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LENDAS DO JAPÃO!

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bergson08/03/2008 07:01
LENDAS DO JAPÃO!
Amigos,

Como todos gostam e admiram a cultura japonesa resolvi criar este tópico e colocar a cada dia uma lenda do japão.

Espero sinceramente que gostem!


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A sacola furada
(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)



Há muitos anos, em uma região montanhosa do Japão, vivia uma mãe com duas filhas moças. Comentários da vizinhança davam conta de que a mais velha era bondosa e querida por todos da aldeia, enquanto a mais nova era egoísta, gananciosa e muito antipática. Apesar disso, por ser a caçula, a mãe tratava melhor a mais nova, empurrando para a mais velha todos os serviços sujos e pesados da casa.

Certa ocasião, a mãe mandou que as duas fossem à floresta catar kuri (castanha). E ordenou que só voltassem quando estivessem com embornal cheio de castanhas. Assim, entregou para cada uma delas um embornal do mesmo tamanho. Acontece que a sacola da mais jovem era nova e a da mais velha, muito usada e cheia de furos.As duas andaram bastante na mata, até que encontraram um velho castanheiro esparramando sementes pelo chão. Então, começaram catar as sementes para encher logo o bornal. Apesar de a mais velha se empenhar no trabalho, à medida que colocava as castanhas por cima, elas iam vazando pelos furos e nunca ficava cheio por completo. Já a mais nova conseguiu encher com facilidade seu novo embornal.

Assim, a mais nova foi embora, enquanto a mais velha continuou catando para completar seu trabalho. Enquanto repetia o gesto de catar e ao mesmo tempo tapar os buracos com as mãos, o sol se foi e a noite chegou. Sentindo medo, resolveu voltar para casa, mas a escuridão a impedia de enxergar o caminho de volta. Andou durante algumas horas sem rumo, com temor de lobos, até que chegou a um pequeno santuário abandonado.

Quase na frente do pequeno templo havia um Jizô – estátua de pedra representando um anjo budista, protetor dos pobres e dos honestos. A moça aproximou-se da estátua e, juntando as mãos em gesto de oração, pediu ao anjo que permitisse passar a noite no santuário.

E a estátua de pedra respondeu:

– Pobre menina, se você quiser pode passar a noite aqui, porém existe um grande problema. Este local abandonado se tornou ponto de reunião dos oni, esses demônios de chifre vêm todas as noites nesta clareira para beber saquê e fazer uma grande barulheira.

– Deve ser muito perigoso, mas o que vou fazer? Não posso voltar para casa com o embornal de castanhas incompleto e corro o risco de ser devorada pelos lobos no caminho. Se eu ficar, esses demônios podem me ver e estarei perdida do mesmo modo. Que dilema. Salve-me, Jizô-san, por favor – disse a moça com lágrimas nos olhos.

– Você terá que ser corajosa. Descansará escondida atrás de mim, com aquele chapéu de palha que está pendurado no santuário. Quando os oni chegarem e estiverem fazendo festa, você deverá imitar o canto do galo batendo o chapéu de palha, para simular o bater das asas. Assim, eles irão embora pensando que vai amanhecer. E depois você poderá dormir sossegada.

A moça pegou o chapéu e sentou-se encostada atrás do Jizô, e ficou descansando. No meio da noite, conforme tinha dito o anjo budista, os demônios começaram a vir de todos os lados, cada um com um garrafão de saquê. Pouco depois, eles bebiam, cantavam e faziam jogatina... Soltavam gazes e palavrões para todos os lados. A garota estava dura de medo e rezava baixinho para não ser descoberta.

Quando a festa estava de bom tamanho, ela criou coragem e começou a imitar o canto do galo, batendo o chapéu de palha como farfalhar de asas. Os oni levaram um susto com o canto do galo.

– O galo está cantando, vai amanhecer. Vamos depressa para nossas cavernas, Amaterasu Oomikami, a Augusta Deusa Sol, vem aí.

Foi uma confusão geral. Os demônios saíram correndo para todos os lados e desapareceram dentro da mata. Assim, a moça pôde dormir sossegada no pequeno santuário.

Quando o dia chegou, diante do Jizô, a garota juntou as palmas das mãos em agradecimento e se despediu do anjo budista.

- Se você quer demonstrar gratidão, não pode ir embora deixando toda essa sujeira que os demônios fizeram na clareira do santuário. Coloque tudo no seu embornal e leve para bem longe daqui.

Na clareira, havia garrafas de saquê cheias e vazias, papéis, e muitas moedas de ouro usadas na jogatina pelos oni. A garota esvaziou seu embornal de castanhas, forrou o fundo furado com papéis e garrafas e repôs as castanhas junto com as moedas de ouro. Assim, voltou para casa feliz, pois a sacola, agora sim, estava cheia.



Quando a garota chegou em casa, levou uma bronca da mãe, porque demorou muito para voltar. Mas, quando viu as moedas de ouro, os olhos da mãe saltaram de tanta ganância. Logo, ela tratou de guardar para si as moedas. Já a irmã mais nova ficou morrendo de ciúmes, pois era ela quem gostaria de ter conseguido aquelas moedas.

Gananciosa, a mãe decidiu que as filhas deveriam voltar à floresta para pegar mais castanhas. Porém, desta vez, trocou as sacolas. Deu a sacola nova para a filha mais velha e a sacola velha para a filha mais nova. Ela queria que sua filha favorita trouxesse moedas de ouro também.

Na montanha, a história repetiu-se de modo inverso. A irmã mais velha com a sacola mais nova encheu-a primeiro de castanhas. E resolveu ajudar a mais nova.

– Não preciso de sua ajuda. Se já encheu seu embornal, vá para casa. Eu logo chego lá.

– Vou esperar por você. É perigoso ficar sozinha no meio da mata.

– É melhor você ir embora. A mamãe vai ficar brava se souber que você encheu a sacola e ficou folgadamente parada. Ela lhe espera para preparar o nosso jantar.

Assim, a mais velha voltou para casa a contragosto, pois temia que sua irmã fosse farejada pelos lobos.

Vendo a irmã mais velha ir embora, a outra se apressou em procurar o santuário abandonado do Jizô descrito pela primeira. E não tardou muito a encontrar a estátua do anjo budista.

– Jizô-san, posso passar a noite nesse santuário? – perguntou a menina para a estátua.

– Ninguém pode lhe impedir de passar a noite aqui. Porém, devo adverti-la de que é perigoso, pois à noite, vários oni vêm aqui beber e fazer jogatina. Se descobrirem, você será, com certeza, mais uma vítima desses demônios desalmados. Portanto, é melhor ir embora enquanto está claro.

– Mas, Jizô-san, eu não sou medrosa.

Assim, a menina continuou insistindo tanto, que o Jizô concordou e deu a ela a mesma instrução dada à irmã dela na noite anterior. Então, ela se escondeu atrás do Jizo com um chapéu de palha na mão e ficou à espera dos oni.

No meio da noite, mais uma vez, os demônios chegaram na clareira. Mal começou a jogatina, a menina viu o brilho das moedas de ouro e, impulsionada pela ganância, não resistiu e saiu de seu esconderijo. Começou a bater o chapéu de palha e a cantar como um galo. Os demônios levaram um grande susto com aquela inesperada barulheira. Porém, logo raciocinaram que havia algo de estranho:

– Impossível que já esteja amanhecendo! nem chegamos a esvaziar uma garrafa de saquê!

– Alguma coisa está errada. Estão querendo nos enganar!

– Procurem e descubram quem é o engraçadinho!

Não demorou muito para os oni descobrirem a garota, que, tremendo de medo, voltou para trás da estatua do Jizô.

– Ah, então foi essa que nos enganou na noite de ontem e pegou nossas moedas de ouro. Vamos dar uma surra de chicotadas nela.

A garota correu, pedindo clemência, e os demônios correram atrás dela, dando-lhe varadas e chicotadas a noite toda, até ela chegar em casa exausta e castigada. Vendo a filha mais nova apanhando dos demônios, a mãe interveio, dizendo que quem trouxe as moedas foi a irmã mais velha.

– Velha mentirosa, merece apanhar também.

– Sim, vão apanhar até nos devolverem as moedas de ouro!

Assim, depois de levar uma surra, a mãe devolveu as moedas.

