Olá Sr. Sergivaldo,
Antes de mais nada, parabenizo-o por seu esforço no que refere-se ao estudo dos espécimes natos de sua região, condicionalmente distinta e agraciada com maravilhosos exemplares de formato irregular e retorcido.
Sua indagação como vê, tem um sentido muito técnico, podendo-se denotar-se pelo perfil daqueles que se propuseram a discutir o assunto, longe do contexto usual, característico do cotidiano do fórum.
Sua questão, aparentemente, simples, é detentora de uma complexa proposição discursiva, com partes de seu corpo embaraçadas em função da simples causa: o divergir de informações dentre seu destino e sua origem, ou em pior avaliação, a completa ausência desta, mediante a sóbria necessidade de criá-lo sem, lamentavelmente, tê-lo.
Acredito que posso atenuar, em partes, sua dúvida com relação ao polêmico “estilo naturalistic”. As explanações em voga ao que caracteriza-se o “estilo”, como algo inovador na Arte, de aspecto modernista, contrária à corrente clássica tradicionalista, sem maior co-ligação aos japoneses, de maior proporcionalidade prioritária pelos ocidentais, não são citações que colocam em evidência a realidade da Arte. Existe neste caso uma grande errata, característica familiar em quaisquer cenários, no qual presencia-se a dificuldade de disseminação de uma cultura por outrem, em função de
n aspectos.
Por diversas ocasiões, em diversos fóruns, em diversos países (inclusive no Japão), temáticas envoltas na compreensão dos estilos em sua origem, e as diretrizes impostas para a sua prática, foram motivadores para extensos debates, sem contudo apresentar em seu fim, algo correlato para seu fechamento com Chave-de-Ouro. A circunstância tem, certamente, motivadores extras para este desfecho, identificando-se, pois, demasiado nro. de variantes de “escolas” e “estilos” no mundo, oriundos da personalização da Arte, óbvia e natural, por aqueles que já absorveram (ou não) mecanismos e informação para tal.
Existem no Japão, dentre algumas linhas, 2 referências: a primeira trata-se da escola
Shizen Bonsai, ou literalmente, “Bonsai Natural”. A segunda, direciona o enquadramento do formato de um exemplar, agrupando-o a uma divisão de nome próprio, não comum ao atual meio bonsaístico brasileiro. Eis aí, quem sabe, o objeto de dúvida / intriga sobre a arquitetura / formato dos trabalhos apresentados por demais países, destacando-se, popularmente, os chineses conforme discutido no passado. Esta variante denomina-se no arquipélago, como
Jiyuu Jukei, ou melhor, “Estilo / Formato livre”.
O
Shizen Bonsai é uma escola mantedora de regras distintas, dentre as quais:
. Não utilização de métodos contrários à “vontade” da planta, tais como aramagem e ancoragem (prática, prioritariamente, proibitiva). Obtêm-se proveito do fenômeno natural instintivo de crescimento da planta em direção ao sol, para direcionamento das ramas, em alguns casos;
. Desnecessidade de compactação de ramas e da simetria triangular tradicional para a composição parcial, ou integral da planta;
. Inutilização de podas de manutenção visando a redução de tamanho de folhas / dispersão de energia vegetativa de focos de maior vitalidade para as áreas de menor força, não havendo, consequentemente, importância para o brotamento nas regiões sem ramas;
. Entrenós alongados são bem vindos;
. Folhas secas / amareladas, como também, ervas daninhas são reservadas como parte do acabamento, salvo os casos de infestação de pragas;
. Exemplares de imponente tronco, de baixa estatura, dimensionando idade avançada são atípicos;
. Adubação desnecessária ou escassa. Pratica-se o provérbio “
Sui, you, fuu, do, you”, literalmente, “Água, sol, vento, terra e folhas (de mesma pronúncia
you)”, onde tudo é atribuído pela natureza;
. O formato ideal tem sua regra deferida em função da adequação de cada exemplar, a seu respectivo espécime
in natura;
. Em vista da natureza manter seu devido “Ponto de equilíbrio”, as trocas de substrato, no momento de reenvases, não são integrais, devendo-se atentar para que a terra antiga volte para o vaso, com mínimo complemento de novo substrato.
Em vista do relato, a idéia de que o Bonsai Natural seja uma linha onde preserva-se de forma absoluta, a condição natural do exemplar, deixando-o à “mercê dos ventos”, não necessitando de nada fazer para sua manutenção, merece, na verdade, uma especial atenção. Certamente, a isenção da operacionalização de rotina, induz a impressão de menosprezo, relevando à depreciação do bonsai, como explanado em outro fórum durante debate ocorrido junto ao popular Walter Pall. Porém, deve-se enfatizar que quando da obtenção de exemplares franzinos e mau acabados, apesar de enquadrarem-se nas condições citadas, o mesmo não ocorre para bonsais garimpados à exaustão, prévia e afortunadamente, “com cara de bonsai” de simetria perfeita, densidade e proporção. Caso haja interesse na utilização destes para a composição de um exemplo de
Shizen Bonsai, deve-se, pois, “estragá-lo”, propositadamente, para a condução do espécime ao estilo. Não obstante, a referida escola mantém grande nro. de adeptos no Japão, sendo defendido com maior vigor, o subjetivismo Zen, onde a natureza e seu equilíbrio tem importante significado. Defensores do mesmo, censuram o artificialismo provindo da escola tradicional, no qual o perfeccionismo no acabamento clássico, tal como podas impecáveis, similares à topiaria, a branquidão aparente nos jins / sharis, folhas abaixo das ramas, galhos cruzados, dentre outros, tornam a Arte distante da verdadeira natureza.
