Fórum — Atelier do Bonsaiarquivo estático

LENDAS DO JAPÃO!

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bergson20/03/2008 08:57
A lenda do Nobre Cachorro

Há muitos e muitos anos, na Era Mitológica, em Takama no Hara, a Alta Planície Celeste, Amaterasu Oomikami, a Augusta deusa Sol, pediu para o deus guerreiro Ama-no-Wakahiko (Jovem Divindade Celeste) que fosse a Mizuho no Kuni (País das Espigas de Arroz), hoje Japão, para verificar se os habitantes locais eram fiéis a sua soberania, pois havia comentários de que chefes das tribos terrestres eram por demais indisciplinados, arrogantes e não prestariam obediências a nenhum deus celeste.



Nessa época, Zenchi-no-Mikoto (deus da Graça Divina) estava para selecionar alguns animais para comandar simbolicamente o destino da humanidade. Então, pediu que Wakahiko, quando chegasse ao País das Espigas de Arroz, dialogasse e convidasse vários animais interessantes para estarem no Monte Fuji, na manhã do ano-novo. Os primeiros doze que chegassem receberiam o honroso título de Nobres Animais-Signos.

O guerreiro celeste Wakahiko, procedeu conforme o pedido da divindade Zenchi-no-Mikoto e entrevistou muitos animais. Aqueles que ele considerava interessantes convidava para comparecer ao Monte Fuji. Assim, o cachorro e o gato foram convocados para dialogar com ele. Tanto o cachorro como o gato queriam ser um dos escolhidos e travou-se um clima de competição entre eles.

O gato contou para Wakahiko que o cachorro comia demais e tudo que sabia fazer era ficar tomando conta de portas. Por sua vez, o cachorro disse ao Divino Guerreiro que o gato costumava roubar comida e só comia do bom e do melhor. Além disso, a única coisa que sabia fazer era correr atrás de ratos. Assim, os dois começaram a travar uma feroz discussão diante de Wakahiko.

A certa altura da conversa, o Guerreiro Celeste perguntou ao cachorro quanto ele comia por dia. O cachorro respondeu com honestidade que comia uma tigela grande de comida a cada refeição. Então, Wakahiko fez a mesma pergunta ao gato, que, bancando o esperto, respondeu que só lhe davam uma tigela pequena de comida por dia, por isso era menor que o cachorro. Wakahiko ficou com pena do gato e disse que ele tinha bom argumento em querer ser um Nobre Animal-Signo, mas que o cachorro também poderia participar da escalada ao topo do Monte Fuji.

Sabendo que o rato havia sido convidado anteriormente, o gato, como era dorminhoco, pediu insistentemente para ele que o acordasse bem cedo na manhã do ano-novo. Porém, quando o dia chegou, o rato deixou o gato dormindo e foi em direção ao Monte Fuji. Apesar da fama de dorminhoco, havia muita ansiedade, e o gato até que acordou cedo naquele ano-novo. Mas, na hora que ia saindo de casa, viu o cachorro indo à sua frente. Então, deu um tempo, com medo de que o cachorro o atacasse por ele ter mentido ao guerreiro Wakahiko.

Quando os primeiros raios de sol do novo ano iluminaram o Monte Fuji, a divindade Zenchi-no-Mikoto chegou ao topo em seu cavalo alado. Em seguida, foi nomeando os animais por ordem de chegada. O cachorro chegou ao topo do monte quando a lista dos doze já estava quase completa. Restava somente dois lugares a serem preenchidos. O cachorro recebeu da divindade Zenchi-no-Mikoto a outorga de Nobre Cachorro-Signo, por sua sinceridade. Dessa forma, o Nobre Cachorro passou a compor os doze animais do Zenchi Junishi Onmyodo, também conhecido como horóscopo japonês.

Quando o gato chegou ao topo do Monte Fuji, já estava completo o grupo dos 12 animais signos. Assim, o gato ficou fora do panteão dos Nobres Animais-Signos, porque o javali chegou antes dele por acaso. Por isso, o gato ficou com muita raiva do rato, que não o acordou conforme o combinado. Então, até hoje ele persegue o rato para dar lhe uma lição. Por sua vez, o cachorro persegue o gato, que usou de mentiras contra ele diante do Guerreiro Celeste.

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bergson21/03/2008 07:14
Hariko Inu, o cão-guardião



Os cães são protetores naturais dos homens, são fiéis aos seus donos e estão sempre ao seu lado, com a incrível capacidade de detectar situações perigosas às quais estão sujeitos no cotidiano. Antigamente, os japoneses acreditavam que os cães tinham faro para identificar os oni (demônios), que, muitas vezes, se disfarçavam em forma humana para infiltrar-se em povoados e praticar o mal. A crença popular nipônica conta que os cachorros são associados à proteção de crianças, por isso existe um talismã antigo, que até hoje é muito popular, chamado Hariko Inu; trata-se de um cachorrinho feito de papel machê e pintado com cores fortes. Dizem que esse talismã traz sorte, saúde e proteção. Por isso, as mães, quando vão ganhar um filho, ou quando a família tem bebê em casa, deixam o Hariko Inu enfeitando o quarto, para que a criança cresça com saúde e esteja sempre protegida dos demônios.