Bem que a irmã mais velha confessou ser ela quem tinha trazido as moedas, porém os demônios não acreditaram.

Na hora de ir embora, os demônios deram as moedas para a irmã mais velha, dizendo:

– Você é uma boa filha. Tentou proteger a mãe, dizendo-se culpada por trazer nossas moedas. Como prêmio, vamos presentear você.

– Mas, “senhores oni”, fui eu que apanhei as moedas de vocês.

– Não precisa dizer mais nada. Nós não somos idiotas. Agora, as moedas são suas e, se alguém tentar tirá-las de você, voltaremos para cortar as mãos dessa pessoa!

Assim dizendo, os demônios voltaram para a floresta.

Comentário
O oni é uma criatura mítica que aparece em inúmeros contos e lendas do Japão. Geralmente, simboliza o mal, sendo um personagem monstruoso e temido, porém pronto para ser derrotado pelos famosos heróis lendários, como: Momotaro, Kintoki, Watanabe-no-Tsuna e Minamoto-no-Yorimitsu, entre outros.

O oni tem um rude aspecto humano, com cabeça grande, um ou dois chifres e, geralmente, pele vermelha. Geralmente, porque existe uma lenda que fala de um oni de pele azul. Embora tendo chifre e pele avermelhada, traduzir a palavra oni como “diabo” é um grande equívoco. O oni é uma espécie de demônio que mais se aproxima do ogro europeu que do diabo cristão.

Em muitas lendas japonesas, os oni reúnem-se em clareiras nas florestas para fazer jogatina, beber e cantar, como nas lendas já publicadas no Zashi: Kobutori Jiji, Issunboshi e Kozenji no Sotaro.


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fabianoscosta08/03/2008 11:50
Fantástico, muito bom! Adorei!!!
Lerei diariamente.


Abração,
Fabiano.
bergson08/03/2008 21:43
Caro Fabiano,

Fico feliz que tenha gostado tanto quanto eu, amanhã terá mais.

Tenha um bom fim de semana!
bergson09/03/2008 09:27
Kanzakura, a Cerejeira Sagrada
(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)



Em Mimasaka no Kuni (país de Mimasaka), hoje província de Okayama, havia uma pequena aldeia de nome Kagami, onde até hoje existe um solo sagrado com um templo centenário shintô dedicado à divindade Musubi no Kami, deus do amor e da união.

Nesse solo sagrado ao redor do templo havia uma velha e magnífica cerejeira chamada Kanzakura, ou cerejeira sagrada. Próximo dela foi construído o templo dedicado ao deus do amor.

Na pequena vila de Kagami morava um homem muito rico chamado Sodayu. Ele era viúvo e tinha uma encantadora filha, de 17 anos, chamada Hanano. Um dia, Sodayu achou que a filha estava na idade de contrair matrimônio.

- Minha menina - disse o pai - devemos proceder como manda a tradição. O tempo passou e minha criança já está na idade de encontrar um marido. Minha obrigação é arranjar um bom noivo para você.

Hanano contou a novidade à governanta Yuka, pedindo que ela encontrasse alguém para gostar. Yuka respondeu que era difícil encontrar uma pessoa que a merecesse, porém sugeriu que sua jovem patroa fosse rezar no templo de Musubi no Kami.

- Para isso, terá que orar 21 dias seguidos no terreno sagrado.

Hanano gostou da sugestão e, nesse mesmo dia, partiu em companhia de Yuka em direção do santuário. Dia após dia ela orou, até que chegou o 21º dia. Terminadas as orações, elas voltavam passando sob a grande cerejeira sagrada, que estava em plena floração. Viram que perto do tronco havia um jovem, com cerca de 21anos. Era um belo rapaz com olhos expressivos e tinha na mão um galho de cerejeira carregada de flores. Para surpresa das duas, ele deu um agradável sorriso para Hanano e veio ao encontro dela. Gentilmente, entregou as flores para Hanano, curvando em reverência, e afastou-se em seguida.

Hanano vibrou de emoção. Ficou muito feliz, pois sentiu que o deus do amor e da união havia mandado aquele belo jovem em resposta às suas preces.

- Yuka, eu estou muito feliz. Como você disse, o deus Musubi me enviou esse lindo rapaz. Valeu a pena ficar orando durante 21 dias.

Na cidade vizinha, havia um samurai de nome Tokunosuke que, ao ficar sabendo que Sodayu procurava um noivo para a filha, resolveu ir pessoalmente se apresentar como pretendente.No dia seguinte, o moço foi visitar o pai de Hanano. A certa altura da conversa, Hanano foi chamada para servir chá ao visitante. Depois que ele foi embora, o pai disse que aquele é o rapaz que ele escolheu para ser seu esposo.

- Ele é de uma família rica. Seu pai é meu amigo. E o rapaz diz que já faz um tempo que está apaixonado por você.

Hanano nada disse, pediu licença a seu pai e retirou-se para seu quarto de cabeça baixa. Sodayu comentou com Yuka:

- Encontrei um ótimo pretendente para minha filha, mas ela em vez de mostra-se feliz, saiu às pressas para o quarto. Você pode explicar-me a razão? Você deve saber seus segredos.

Yuka a princípio vacilou em responder, mas achou que para o bem da menina devia contar toda a verdade. Assim, relatou o encontro da Hanano com o jovem desconhecido.

Na manhã seguinte, Tokunosuke veio a casa de Sodayu e ouviu de Hanano que não poderia casar-se com ele, pois amava um rapaz desconhecido.

O jovem que amava Hanano ficou desesperado. E revolveu segui-la para saber quem era seu rival.

Na tarde desse mesmo dia, Hanano e Yuka foram ao templo. Mais uma vez o jovem estava sob a cerejeira florida e, vendo a garota, se aproximou com um ramo florido e a ofereceu sem dizer uma palavra.

Tokunosuke, que estava escondido atrás de um torô (lanterna de pedra), assistiu a tudo com o coração apertado.

Quando Hanano e Yuka foram embora, Tokunosuke saiu de seu esconderijo e abordou o jovem em tom rude.

- Quem é você, seu conquistador barato? Dê seu nome e endereço, quero saber se é digno ao amor da bela Hanano.

O jovem nada respondeu, limitou-se a fitá-lo com seu olhar penetrante. Isso deixou Tokunosuke mais irritado. O samurai sacou de sua espada e atacou com um violento golpe em direção do jovem. Agarrando um galho pendente numa esquiva rápida, o jovem misturou-se às fartas flores de cerejeiras. Nesse momento, uma chuva de pétalas caiu sobre o samurai, cegando-o momentaneamente.

Quando a chuva de pétalas acalmou, Tokunosuke pôde perceber que o jovem havia desaparecido e sua espada estava clavada no tronco da cerejeira. Nisso, um dos sacerdotes do templo veio correndo e gritando:

- Seu malfeitor desalmado! Feriste o tronco da cerejeira sagrada. Por que tanta violência?

Tokunosuke pediu desculpas de joelho e contou ao religioso o que tinha acontecido. E o sacerdote explicou:

- Esta árvore é sagrada porque tem um espírito sagrado. Às vezes, o espírito da árvore se manifesta sob forma de um jovem diante do tronco. É a esse espírito que você tentou ferir com sua espada.

Tokunosuke deixou o solo sagrado e foi direto para casa de Sodayu. E contou a ele tudo o que tinha visto e ouvido.

- Talvez agora sua filha aceite casar-se comigo, pois não pode se casar com um espírito sagrado, não é mesmo?

Hanano foi chamada para saber do acontecido. O resultado foi o mais inesperado possível.

- Não sei o que dizer. Cometi uma blasfêmia, fui me apaixonar por um deus da natureza - gritava completamente fora de si. - Tenho que orar bastante no templo para ser perdoada.

Assim, Hanano, mais uma vez, recusou-se a casar com Tokunosuke e resolveu se internar em um templo e se dedicar à vida religiosa. Com o consentimento de seu pai, foi viver num templo, raspando a cabeça e vestindo um hábito branco. Hanano passou a viver sua nova vida varrendo o chão do jardim, cuidando das plantas e fazendo muitas orações. Dizem que quando ela morreu, foi enterrada no solo sagrado e, de seu túmulo, nasceu uma nova cerejeira. Hoje, essa cerejeira floresce todos os anos ao lado da cerejeira grande sagrada.