O segundo caso, Jiyuu Jukei (Estilo / Formato livre) não faz referência a uma escola de regras e características distintas, sendo, simples e puramente, uma opção livre, flexível, quando um exemplar não enquadra-se aos formatos ortodoxos (chokan, moyogi, dentre outros mais), devendo-se ressaltar com proeminência, tratar-se de um clássico tradicional, e não uma variante modernista. Eis um trecho comum a manuais das principais associações japonesas de bonsai, dentre muitas, participantes do majestoso evento Kokufuten: “...
Bonsai no jukeiwa kihontekini, shizenkaini arumonowo tehonto shimasu... Daihyoutekina bonsai jukeiga attemo, korewa keishikijouno bunruide atte, atehamaranai bonsaimo arimasu. Bonsaino jukeiwo sousaku suruniwa, bunruino jukeini kodawaru hitsuyouwa arimasen...” (... os estilos do bonsai têm como fundamento base, as características encontradas na natureza… Mesmo que hajam estilos padrões / principais, estes referem-se, unicamente, a identificação de formatos, havendo bonsai que não enquadram-se aos mesmos…
Para a criação de um bonsai, não há a necessidade de fazer questão de inserção em um tipo de estilo…). A opção “livre” sempre existiu, não sendo pois, um conflito de interesses mediante a quebra de regras rígidas, por imposição dos clássicos. Este equívoco, aparentemente, é comum pelo visto, em grande parte dos bonsaístas, mesmo aqueles agraciados por maior experiência e informação.
Sua citação, Sr. Sergivaldo, “... Tenho visto vários comentários mencionando o Estilo Naturalista ("Naturalist Style"😉 onde me dá a impressão de que trata-se de uma alternativa mais livre...” faz referência, na verdade, ao
Jiyuu Jukei, e não ao bonsai ao “estilo natural”. Da mesma forma, o exemplar de jurema-branca, de bom acabamento, apresentado neste link
http://papagoiaba.forumvila.com/papagoiaba-about1498.html por forista, de mesmo meio, não trata-se de um Shizen bonsai, mas meramente, um bonsai em estilo livre (
Jiyuu jukei).
Defronte o ensejo, em mesmo debate, cita-se o nome do digno bonsaísta Walter Pall como desbravador / utilizador de uma vertente, substantivada “Naturalistic”. Indubitavelmente, não é utilizado neste caso, o termo correto, apesar de o mesmo assim o nomear, nem tampouco torna-se sua denominação, algo a ser corrigido. Water Pall é um exímio explorador do
Jiyuu Jukei, podendo-se batizá-lo como “Walter Pall Style”. Tal fato pode facilmente ser constatado pelo perfeccionismo classicista no acabamento final de seus exemplares, a utilização de regras padrões, como a simetria triangular (agradável aos olhos), tridimensionamento de patamares, troncos afunilados, dentre demais outros. De forma sarcástica, Sr. Sergivaldo, caso tais exemplares fossem da “verdadeira” escola naturalista, o bonsai estaria enveredado entre um bom volume de capim, além do principal, o dito bonsai, ser também, meros arbustos de porte.
Em suma, seu comentário “... É sabido que a maioria das regras para a formação de um bonsai foram estabelecidas pelos japoneses e baseado nelas tenho me norteado na execução dos meus bonsai. Algumas vezes, entretanto, me deparei com situações onde alguns desses conceitos eram muito difíceis de serem aplicados...” deve atribuir-se, meramente, a utilização das sínteses operacionais e regras básicas, mas não a necessidade sôfrega de “encaixe” do formato da planta a um estilo padrão. Para compreensão do sentido da existência de depreciação, ou não, do bonsai em
Jiyuu Jukei, como por exemplo, nos concursos nacionais, a explicação é ingênua e natural: concursos devem manter parâmetros de comparação / qualidade para que exemplares concorram entre si, ou seja, mesmo que hajam somente 3 exemplares participantes sendo todos horrendos e franzinos, por obrigação, elege-se, pois, o menos feio... Para testemunho desta teoria, a escolha de plantas com formatação atípica, torna as regras vulneráveis, pela ausência de comparativos que as “ranqueem”, porém... O ser humano é uma caixa de surpresas. Juízes ao se depararem com exemplares de magnitude divina, com créditos capazes de acobertarem diferenças oriundas de pontuacões e diretrizes, tornam então visíveis históricos de eventos onde “a regra” não é / foi o elemento principal. Mas ressalto, são todos clássicos sem teor nem intenção de modernismo...
Como de praxe, evitarei possíveis entraves mediante postagens extras, mas caríssimo Sr. Sergivaldo, acredito que já tenha decifrado seu enigma, e compreendido o “Calcanhar de Aquiles” de nossa Arte neste país.
p.s.: Camarada Castro, como sempre, wabi / sabi sempre presente em suas explanações! Espero poder ver mais comentários! 😄
Tenham um Feliz Ano Novo!
Abracos! 😄