão não surtiu efeito, por que usei uma placa ceramica, que com o tempo e a força das raizes, fragmentou-se;


"Escaldado" por essa tentativa malograda, resolvi então adotar o uso de placas de ipê, mais duras:


Reforço no conjunto, o escorredor com o apoio da bacia plastica:

Aos poucos, os caules começam a engrossar, preenchendo bem o espaço inicial dos furos na placa de madeira:

Minhas tentativas para o futuro:

Apesar das informações coletadas prestarem-se à fusão em acer palmatum, preferi adotar a técnica para cultivo de acer tridente (burgerianum), que se adaptou melhor em minha região.
Há certa facilidade em fazermos bonsai, todos sabemos disso. Mas podemos ter mais facilidade ainda quando, aliada à nossa infinita paciência, podermos agregar um pouco de determinadas técnicas de cultivo diferenciadas.
Até onde sei, poucas pessoas detém conhecimento sobre técnicas diversificadas. Claro, há muita informação disponível na net, e podemos, a partir delas, conseguir algo que possamos aproveitar em nossa lide diária. Mas, ao cabo de alguns anos de trabalho, descobrimos outras técnicas que poderiam ter reduzido bastante nossa carga de trabalho, por serem mais adequadas e proporcionarem certa facilidade no manejo e cultivo, que de outra forma, não conseguiriamos obter.
Acredito que divulgar esse tipo de técnica permite a todos nós termos chance de melhorar significativamente o nosso trabalho visando a formação de bonsai com maior e melhor qualidade, de uma maneira mais tranquila e mais rentosa.
Espero, sinceramente, que essa apresentação possa auxiliar a todos aqueles que, como eu, desejem aprender um pouco mais sobre como cultivar um bonsai da maneira correta e com o manejo de técnicas superiores, que, embora simples em sua concepção, permitem aquisição de enorme perícia para aqueles que as dominam.
Algumas das imagens acima, foram copiadas de um artigo escrito pelo bonsaista Harry Harrington, e podem ser visualizadas dentro do contexto do que foi escrito por ele no site australiano:
http://www.bonsaisolutions.com.au/
A característica principal desse tipo de nebari é que ele é bem amplo, como se houvera sido confeccionado a partir de uma base bem larga. Diversas fotos mostram vários aceres com aquele tipo de nebari, sendo alguns com múltiplos troncos e outros com apenas um tronco. Curioso sobre o que tanto olhávamos e discutíamos, Vicente se aproximou e esclareceu que aquele tipo de nebari era formado graças a uma técnica avançada japonesa, que faz uso de uma placa de madeira ou cerâmica perfurada, com certa espessura, por onde seriam inseridas mudas jovens, mantendo as raízes na parte inferior da placa.
Após fazer isso, a placa era então enterrada, ficando de fora apenas os caules das mudas, que poderiam ser na quantidade que o cultivador quisesse formar. Com o passar do tempo, aos poucos as raízes das plantas iriam se fundindo, formando então aquela carapaça. Ao ser retirado do substrato, o cultivador eliminava a placa e ficaria com uma planta com aquele tipo de nebari.
Desejoso de tentar obter uma planta com aquela característica singular envidei então esforços no sentido de obter mudas jovens com que trabalhar. Consegui algumas, e usei, inicialmente, uma placa de cerâmica, que adaptei do fundo de um filtro caseiro, que tinha um furo. Fiz outros furos na placa e cortei, deixando-a com aproximadamente 15cmx7cmx2cm, enterrando em seguida o conjunto, usando como recipiente inicial um escorredor perfurado, desses de plástico.
Alguns anos de cultivo bastaram para ver que a placa cerâmica não era o material mais adequado a esse trabalho, vez que a força gerada pelo engrossamento dos caules somada ao crescimento e aumento no calibre das raízes acabara por fragmentar a placa cerâmica, reduzindo-a a pedaços dispersos. Por isso, da vez seguinte, cortei uma prancha de ipê, confeccionando placas de 12cmx6cmx2cm, nas quais fiz cinco furos, sendo dois nas extremidades e um ao centro.
Usando mudas que desenvolvi a partir de estacas, selecionei as que julguei melhores e mais saudáveis, retirando folhas e ramas que cresciam nelas, deixando apenas o caule limpo, que passei pelos furos, cuidando de manter as raízes na parte inferior da placa. Após, fiz o plantio em escorredores, usando um substrato bem drenante: caco cerâmico, pedrisco, terra de cupinzeiro, carvão. Ao fim do primeiro ano de cultivo, os cinco recipientes apresentavam as raízes das plantas começando a sair pelos orifícios no fundo do escorredor, ensejando então que os depositasse sobre bacias plásticas perfuradas, um pouco maiores que os escorredores, contendo além do substrato acima descrito, mais um componente de peso: esterco bovino curtido. Eis, em síntese, a nossa famosa “mamadeira”.
Para ilustrar melhor, abaixo os colegas podem observar um trabalho executado por um cultivador japonês, usando essa técnica. O resultado final apresenta duas opções: numa, o cultivador cuida de formar apenas um nebari radial, adotando o estilo derivativo Kabudachi, onde a partir de uma mesma base de raiz derivam múltiplos troncos, mas que, em essência, trata-se na verdade de apenas um único tronco.
A outra opção, o cultivador cuida de manter as raízes em crescimento e desenvolvimento sob a placa de madeira perfurada, objetivando a fusão das raízes, adotando o estilo derivativo Korabuki, em que há vários troncos partindo de uma base ampla em comum, como se tivessem crescido a partir de uma carapaça de tartaruga.
O que irá definir um ou outro será o cultivador: se antecipar a retirada do material, ficará com a primeira opção. Se mantiver o cultivo por mais algum tempo, obtém-se a segunda posição. No cultivo que desenvolvi, busco alcançar o estilo derivativo Korabuki, ou seja, em formato de casco de tartaruga. Vejamos então as imagens referentes a esse tipo de trabalho:
O primeiro passo é selecionar mudas com ligeira semelhança quanto a grossura do caule. Em seguida, usando uma placa de madeira previamente perfurada, insere-se as mudas:

Em seguida, enterramos o conjunto, podendo ser num recipiente tipo escorredor ou mesmo um vaso com uma altura relativa:

Para facilitar o cultivo, bem como o trato diário necessário, podemos encurtar as mudas:

Após algum tempo de cultivo, percebemos que com a rega diária e mesmo a ocasionada por chuvas, o substrato no interior do recipiente tende a baixar, mostrando então a formação inicial do nebari superior:

Com mais alguns meses, percebemos que o volume de raizes constituintes do nebari superior alcançou um bom volume de raizes capilares:

Ao mesmo tempo que o volume aumenta, engrossam os caules das plantas usadas no trabalho:
]

Mais um pouco e o cultivador, que resolveu adotar a primeira opção, retira o material, analisando detidamente a qualidade superior do nebari formado:

Nesse ponto, podemos perceber bem as duas opções de trabalho que citei acima, quando fica a critério do cultivador eliminar o raizame que cresce na parte inferior da placa de madeira, mantendo apenas o nebari desenvolvido na parte superior:

Esse é o ponto que podemos chamar de "divisor": ou o cultivador mantem o conjunto, enterrando tudo novamente e fazendo uso de outro recipiente maior, para favorecer o engrossamento das raizes inferiores e sua consequente fusão, ou então, corta a parte inferior, cuidando de manter apenas o nebari superior:

O cultivador, nesse caso, optou pela primeira:

A partir desse ponto, irá então estabelecer a formação estrutural aerea da planta, que como frisei no inicio, passa a ser uma planta apenas com multiplos troncos:

A continuidade no cultivo da forma que descrevi porém, permite estabelecer um tipo diferente de nebari, em que ocorre a chamada fusão: com ela, podemos obter então o nebari estilo casco de tartaruga, que pode ser formado apenas para um tronco, ou multiplos, a depender do cultivador:


Nas imagens abaixo, meu primeiro trabalho visando esse tipo de fusão não surtiu efeito, por que usei uma placa ceramica, que com o tempo e a força das raizes, fragmentou-se;
"Escaldado" por essa tentativa malograda, resolvi então adotar o uso de placas de ipê, mais duras:
Reforço no conjunto, o escorredor com o apoio da bacia plastica:
Aos poucos, os caules começam a engrossar, preenchendo bem o espaço inicial dos furos na placa de madeira:
Minhas tentativas para o futuro:
Apesar das informações coletadas prestarem-se à fusão em acer palmatum, preferi adotar a técnica para cultivo de acer tridente (burgerianum), que se adaptou melhor em minha região.
Há certa facilidade em fazermos bonsai, todos sabemos disso. Mas podemos ter mais facilidade ainda quando, aliada à nossa infinita paciência, podermos agregar um pouco de determinadas técnicas de cultivo diferenciadas.
Até onde sei, poucas pessoas detém conhecimento sobre técnicas diversificadas. Claro, há muita informação disponível na net, e podemos, a partir delas, conseguir algo que possamos aproveitar em nossa lide diária. Mas, ao cabo de alguns anos de trabalho, descobrimos outras técnicas que poderiam ter reduzido bastante nossa carga de trabalho, por serem mais adequadas e proporcionarem certa facilidade no manejo e cultivo, que de outra forma, não conseguiriamos obter.
Acredito que divulgar esse tipo de técnica permite a todos nós termos chance de melhorar significativamente o nosso trabalho visando a formação de bonsai com maior e melhor qualidade, de uma maneira mais tranquila e mais rentosa.
Espero, sinceramente, que essa apresentação possa auxiliar a todos aqueles que, como eu, desejem aprender um pouco mais sobre como cultivar um bonsai da maneira correta e com o manejo de técnicas superiores, que, embora simples em sua concepção, permitem aquisição de enorme perícia para aqueles que as dominam.
Algumas das imagens acima, foram copiadas de um artigo escrito pelo bonsaista Harry Harrington, e podem ser visualizadas dentro do contexto do que foi escrito por ele no site australiano:
http://www.bonsaisolutions.com.au/