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Marcos Castilho09/03/2008 10:28
Valeu Bergson, mais um belo texto, muito interessante, se tiver mais pode contar para nós.
bergson09/03/2008 11:23
Marcos,

Pode esperar que tem mais algumas dezenas de textos a serem colocados. 😂 😂

A cada dia postarei uma nova lenda!!!!
bergson10/03/2008 05:46
A Princesa e o Dragão
(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)



Há muitos séculos, vivia, em uma pequena aldeira montanhosa, um velhinho e sua esposa. Certa ocasião, os dois foram a um santuário agradecer a Zenchi no Mikoto, o Deus da Graça Divina, pelo dom da longevidade da qual eles foram contemplados. Na volta, quando caminhavam para casa, viram no rio um cesto sendo levado pela correnteza. Curiosos, pegaram uma vara de pesca abandonada e puxaram o cesto para a margem do rio.

O casal levou um tremendo susto, porque no cesto havia uma criancinha sorridente. Como o casal não tinha filhos, interpretou que aquela graciosa menina era um presente do céu, já que durante as orações de agradecimento no santuário, haviam comentado que se tivessem filhos, a felicidade do casal estava completa.

Assim, levaram a criança para casa e a trataram com muito carinho. O tempo passou e a criança transformou-se numa linda moça. Ela era tão bonita que todos a chamavam de Hime (Princesa).

Na vizinhança, moravam dois irmãos que gostavam dela desde o tempo em que eram crianças. O irmão mais velho era esperto e muito ativo; o mais novo, amável e muito pacato.

Um dia, quando o senhor feudal visitou a aldeia durante o Festival da Colheita, vendo a moça dançar, gostou muito dela e a requisitou para morar no castelo como uma das suas concubinas.

Os aldeões ficaram satisfeitos, pois a sua ida para o castelo do senhor representava prosperidade futura da aldeia, pois ela poderia interceder junto ao senhor feudal para fazer melhorias. Porém, duas pessoas da aldeia não gostaram. Eram os irmãos que amavam a garota. Desgostoso de tudo, o mais velho foi até o penhasco e saltou para dentro do lago. Logo a seguir, o irmão mais novo. Nesse exato momento um dragão surgiu na superfície do lago e os aldeões pensaram que ele se transformara num dragão. Na verdade, o dragão era o pai dos irmãos, Ryuoo, o Rei dos Dragões.

Certo ano, na região, houve uma longa estiagem. O campo agrícola estava completamente seco e o grande lago, quase seco. Diante disso, o senhor feudal ordenou que os aldeões fizessem campos de arroz no lago semi-seco. Assim, os lavradores começaram a remover a terra do fundo do lago. Porém, nessa noite, todos os lavradores tiveram o mesmo sonho: a bela Hime apareceu a cada um deles e fez um pedido dizendo para preservar o lago como está.

Mas ninguém deu ouvido ao pedido e continuaram cavando a terra para o plantio, pois estavam desesperados. Se a seca continuasse, todos morreriam de fome.

O fundo do lago foi todo revirado pelos homens da aldeia. Então, Ryuoo ficou irritado e a água foi aumentando, aumentando, até causar uma inundação. As águas carregaram as mudas de arroz para superfície, levando-as para o campo tradicional e arrastando os corpos dos irmãos que estavam mortos no fundo do lago.

Hime vendo Ryuoo foi conversar com ele:

- Por favor, Rei dos Dragões, use seus poderes para trazer os dois irmãos à vida.

- Esses dois eram meus filhos, mas nada posso fazer, pois eles sacrificaram a vida por vontade própria. Somente outro sacrifício pode reverter essa situação.

- Eu amei os dois. Ajude-os em troca de meu sacrifício. Para dizer a verdade, trago em meu ventre um bebê do irmão mais velho, disse Hime chorando.

- Lembre-se, você, que é tão linda, se entrega sua vida em sacrifício, jamais poderá retornar à forma humana. Será para sempre um dragão feio.

Hime concordou em se transformar em dragão e viver para sempre no fundo do lago com seu amado que, após voltar à vida, preferiu a forma de dragão. O irmão mais novo adquiriu novamente forma humana e retornou à aldeia com o bebê de Hime e de seu mano.

Quinze anos depois, o bebê havia se transformado em uma linda garota. Por isso, como a mãe, todos da aldeia a chamavam de Hime (princesa).

Um dia olhando para o lago, seu tio disse:

- Fomos salvos por sua mãe 15 anos atrás. Ela era bonita como você. Aceitou ser transformada em dragão para salvar a minha vida e a de seu pai. Eu prometi que retornaria ao lago quando você completasse 15 anos. E hoje é o dia do meu retorno.

Dizendo isso, o irmão mais novo mergulhou no lago e nunca mais voltou.

Atualmente o lago é chamado de Lago Tazawa, cujo nome faz referência à plantação de arroz.


Comentário:
O lago Tazawa está situado no parque nacional Towada Hachiman, na região leste da província de Akita, e é o lago mais profundo (423m) do Japão. No local, a lendária princesa, que passou a ser chamada Tatsuko Hime (Princesa Dragão), tem sua estátua dourada instalada como símbolo do lago.

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bergson10/03/2008 05:47
Amigos,

Conjuntamente com as Lendas do Japão, será colocada as Histórias Budistas as quais foram lembradas pelo Fabiano Costa em um feliz momento.
Alcides Junior10/03/2008 09:50
Muito legal Bergson....valeu mesmo ler todos...
bergson11/03/2008 05:49
Esterco de pedras
(Ilustração: Cláudio Seto)



Numa época muito distante, quando alguns animais selvagens tinham o poder de transmutar em seres humanos, havia um tanuki (texugo) cujo maior prazer era pregar peças nas pessoas da região em que vivia. Esse tanuki já havia enganado várias pessoas, transformando-se em um perigoso samurai assassino e assustando os viajantes que cruzavam a mata. Também já tinha enganado quase todos os moradores de uma aldeia próxima com diversas artimanhas. Ele tinha orgulho de suas malandras peripécias, porém não se sentia plenamente realizado, porque nunca havia conseguido enganar um garoto de nome Hikoichi que morava na aldeia. O fato tornou-se uma questão de honra e, por toda a lei, o texugo queria, com algum truque bem-feito, iludir o menino ou, no mínimo, fazer alguma maldade para o garoto.

Certa ocasião, quando Hikoichi e sua mãe estavam trabalhando na horta, o texugo ficou escondido em uma moita de capim para observá-los. Percebeu, então, que Hikoichi e sua mãe trabalhavam com afinco, cavando a roça para não perder a época de deitar as sementes. Então, o texugo teve uma idéia maligna.

Quando a noite chegou, o texugo botou em ação o seu plano. Catou todas as pedras que havia na região e jogou-as na roça de Hikoichi. Aquela obra malvada certamente ia atrapalhar muito o trabalho de Hikoichi e sua mãe. O texugo vibrava de alegria só de pensar que, na manhã seguinte, Hikoichi ia chorar de raiva. É verdade que foi um plano trabalhoso, pois o texugo carregou pedra por pedra até a horta durante toda a noite. Ao amanhecer, estava prostrado de tanto esforço, porém satisfeito pelo serviço que certamente deixaria Hikoichi com muita raiva.

Não tardou muito e Hikoichi chegou para trabalhar na horta. Vendo a roça forrada de pedras, o garoto logo percebeu que aquilo havia sido obra do texugo. Desconfiando de que ele pudesse estar por perto para saborear o resultado da sua obra maligna, disse, em voz alta, para sua mãe, que se aproximava da horta.

– Veja que maravilha, mamãe! Alguma pessoa bondosa forrou nossa horta com adubo de pedra. Isso vai poupar nosso trabalho. Podemos voltar para casa e continuar dormindo. Imagine se tivessem jogado estrume de cavalo ou gado, ia ser desagradável e difícil de remover.