Existem algumas versões sobre a origem do Hariko Inu, mas esta é particularmente interessante, porque envolve o grande mestre Kukai (nascido no Ano do Tigre de Madeira – 774) que ficou conhecido, após a sua morte, como Kobo Daishi, o fundador da seita budista Shingon.

Durante sua peregrinação na ilha de Shikoku, o monge Kukai passou a noite na cabana de um lavrador. O dono da casa era um senhor muito amável e o hospedou com grande alegria e cordialidade. Kukai, então, disse que gostaria de recompensá-los pela hospedagem e pediu que dissessem como ou quanto deveria pagar.

O lavrador recusou pagamento, mas, devido à insistência do monge, disse que gostaria de receber um amuleto e justificou:

- Nós não tivemos sorte com o tempo nesses últimos anos. Nossa plantação de arroz tem sido devastada por javalis selvagens e, quando os cachos de arroz estão madurando, são devorados pelos pássaros. Sem dizer que, às vezes, existem secas em época de crescimento ou enchentes antes da colheita.

O monge, então, rabiscou alguma coisa em um pedaço de papel, depois dobrou-o cuidadosamente em forma de envelope. Essa dobradura foi pregada na porta do celeiro.

Naquele ano, a colheita foi normal, nenhuma intempérie veio a prejudicar a boa safra. No ano seguinte, a mesma felicidade. Os agricultores festejaram a boa colheita com um festival de tambores e danças. No terceiro ano, a mesma coisa.

O agricultor e a esposa estavam muito felizes com a simpatia que o monge Kukai havia lhes presenteado. Porém, durante os três anos a curiosidade foi crescendo, crescendo e até que, não agüentando mais, abriram o papel para ver o que o monge havia rabiscado ali.

Não deu tempo de o casal ver o que estava escrito no papel. Bastou começar abrir a dobradura e um cachorro pulou para fora do papel. O cachorro sumiu, nunca mais voltou, e ninguém sabe para onde ele foi. O papel estava em branco, mas o lavrador e sua esposa haviam visto Kukai rabiscar alguma coisa nele. Desde então, a colheita não foi mais boa. Como se houvesse perdido a proteção divina, a plantação de arroz passou por toda sorte de dificuldades, até mesmo ataque de insetos.

O pessoal da aldeia raciocinou que o cachorro estava protegendo a casa e a plantação de arroz. E, desde então, passaram a confeccionar pequenos cachorros de papel machê, para ficar de guarda, protegendo a casa e as crianças enquanto os pais trabalhavam na roça.

Restou a curiosidade do povo. Alguns disseram que o monge teria escrito simplesmente a palavra inu (cão); outros disseram que ele fez desenho de um cachorro, pois, além de monge, calígrafo e poeta, era excelente desenhista. Há também estudiosos de seitas que afirmam que Kukai escreveu Inukami, que pode ser traduzido como “deus cão” (inu=cão e kami = deus). Uma vez que papel também é kami em japonês, quando o casal abriu a dobradura, a palavra ganhou vida e materializou-se em animal.

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bergson22/03/2008 08:40
Binbogami



Há muitos e muitos anos, em uma pequena aldeia japonesa, vivia um casal muito pobre. Com idade consideravelmente avançada, marido e mulher trabalhavam bastante, mas continuavam sempre pobres.

– Eu estou cheio de ser pobre. Quero beber e comer do bom e do melhor, comprar roupas bonitas e ir passear em uma grande cidade – disse o marido à sua mulher.
– Isto é um sonho impossível. Para não morrer de desgosto, a melhor coisa a fazer é continuar trabalhando seriamente em nossa lavoura, sem perder as esperanças – respondeu a esposa.
– É...acho que você tem razão.
Assim, o casal continuou trabalhando duramente na lavoura. Labutavam de cedo até a noite. Mas, por mais esforço que fizessem, não sobrava dinheiro nenhum. Quando a época da colheita chegava, as espigas de arroz que pareciam carregadas não apresentavam grandes resultados.