Assim, puxando a mão de sua mãe, Hikoichi foi embora para casa. O texugo ficou se remoendo de raiva e jurou vingança. Ato seguinte, passou para a ação. Apesar de cansado do trabalho da noite anterior, começou a retirar todas as pedras que havia jogado na horta. Isso durou grande parte do dia e foi necessário muito esforço. À tarde, o texugo já estava arrastando as pernas de cansaço. Mas era tanta a sua vontade de se vingar, que ele empreendeu muito esforço e foi até o estábulo e depois ao campo, recolhendo todo o estrume de cavalo e de gado que encontrou pela frente. Era um trabalho muito desagradável, mas, decidido a atrapalhar a vida de Hikoichi, fez várias viagens para espalhar estrumes por toda a horta. Depois, esgotado, foi para a mata descansar, certo de que havia causado tremenda dor de cabeça para Hikoichi.

Meses depois, chegou a época da colheita na roça de Hikoichi e de sua mãe. Para a surpresa de toda a aldeia, a horta deles apresentou a maior fartura de toda vizinhança.

– Nossa, mamãe, a colheita foi ótima, graças ao adubo que o texugo espalhou em nossa roça.

– É verdade, meu filho, acho que devemos agradecer a ele.

Enquanto isso, na mata próxima da aldeia, o texugo estava completamente arrasado ao descobrir que a colheita de Hikoichi havia sido muito boa. Em vez de pregar uma peça no garoto, foi ele quem o enganou direitinho. Aquilo era humilhante para um texugo tão cheio de artimanhas. Sim, ele teria que se vingar de alguma forma. Enquanto tentava articular um plano vingativo, ouviu uma voz que o chamava:

– Hei, Tanuki-san, mamãe mandou milho cozido para você. Nossa safra foi muito boa e achamos que você merece nosso agradecimento. Vou deixar os milhos aqui. Até logo e obrigado.

O texugo saboreou o milho cozido com muito prazer. Esqueceu-se de toda a maldade que fizera até então e deixou de pregar peças no pessoal da aldeia. E mais, anualmente, passou a adubar a roça de Hikoichi e sua mãe e, conseqüentemente, a saborear milho cozido após todas as colheitas.

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bergson12/03/2008 07:53
Medo de manju
(Ilustração: Cláudio Seto)



Há muitos e muitos anos, numa pequena aldeia rural do Japão, viviam um garoto e sua bondosa mãe. O garoto era muito inteligente e, por isso, todos o chamavam de Hikoichi, que significa o primeiro dos inteligentes. Na mata perto de sua casa, existia um tanuki (texugo) que gostava de pregar peças nas pessoas, principalmente nos viajantes que cruzavam o matagal. Como se sabe, no folclore japonês, o texugo – assim como a raposa, a serpente e o bagre – tem o poder mágico de se transformar em ser humano ou em objetos. E a arte principal do texugo dessa história era a de assustar as pessoas transmutando-se em um famoso samurai assassino, que tinha a fama de matar as pessoas para treinar sua habilidade no manejo da espada.

Sempre que um viajante passava pela estrada da mata, em um ponto chamado curva do bambuzal, era surpreendido pela aparição repentina do samurai assassino com espada em punho e seu famoso nirami (olhar fulminante), que provocava arrepios. Ele sacava a espada e dizia ameaçadoramente:

– Ei, você, chegou a hora de sentir o fio de minha espada em seu pescoço! Veja esse bambu à minha frente e imagine que é o seu pescoço.

Ato seguinte, sacava a espada e, no movimento do saque, o bambu era cortado num gesto rápido e quase imperceptível. Quando o bambu caía cortado ao meio, os viajantes saíam correndo apavorados. Largando seus pertences, fugiam apressadamente, sem imaginar que aquilo não passava de uma ilusão criada por um texugo. Ao ver as pessoas fugindo de medo, o animal encantado morria de rir e, com essa brincadeira, vivia se divertindo todos os dias.

Com o passar do tempo, a peça que pregava nas pessoas no caminho da mata foi perdendo a graça. Então, o texugo resolveu ir até a aldeia e assustar as pessoas em suas próprias casas. Seria para ele um novo desafio. Numa noite de inverno, saiu da mata e foi até a aldeia próxima. Parou diante da casa de Hikoichi e espiou por uma fresta. O menino estava sentado sonolento perto de um aquecedor à base de brasas chamado irori.

A mãe de Hikoichi, que também se aquecia junto ao filho, percebeu que alguém estava batendo à porta e disse ao garoto para atendê-la.

Quando o garoto abriu a porta, lá estava o temido samurai empunhando sua espada sanguinária. Hikoichi, que morava na entrada da aldeia, várias vezes deu abrigo a viajantes que apareciam correndo apavorados dizendo que foram ameaçados pelo samurai assassino. Vendo que a figura do samurai à sua frente era igual à descrição dada pelos viajantes, não foi difícil concluir que se tratava de um truque do texugo, pois ninguém até aquela data tinha sido morto ou ferido pela aparição.

Mas, fingindo de nada desconfiar, Hikoichi convidou o samurai a entrar.

– Por favor, meu bom homem, entre e venha se aquecer no irori.

Surpreendido pela inesperada reação do garoto, o samurai sanguinário entrou meio constrangido e sentou à beira do aquecedor. O garoto ofereceu-lhe saquê (vinho de arroz) e alguns tira-gostos. Depois de comer e beber, o texugo transformado na figura de bandoleiro perguntou:

– Você me parece um jovem que nada teme, ou será que estou enganado?

Hikoichi percebeu que estava sendo sondado pelo texugo e usou de uma artimanha:

– Bem, para falar a verdade, não tenho medo de quase nada... porém, de uma coisa morro de medo. Mas trata-se de um segredo e não posso contar para ninguém.

– Ora, pode confiar em mim. Não contarei nada a ninguém. Palavra de bandoleiro!

– Bem, sendo assim... não vai dizer para ninguém mesmo?

– Pode confiar, seu segredo ficará trancado a sete chaves!

Hikoichi estava ganhando tempo para bolar alguma idéia genial e lembrou que sua mãe gostava de manju (doce à base de feijão azuki) e disse:

– Não conte para ninguém que eu tenho medo de manju.

– Que brincadeira é essa? Como uma pessoa pode ter medo de manju?

– Por favor, não fique repetindo esse nome. Só de ouvir falar de manju, fico tremendo de medo.

Vendo que o menino estava com tremedeira, o texugo deu-se por satisfeito. Assim, despedindo-se do menino, o texugo foi embora.

Na manhã seguinte, quando Hikoichi abriu a porta, deu de cara com um prato cheio de manju, que foi deixado ali pelo texugo.

Assim, Hikoichi enganou o texugo, e ele e sua mãe saborearam o doce dando boas risadas do animal.

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nickyfury12/03/2008 14:36
bonsai
Bergsom, tão boas quanto as histórias, certamente são as excelentes ilustrações. Parabens por essa interessante iniciativa. 😄
bergson12/03/2008 20:06
Caro amigo Nicky,

Agradeço as palavras, muitas lendas ainda estão por vir.
Ricardo Loriggio12/03/2008 23:45
PARABÉNS Bergson,
Bela iniciativa e belas postagens... adorei...
Tenho uma que estou digitando e logo vou postar.
bergson13/03/2008 05:32
Caro Ricardo,

Estarei esperando pois adoro boas histórias.
bergson13/03/2008 05:34
Kannon, a deusa da Misericórdia
(Ilustração: Cláudio Seto)



Há muitos e muitos anos, havia uma mocinha meiga e delicada em uma pequena aldeia japonesa. Com a morte de seus pais, ela vivia sozinha e contava com a ajuda dos aldeões para sobreviver. Porém, sentia-se muito sozinha e, em suas orações, vivia perguntando à deusa Kannon se um dia ela voltaria a ter uma família.

Um dia, ao sair de casa, encontrou um monge budista muito pálido, caído do outro lado da rua, em frente à sua casa.

– Monge, o que o senhor tem? – perguntou a menina, colocando a mão na testa do rapaz.

– Nossa, tem febre alta! – disse para si mesma.

Com muito esforço, a mocinha arrastou o monge para dentro de sua casa. Em seguida, acomodou-o em um dos quartos e resolveu fazer um mingau de arroz para o religioso, que estava muito debilitado. Mas, na cozinha, viu que o cereal tinha acabado. Foi, então, à casa vizinha para conseguir um pouco de arroz.

– Desculpe-me, vizinha, a senhora pode me dar um pouco de arroz?

– Claro, mas quero que me ajude quando eu for plantar as mudas de arroz.

– Sim, pode contar com minha ajuda.

A garota foi à outra casa na vizinhança e pediu:

– O senhor teria algum remédio para febre? Será que poderia me dar um pouco?

– Sim, naturalmente, mas, por favor, no dia do plantio das mudas de arroz, quero que me ajude.

– Está bem, agradeço pelo remédio.

Assim, visitou várias casas para conseguir missô (pasta de soja para fazer sopa), tofu (queijo de soja), peixe, vegetais, leite e assim por diante.

Dessa forma, visitou 20 casas, nos três dias em que o monge ficou acamado. Em todas elas, os aldeões pediram à menina que os ajudasse no dia de plantação de mudas de arroz.

Quando o monge já havia recuperado a saúde e partiu para continuar sua peregrinação, deu a menina uma estatueta.

– Obrigado por seus cuidados amáveis. Agora estou muito bem e vou lhe dar esta deusa Kannon (deusa da Misericórdia) como símbolo da minha gratidão.

Uma semana depois, um vizinho avisou a garota:

– Amanhã é o dia em que minha família vai plantar mudas de arroz. Vamos esperar sua ajuda. Assim, um após outro, os lavradores vieram trazendo o mesmo recado. No total, 20 vizinhos disseram a mesma coisa: “Amanhã conto com sua ajuda”.

– Oh, que devo fazer? Eu não posso ajudar os 20 vizinhos a plantar mudas ao mesmo tempo. Deusa Kannon, ajude-me, por favor. O que devo fazer, afinal? Assim, rezou com grande fervor diante da pequena estátua de Kannon.

Enquanto isso, o monge também rezava por ela no alto de uma montanha. De repente, um clarão surgiu no ar e uma bela figura da deusa Kannon apareceu.

– Ouça-me, monge. Neste momento, a menina que lhe ajudou está com sérios problemas. É a sua vez de ajudá-la. Leve consigo 19 garotas para a aldeia dos plantadores de arroz – dizendo isso, a deusa da Misericórdia desapareceu.

O monge visitou várias casas da cidade vizinha, perguntando em cada uma se não tinha alguma jovem que pudesse ajudar na plantação das mudas de arroz. Assim, conseguiu várias mocinhas dispostas a ajudar na plantação.

Na véspera do dia de plantar arroz, a menina ajoelhou-se diante da estatueta de Kannon e rezou:

– Eu não posso ajudar todos ao mesmo tempo. Então, terei que optar por ajudar um dos vizinhos. Se eu trabalhar duramente, é certo que a deusa Kannon vai me ajudar.

Nessa noite, choveu bastante, e amanheceu chovendo no dia seguinte. A menina levantou cedo e bem disposta. Apanhou um chapéu de mino (palha) e um mino-kasa (capa de palha de arroz) e saiu em direção à horta, que ficava no final da aldeia.

Para ela, toda a vizinhança era muito boa, porém, foi trabalhar na última horta da aldeia, porque ali havia um rapaz de quem ela gostava muito. Enquanto isso, o monge e as 19 garotas, igualmente vestidas com chapéu e capa de palha, chegaram à aldeia e se dirigiram cada uma para uma horta. Assim, todas ajudaram na plantação de mudas de arroz, que no Japão é quase um ritual.

No final do dia, com a missão cumprida, cada aldeão agradeceu a respectiva menina pela ajuda. O monge havia ficado na casa da menina, rezando para a estatueta da deusa Kannon.

Quando a noite vinha chegando, a menina voltou para casa, e as 19 meninas e o monge retornaram à aldeia vizinha.

Na manhã seguinte, conforme costume local, os 20 aldeões vieram agradecer, trazendo um presente como símbolo de gratidão.

– Muito obrigado pela ajuda de ontem! – disseram todos eles.

Ela não entendeu direito o que tinha acontecido, porém, vendo que a estatueta da deusa Kannon estava molhada, agradeceu a ela, dizendo:

– Muito obrigada, deusa Kannon, não sei exatamente como, mas tenho a impressão que você plantou as mudas de arroz no meu lugar. Ajoelhada em frente à estátua, a menina agradeceu profundamente.

Nesse momento, apareceu por lá o rapaz que tinha a última horta da aldeia.

– Vim agradecer pela ajuda de ontem e dizer que tenho mais um pedido a lhe fazer.

– Sim, pode dizer...

– Quero pedir que se case comigo.

A garota olhou para a deusa Kannon, e ela estava sorrindo.

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Elio13/03/2008 10:54
Olá Bergson!
Grande matéria o amigo está postando.
Tomei a liberdade de escrever para o Jornal Nippo-Brasil pedindo autorização para copiar e divulgar aos associados da APB.

Abração
bergson14/03/2008 05:40
As origens de Maneki-Neko

Atualmente conhecido em todo o mundo como talismã da sorte e, particularmente, como talismã que atrai fregueses para casas comerciais, o Maneki-neko, o gatinho sentado que tem a patinha levantada, tem diferentes lendas a respeito de sua origem, conforme região do Japão. Esta é uma das versões do lado leste do Lago Biwa, na região central do Japão.

Conta a lenda que quando o lorde guerreiro Ii Naotaka (1590~1659) voltava do cerco e tomada do Castelo de Osaka, após ter comandado 3,2 mil homens e se destacado na Batalha de Tennoji, em março de 1615, surpreendido por uma chuva repentina, abrigou-se em baixo de uma árvore próximo do Templo Gotokuji, em Setagaya.

Gotokuji, na época, era um templo decadente, com pouca freqüência de fiéis e, portanto, muito pobre. No templo, vivia um monge budista e uma gata de nome Tama. Solitário, o monge conversava com a gatinha lamentando quase sempre a situação de penúria do templo.


Salvo pelo gato: raio atingiu a árvore no local em que Naotaka estava encostado
– A situação está cada vez pior. Hoje, nem temos arroz para comer. Bem que você podia dar uma ajuda para melhorar nossa situação, em vez de ficar dormindo o dia inteiro.


Salvo pelo gato: raio atingiu a árvore no local em que Naotaka estava encostado

Esperando a chuva passar sob a árvore, Ii Naotaka olhou para o velho templo e viu um gato sentado sobre suas patas traseiras e acenando com a pata dianteira levantada. O samurai ficou encantado pela habilidade do bichinho e foi em direção do templo para ver de perto a façanha.

Quando Naotaka chegou junto ao templo, um raio fulminante atingiu a árvore exatamente no local em que ele estava encostado. O guerreiro imediatamente percebeu que aquele gesto do gato havia salvado sua vida. Então, entrou no templo para rezar em agradecimento à graça recebida.

No salão principal, havia várias goteiras, e todo o templo estava em condição lamentável. Naotaka fez oferenda de todo o dinheiro que carregava ao altar, comentando com o monge que a sabedoria de Buda iria usar aquele dinheiro para reformar o templo. Após esse episódio, Naotaka passou a freqüentar o Gotokuji, e o local tornou-se, então, o templo oficial da família de Ii Naotaka. Conseqüentemente, tornou-se um local próspero e visitado por todas as pessoas do feudo.

Para homenagear o gesto de Tama, que tanta sorte trouxe ao templo e salvou a vida de Naotaka, foi esculpido e colocado no local uma estátua da gata com a mão levantada. As réplicas em miniaturas da estátua, que eram distribuídas no Templo Gotokuji como lembrança, tornaram-se, mais tarde, amuleto da sorte, com o nome de Maneki-Neko.

Outra versão

História também bastante conhecida, surgida nos meados da Era Edo (1615~186😎, conta que existiu, no bairro de Imado, em Edo (hoje Tóquio), uma velha senhora que tinha um gato de estimação. A velhinha estava em péssimas condições financeiras, porque, devido à idade avançada, não conseguia arranjar um trabalho para garantir seu sustento.

Numa determinada ocasião, a situação ficou tão crítica, que ela não tinha mais como alimentar seu gatinho. Então, conversando com o bichinho, disse:

– É com o coração partido que terei de abandonar você. Devido à minha condição de extrema pobreza, não tenho como continuar lhe alimentando.

Depois, com lágrimas nos olhos e barriga roncando, a velhinha foi dormir. Em seu sonho, o gato apareceu e disse:
– Molde minha imagem em barro, que trará muita sorte a você.

No dia seguinte, ela resolveu fazer uma estatueta do gato, conforme o sonho havia sugerido. Enquanto ela moldava o barro, o gato estava “lavando a cara” com gestos exagerados e, achando engraçado, a velhinha resolveu moldar o bichinho com a pata levantada. Nisso, passou uma pessoa em frente de sua casa e, achando interessante, quis comprar a estatueta. Como estava dias sem comer, a velhinha vendeu a estatueta e comprou comida para ela e o gato. Assim, de barriga cheia, resolveu fazer outra estatueta para deixar como talismã da sorte. Porém, apareceu outra pessoa e comprou a segunda estatueta

Quanto mais a velhinha fazia estatuetas, mais aparecia gente para comprá-las. Com isso, ela mudou de vida e nunca mais passou necessidades. E a estatueta da sorte passou a ser conhecida como Maneki-Neko.

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bergson15/03/2008 09:11
Nezumi no yomeiri
(Um noivo para a ratinha)

A Era Heian (794~1192) foi uma época de florescimento cultural do Japão, e muito gloriosa para a aristocracia. Uma era onde o luxo e o refinamento faziam parte do cotidiano. Como havia muitos homens ricos e poderosos senhores de terras e fortunas, também os ratos que viviam nos requintados palácios eram muito sofisticados e exigentes.



Em Heian-kyo, então capital do Japão, existiu um rato milionário que tinha uma única e linda filha. A ratinha era tão bonita e meiga, que seus pais sentiam grande orgulho dela. Quando ela chegou na idade de casar, os pais ficaram muito preocupados, pois achavam que rato nenhum no mundo merecia as mãos de sua linda filha. Ela merecia alguém muito mais importante que um simples rato, alguém mais poderoso do mundo!

Depois de tanto pensar e discutir a respeito, o casal chegou à conclusão de que o sr. Sol era o ser mais importante e poderoso do mundo, pois, sem ele, não existiria luz e calor. E, sem a luz, não existiria vida no mundo. Assim, levando a filha ricamente vestida, foram foi conversar com o sr. Sol, que imperava absoluto no céu.

– Sr. Sol, o senhor é o ser mais poderoso do mundo, por isso, gostaríamos que se casasse com nossa linda filha.
– Fico muito honrado com a proposta, porém, quero preveni-los de que não sou o mais poderoso do mundo. Existe o sr. Nuvem, que muitas vezes aparece no céu e impede minha missão, que é a de iluminar o mundo. Ele é tão poderoso, que me esconde de todos que querem me ver, e eu nada posso fazer.

Diante desse argumento, a família foi procurar o sr. Nuvem.
– Sr. Nuvem, o senhor é o ser mais poderoso do mundo, portanto, ficaríamos muito honrados se se casasse com nossa linda filhinha.
– Realmente, é linda a filha de vocês, porém não sou o mais poderoso do mundo.
– Existe algum ser mais poderoso que o senhor? Quem é?
– É o sr. Vento. Todas as vezes em que tento envolver o mundo inteiro, chega o sr. Vento e com um simples assopro me dissipa. Ele me leva para onde quer, e eu fico sem ação. Por isso, ele é muito mais poderoso que eu.

Assim, como queriam o noivo mais poderoso do mundo para a ratinha, foram falar com o sr. Vento.
– Sr. Vento, o senhor é o ser mais poderoso do mundo. Gostaríamos que ficasse noivo de nossa filha.
– Não sou o ser mais poderoso do mundo, porém a idéia de noivar sua linda filha me agrada muito.
– Nós queremos que ela se case com o ser mais poderoso do mundo!
– Nesse caso, acho que é o sr. Parede. Ele é tão firme, que mesmo eu, soprando com toda força, não consigo derrubá-lo. Ele é mais poderoso que eu.
– É, tem razão, vamos falar com o sr. Parede.
Assim, a família foi falar com uma parede na casa onde moravam.
– Sr. Parede, nós sabemos que o senhor é o ser mais poderoso do mundo. Aceitaria se casar com nossa linda filha?
– Eu ficaria feliz em me casar com sua filha, conheço-a desde que nasceu e ela é lindíssima. Mas devo dizer que existe um ser mais poderoso que eu.
A família ficou espantada. Seria possível existir um ser mais poderoso e resistente que o sr. Parede?
– Por favor, diga quem é este ser tão poderoso!
– Ho, ho, ho! Os seres mais poderosos do mundo são vocês, os ratos. Por mais que eu seja duro e resistente, não posso com os dentinhos afiados de vocês.

Veja quantos buracos já me fizeram.
– O senhor tem razão. Por que não pensamos nisso antes? Foi preciso conversar com os seres mais importantes que existem para descobrir essa verdade. Nós, ratos, somos os seres mais poderosos do mundo!
– Sim, nossa filha precisa se casar com um rato!
Nisso, o casal lembrou que, no buraco vizinho, morava um rato de nome Chusuke, que vivia olhando apaixonadamente para sua linda filha. E a filha ficava corada sempre que Chusuke estava por perto.

Dias depois, foi realizada uma bonita festa de casamento, que durou três dias e três noites. Chusuke foi o noivo felizardo que se casou com a mais bela ratinha do mundo. E os dois foram felizes para sempre e tiveram vários ratinhos.

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Alexandre S. Coelho15/03/2008 10:29
Caro amigo Bergson

Obrigado pela partilha, a leitura nos tras sabedoria e ensinamentos que podemos reverter para o nosso dia-a-dia ❗
bergson16/03/2008 06:39
Caro Alexandre,

É apenas uma boa maneira de fazer uma boa leitura!
bergson16/03/2008 06:42
Namazu


No folclore japonês, existem várias criaturas encantadas com poderes de se transformar em seres humanos, ou capazes das mais diversas peripécias além da imaginação. Entre essas criaturas, as mais conhecidas são o kitsune (raposa), o tanuki (texugo), o hebi (cobra) e o namazu (bagre). Existem várias lendas a respeito de bagres no Japão, e uma das características desse peixe é que ele tem a sensibilidade de prever terremotos. Quando está para acontecer um terremoto, dizem que os bagres se comportam de maneira estranha.

Uma lenda conta que, abaixo das ilhas do arquipélago japonês, mora o Rei dos Bagres, uma criatura gigantesca que, quando se movimenta, provoca calamidade na superfície. Felizmente, sua movimentação está controlada, pois o deus Kashima mantém o bagre gigante sob controle, graças a uma rocha sagrada que ele colocou sobre o animal. Porém, às vezes, Kashima se distrai, e o bagre consegue se movimentar, causando terremotos na superfície e levando sofrimento ao povo.



Takei Watatsu e o bagre

Esta lenda tem origem na pré-história japonesa, na planície perto do Monte Aso, em Kumamoto, na Ilha de Kyushu. Uma história do tempo mitológico em que os deuses habitavam a terra. Naquela distante época, a planície de Aso não passava de um grande lago enlameado. Certa ocasião, o deus Takei Watatsu-no-Mikoto, inspecionando a região, concluiu que o lago transformado em planície seria uma boa área para a plantação de arroz. Decidiu, então, que drenaria o local, cavando um canal para extravasar a água na extremidade ocidental do lago.

Na manhã seguinte ,Takei Watatsu cavou com muito esforço um canal perto da localidade de Teno, a nordeste do lago. A água começou a vazar em profusão, produzindo um belo espetáculo. Satisfeita, a divindade foi descansar depois de um duro dia de trabalho.

No dia seguinte, ele voltou ao lago certo de que toda água já havia escoado pela vazante, porém, para sua surpresa, somente metade da água havia saído. Procurando saber a causa, Takei logo descobriu que um namazu (bagre) gigante, de mil anos de idade, havia obstruído a passagem da água.

O enorme bagre enrolou seus barbilhões em torno de grandes pinheiros ao sul do lago, e sua cauda debulhou um dos picos mais elevados na montanha Aso.

Após algumas ponderações de como se livrar daquele gigante, Takei passou cipós de videira nas narinas do bagre gigante e amarrou-o numa enorme pedra perto da vila de Katsumi. O gigante retorceu-se em dor, e os abanos de sua cauda foram sentidos em Hebi-no-o, a mais de 13 quilômetros de distância. Aos poucos, o bagre gigante foi ficando sem força e parou de se debater. Depois acabou falecendo.

O problema era como removê-lo de lá, já que era grande e pesado demais. Takei, então, cortou o bagre em três pedaços, que foram levados pelas águas. Os pedaços foram rolando, e um deles parou perto da aldeia de Kamimashiki, que, desde então, ficou conhecida como Namazu. As outras partes rolaram mais um tanto e, onde pararam, as partes foram picadas e colocadas em seis rokka (cestas). Nesse local, nasceu uma vila, que foi chamada de Rokka.

Na planície onde existia o lago, foi plantado um grande arrozal. Apesar de verdejantes, quando chegou a época da colheita, Takei Watatsu verificou que quase não havia espigas carregadas. Foi completa frustração. Então, a divindade consultou seu amigo celeste Zenchi-no-Mikoto, o deus da Graça Divina. Ele lhe disse que aquela planície jamais daria bom arroz enquanto o espírito do milenar namazu estivesse inconformado vagando por lá.

Então, Takei mandou erigir um santuário para cultuar o bagre como deus do lago. Depois disso, o espírito do bagre encontrou a paz, e o arroz começou a prosperar na planície de Aso. Ainda hoje, na localidade de Teno, existe um santuário dedicado ao deus Namazu. Em conseqüência disso, até a Restauração Meiji, os fiéis do santuário de Aso não pescavam nem comiam o bagre.

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bergson17/03/2008 05:37
Ikiryô, o fantasma dos vivos

Há muitos anos, um homem deixou a hospedaria no meio da noite para seguir viagem a Nagóia. Quando ainda estava nos subúrbios de Quioto, numa encruzilhada, viu uma mulher sozinha, bonita e muita bem vestida. Era hora do boi, muito tarde para uma mulher sair para a rua sozinha. O homem pensou que provavelmente tivesse acontecido alguma coisa e ela precisasse de ajuda. Porém, continuou andando sem interromper sua viagem. Mas a mulher, dirigindo-se a ele, perguntou.



– Para onde o senhor vai?
– Vou a Nagóia – respondeu.
– O senhor deve estar com pressa, com traje de viagem tão tarde da noite. Mas, por favor, poderia parar um pouco, pois tenho de fazer uma pergunta que é muito importante para mim.
– Tudo bem, em que posso servi-la? – perguntou.
– Sabe onde fica a casa de Minbu-no-Taihu? Quero fazer-lhe uma visita, mas estou completamente perdida.
– A casa dele fica para aquele lado – disse, apontando para a direção – Gostaria de lhe ajudar, mas estou com muita pressa e não posso acompanhá-la.
– É muito importante para mim, por favor, leve-me até lá.

Constrangido, o homem saiu de seu roteiro e acompanhou a mulher. Ao mesmo tempo, sentiu certa satisfação por ajudá-la. Ela o seguiu silenciosamente até a porta de uma casa depois de caminhar cerca de uma hora.

– Aqui é a casa de Minbu-no-Taihu.
Ela agradeceu, disse que morava em Shiga com a filha e deu seu endereço.

– Quando o senhor passar em Shiga, por favor, faço questão que nos visite. Assim, terei a oportunidade de lhe oferecer um chá como agradecimento.

O homem abaixou a cabeça como cumprimento de despedida e saiu andando, porém, ao voltar a cabeça, a mulher havia desaparecido. Achou estranho, pois não a viu bater à porta, nem ninguém a abrindo. Então, voltou uns passos, examinou a porta e viu que ela estava fechada como antes. Olhou ao lado da casa, mas não havia ninguém. Ficou intrigado e pensou em bater à porta da casa, porém não queria incomodar ninguém àquela hora da noite. De repente, ouviu um grito horripilante no interior da casa. Chegou a ter impressão que alguém havia morrido de susto lá dentro. Porém, achou por bem esperar um pouco. Não seria prudente de sua parte entrar e se intrometer em questões alheias. Esperou ansiosamente que alguém abrisse a porta. Enquanto isso, começou a amanhecer.

Quando um criado abriu a porta, o homem perguntou o que aconteceu lá dentro na madrugada.

– Meu mestre tinha uma esposa em Shiga, mas a abandonou porque se juntou com outra mulher e mudou-se para cá – contou o criado. O ikiryô (espírito) da mulher anterior veio atrás do meu patrão, e a nova esposa dele ficou seriamente doente.

Nesta madrugada, a nova esposa deu um grito horrível, tentou correr e caiu morta no fundo da casa. Fico pensando, um ikiryô (espírito ou fantasma de uma pessoa viva) pode matar uma pessoa desse jeito?

Então, o viajante compreendeu. Depois que Minbu-no-Taihu abandonou a esposa, ela deixava seu corpo enquanto dormia para caçar a mulher que havia roubado seu marido. Ao se apresentar diante da mulher, em seu corpo espiritual, teria causado um susto capaz de lhe tirar a vida.

O viajante ficou atemorizado e arrependido de ter ajudado aquele fantasma, mas o que havia acontecido não havia como desfazer. Deu meia volta e seguiu sua viagem para fora de Quioto.

Alguns dias depois, recuperado do susto e descansado da viagem de volta, o assunto voltou à sua cabeça. Então, para satisfazer sua curiosidade, resolveu ir até Shiga e buscou pelo endereço fornecido pela “mulher fantasma”. Quando achou a casa, ele entrou e conversou com ela. A mulher novamente agradeceu a ajuda e disse:

– Jamais esquecerei da sua ajuda, aquela noite me deu uma grande alegria.
Lembrarei disso até a próxima encarnação.

Ato seguinte, a mulher deu ao homem doce finos e ricas peças de seda. O presente era valioso demais para se recusar, e o homem aceitou tudo de bom grado – assim conta o livro Konjaku Monogatari, compilado em 1120 no Japão.


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bergson18/03/2008 05:42
O cachorro de Michinaga



No Japão, existem várias lendas que contam façanhas de cachorros. E todas elas testemunham que ele é o melhor amigo do homem. A julgar pelas descrições das lendas, elas foram acontecendo ao longo do tempo, até chegar a grande quantidade que hoje existem. A lenda que escolhemos para esta edição aconteceu na Era Heian (794~1192), envolvendo o ministro plenipotenciário Fujiwara-no-Michinaga (966~1027). Em 1022, Mizunoe Inudoshi (Ano do Cachorro de Água-Yin), Michinaga mandou construir, em Quioto, o Templo Hojoji, tendo ao redor o “Jardim da Terra Pura”. Contam os historiadores que ele gostou tanto do jardim, que deixava seu palácio para visitar o templo diariamente e sempre levava consigo seu fiel cachorrinho branco.

Certa ocasião, naquele mesmo ano, quando o carro de boi que levava Michinaga aproximou-se do templo, o cachorrinho correu na frente, parou na entrada e latiu tanto, que impediu a carruagem de continuar. Michinaga desceu da carruagem, ficou observando o comportamento do animal e concluiu, pela reação do cachorro, que havia algo de errado. Então, mandou um de seus criados chamar Abe-no-Seimei, o astrólogo e adivinho da Corte.

Não tardou muito, e Seimei chegou ao local. Michinaga queria saber o que o cachorrinho estava querendo dizer com seu estranho comportamento. Seimei andou para frente, mas o cachorro não tentou impedi-lo. Pediu, então, que um dos criados fosse em direção ao templo, mas, igualmente, o cachorro não esboçou reação. Quando Michinaga tentou andar para frente, o cachorro começou a latir e a impedir sua passagem. Então, Seimei concluiu:

– Em algum lugar desta estrada existe um feitiço enterrado. Essa mandinga foi elaborada com o objetivo de prejudicá-lo. Se Vossa Excelência pisar o local em que ela está enterrada poderá ser acometido por uma terrível doença. Ainda bem que seu cachorro farejou esse instrumento do mal.
– Sabe me dizer onde o feitiço está enterrado? – perguntou o regente Michinaga.
– Ali – disse Seimei, fazendo gesto mágico e atirando um guiso no ar.
O local onde o guiso caiu foi cavado pelos criados de Michinaga. Foram encontradas duas tigelas unidas pelas bocas e amarradas em cruz com um fitilho amarelado.
– Conheço esse tipo de magia, acho que é obra do mago Doman Ashiya, meu desafeto.

Abe-no-Seimei pegou um pedaço de papel e fez origami em forma de tsuru (garça grou). Sacudiu o tsuru no ar e disse palavras sagradas. A dobradura de garça transformou-se em garça de verdade e voou na direção sul. Seimei ordenou que dois fortes criados de Michinaga seguissem a garça para ver onde ela pousaria.

Pouco tempo depois, os dois criados voltaram trazendo um velho monge à força. O regente Fujiwara-no-Michinaga fez questão de interrogá-lo pessoalmente. Interrogado por tão ilustre figura, o monge confessou que Akimitsu, o ministro da esquerda, ordenou que ele fizesse um feitiço para impregnar o regente de praga.

Michinaga tirou o cargo de Akimitsu e o exilou na distante Harima. Dizem que Akimitsu maldisse o regente pelo resto de sua vida. E, ao falecer, teria se transformado em um fantasma vingativo que andava assombrando Michinaga.

O cachorrinho que salvou a vida de Michinaga foi tratado como nobre pela criadagem de seu senhor e viveu como um rei para o resto de sua vida.

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bergson19/03/2008 05:53
O cavalo dos sonhos e as sete berinjelas



No Japão, existe um ditado que diz: “Se ama seu filho, deixe que ele viaje”. O imigrante japonês no Brasil conhece bem o sentido dessa frase. Há muitos e muitos anos, numa aldeia rural do Japão, viviam dois inseparáveis amigos. Eisuke era filho do chefe da aldeia, uma família abastada, dona das terras daquela região. Goro era filho de pobres lavradores, que trabalhavam nas terras do pai de Eisuke. Apesar da diferença social e econômica das famílias de ambos, eles viviam sempre juntos, desde quando pequeninos.

Certa ocasião, os dois, cansados de viverem dentro dos limites da aldeia, resolveram conhecer outras paragens e ganharam a estrada.

Caminhavam alegremente, ora cantando, ora tirando músicas assoprando folhas de bambu esticadas nos lábios. Prosseguiam a viagem despreocupados.

Dias depois, na travessia de uma montanha, perderam-se no meio da mata. A noite caiu, e a floresta transformou-se em completa escuridão. Apesar do medo, continuaram caminhando, pois permanecer ali parecia por demais perigoso. De repente, avistaram uma luz no meio da mata. Os dois rumaram apressados em direção à luz, pois devia, com certeza, ser uma casa. Por sorte, era uma hospedaria. Os meninos ficaram aliviados e pediram uma pousada para a velha dona da pensão. Cansados que estavam, Eisuke logo adormeceu. Goro, que nunca tinha dormido numa hospedaria, apesar de exausto, não conseguia pegar no sono.

De repente, percebeu que alguém estava abrindo o shoji (parede móvel de papel), então fechou os olhos e fingiu que estava dormindo. De olhos semi-serrados, viu que a dona da pensão olhou para dentro do quarto e, vendo que os dois estavam dormindo, deu uma risada horripilante e se afastou corredor. Goro ficou arrepiado de medo, aquela não era uma situação normal.

Da porta corrediça que a velha deixou semi-aberta, Goro podia vê-la na sala no fim do corredor. A velha sentou-se perto do irori (fogareiro), mexeu as cinzas com dois palitos de ferro e acendeu o fogo assoprando as brasas no centro do irori. Em seguida, depositou algumas sementes nas cinzas. Goro não estava entendendo nada do que estava acontecendo.

Para a surpresa do menino, as sementes plantadas começaram a brotar e a crescer em segundos. As folhas finas e compridas denunciavam que eram pés de arroz, que incrivelmente começaram a soltar cachos, que ,carregados, fizeram as hastes curvarem. Segundos depois, os cachos pendentes ficaram amarelos e prontos para ser colhidos.

A velha colheu o arroz, tirou a casca esfregando-o em uma peneira de bambu e cozinhou-o no fogareiro. Depois, amassou-o num pequeno pilão e fez quatro motis (bolinhos de arroz glutinoso). Goro, que assistiu a tudo, pensou em contar para o amigo, mas, vendo Eisuke roncando, resolveu deixar para o dia seguinte. Cansado, Goro também acabou pegando no sono.

No dia seguinte, quando Goro despertou, o sol já estava alto. Olhou para o leito ao lado e viu que Eisuke já havia se levantado. Então, levantou-se depressa e correu para a sala. A dona da hospedaria estava oferecendo os bolinhos para Eisuke. Goro gritou para que ele não comesse aquele moti, porém, era tarde. Eisike havia posto o bolinho na boca e degustou-o com satisfação.

– Nossa, que bolinho gostoso. Quero mais.
– Sim, coma! – disse a dona da pensão.
– Não coma! – gritou Goro.


Mas era tarde. Eisuke botou as mãos sobre a barriga, começou a se contorcer e, por mais incrível que possa parecer, transformou-se num cavalo. Um cavalo bonito, mas diferente de todos os cavalos que o menino tinha visto até então. Um cavalo todo colorido, como se fosse um cavalo de sonhos. Goro ficou paralisado de susto. Compreendeu que a velha dona da pensão era, na verdade, uma Yamanbá (bruxa da montanha), que transforma todos os viajantes que ali se hospedam em cavalos de sonhos. Já havia ouvido qualquer coisa a respeito, mas não acreditou que pudesse ser verdade. No entanto, seu amigo Eisuke era agora um cavalo de sonhos, com colorido impressionantemente belo e maluco.

– É sua vez. Coma os motis, garoto – disse a velha, esticando o prato com dois bolinhos ao garoto.

Goro estava paralisado de medo, mas, numa reação desesperada, derrubou o prato dos bolinhos com a mão e saiu correndo da casa. Correu desesperadamente, sem rumo, até que avistou uma casa de lavrador no vale.

Quando Goro abriu os olhos, estava estirado sobre um tatame (esteira de palha) na casa do vale. Um velhinho com barba e cabelos compridos, que aguardava pelo seu despertar, sorriu e disse:

– Vejo que está melhor. Você bateu na minha porta e desmaiou de canseira.
– Estou com sede. Muita sede – disse Goro, percebendo que estava diante de um Sennin (sábio imortal), e que só ele poderia ajudá-lo a salvar seu amigo.

Depois que tomou várias tigelas de água, Goro contou o ocorrido ao bom velhinho e pediu ajuda para salvar seu amigo. O ancião ensinou, então, que o único modo de salvar Eisuke era fazer ele comer sete berinjelas de um mesmo pé.

– Só assim seu amigo voltará a ser humano. Em seguida, o velho fez um mapa ensinando onde o menino poderia encontrar uma grande plantação de berinjelas e como chegar de volta à casa da Yamanbá. Assim, Goro, agradecendo ao velhinho, seguiu o que indicava o mapa.

A plantação de berinjela era enorme. Goro saiu contando pé por pé quantas berinjelas tinha cada um. Depois de várias horas, finalmente achou um pé com as sete berinjelas. Então, arrancou o arbusto e foi em direção à casa da Yamanbá.

O cavalo estava amarrado em uma árvore ao lado da “hospedaria”. Goro aproximou-se sorrateiramente, desamarrou a corda e disse:

– Eisuke, escute, sou eu, Goro.
O cavalo olhou-o como se reconhecesse o amigo e balançou a cabeça no sentido vertical.
– Olha, você tem que comer estas sete berinjelas. Assim que as comer, o encanto se quebrará, e você voltará a ser gente – o cavalo fez movimento horizontal com a cabeça, como quem desaprova a idéia.
– Puxa, agora lembrei que você não gosta de berinjelas. Sua mãe vive dizendo para você comer berinjelas, mas você as detesta. Só que, desta vez, você vai ter de comer as sete, se não quiser continuar cavalo para o resto da vida. Essas berinjelas foram sugeridas por um Sennin, não tem erro.

Assim, fazendo cara de poucos amigos, o cavalo começou a comer as berinjelas. Depois, ao digerir a última, como num passe de mágica, voltou a ser Eisuke. Os dois se abraçaram de alegria e trataram de fugir do local o mais rápido possível. De volta à aldeia, cada um foi para sua casa e, durante bom tempo, tiveram histórias para contar. Anos depois, tornaram-se sócios em plantação de berinjelas e continuaram bons amigos para sempre.

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