Porém, um certo ano, na véspera do ano-novo, em contraste com os anos anteriores, a mulher estava feliz. Havia um farto banquete sobre a mesa.
– Devemos agradecer a Zenchi-no-Mikoto, o deus da Graça Divina, pois, este ano, depois de fazer um pedido a ele, consegui guardar algumas moedas. Todos os meses, eu guardava algumas moedas na horta, dentro de um pote, e agora temos uma boa quantia. Pude comprar iguarias e arroz glutinoso para fazer moti, o bolinho da sorte.
– Nossa, que bela surpresa! Enquanto eu ficava lamentando todos os dias a nossa pobreza aqui dentro de casa, você conseguiu juntar um bom dinheiro na horta! – disse o marido, olhando para dentro do pote de barro onde a mulher tinha guardado as moedas.
– Agora, temos bolinho da sorte e vamos comer amanhã no primeiro dia do ano. Assim, teremos um ano de fartura! Pois, dizem por aí que quem come moti no primeiro dia do ano pode tornar-se kanemochi (possuidor de dinheiro), zaisanmochi (possuidor de herança), fukumochi (possuidor de sorte), tochimochi (possuidor de terras) e possuidor de muitas coisas mais.
Nisso, eles ouviram um grito que veio do sótão. Era Binbogami, o deus da Pobreza, que havia botado a cara para fora do sótão.
– Ah, então é isso! Temos um Binbogami morando em nossa casa. É por isso que trabalhamos muito, mas de nada valeu! Por sua causa, nunca conseguimos ganhar dinheiro – disse o dono da casa ao deus da Pobreza.
– Vocês me enganaram. Guardaram dinheiro longe da casa, por isso ficou fora do alcance do meu poder empobrecedor. Fizeram um rico banquete para o ano-novo e isso vai atrair o Daikoku, o deus da Fortuna. Aliás, tenho que ir embora, porque ele já deve estar chegando.
– Nossa vida vai melhorar daqui para frente. Ele vai embora – disse a mulher.
– Já vai tarde – disse o marido.
– Isso são modos de tratar quem viveu com vocês por tanto tempo? Saibam que existem valores mais importantes que o dinheiro. A verdadeira riqueza está no coração, e não num cofre cheio de moedas.

Binbogami continuou falando e começou a chorar, porque não queria ir embora. Disse que adorava os dono da casa, por isso sempre se sentiu à vontade e nunca os incomodou; que gostava de cantar a mesma música que os dois sempre cantavam. Aos poucos, o casal foi ficando com pena do deus da Pobreza e passou a consolá-lo.

– Reconsidere sua decisão de partir e continue morando aqui – disse o dono da casa, penalizado.
– Mas o deus da Fortuna vai chegar a qualquer momento, é impossível dois deuses viverem na mesma casa.
– Se chegar, expulse-o. Empurre-o para fora da casa.
– Mas eu não tenho força. Vivo com fome e não tenho energia para lutar com ele.
– Pois, então, coma à vontade. Temos peixe, verduras cozidas e bolinhos de arroz – disse a mulher, oferecendo uma tigela e um par de hashi (pauzinhos para levar comida à boca).
– Nossa! Nunca comi uma refeição tão gostosa! Por favor, mais uma tigela de arroz.
Com a barriga cheia, Binbogami se sentiu em condição de enfrentar o deus da Fortuna. Então, vestiu uma tanga de sumô (luta japonesa) e fez exercícios de alongamento, enquanto esperava a vinda de Daikoku.

De repente, na rua, diante da casa estava o deus da Fortuna.
- Oh! Essa é a casa onde vou morar a partir de hoje! – a divindade abriu a porta e foi entrando.
– Com licença, sou Daikoku, o deus da Fortuna. Vim aqui para morar e vou fazer os donos da casa muito ricos. Binbogami, você já não é hóspede desta casa, portanto, caia fora logo.
– Não, eu nunca vou sair desta casa. Quero ficar aqui para sempre! Meu amo e sua mulher me disseram para empurrá-lo para fora. Vou mostrar do que sou capaz. Desta vez, a pobreza não será derrotada pela fortuna.
Dizendo isso, Binbogami atacou Daikoku com toda a força. Surpreso, o deus da Fortuna, olhando para o casal, disse:
– Não dá para acreditar que vocês preferem viver com o deus da Pobreza. Estão malucos.

Como num golpe de sumô, Binbogami deu um empurrão em Daikoku e o jogou para fora da casa. Daikoku caiu sentado no meio da rua e, ainda atordoado com a queda, saiu resmungando e foi embora.
– Nunca mais volto para esta casa. O Binbogami que mora aqui é metido a lutador de sumô, e os donos da casa, excêntricos demais, preferem a pobreza à riqueza.
Assim, Daikoku foi embora sem perceber que tinha derrubado seu Uchide no kozuchi, o malho mágico da fortuna. Vendo aquele objeto caído perto da porta, Binbogani pegou-o e disse:
– Nossa, é o martelo mágico da fortuna! Basta malhar com este martelo que moedas de ouro vão surgindo a granel. Se Daikoku perdeu seu martelo mágico, ele não é mais o deus da Fortuna. Eu, sim, que tenho o martelo, agora sou o deus da Fortuna.

Olhando para os donos da casa, o ex-Binbogami disse, enquanto se dirigia ao sótão:
– Peçam o que quiserem, que agora posso lhes dar. Nunca mais serei o deus da Pobreza.
O casal continuou trabalhando, levou uma vida feliz e nunca mais faltou dinheiro.

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bergson23/03/2008 08:47
Binbogami e o preguiçoso



Há muitos e muitos anos, viveu numa aldeia japonesa um homem muito preguiçoso e pobre. Ele vivia se queixando de sua condição de pobreza, sem raciocinar que, se trabalhasse, poderia amenizar pelo menos um pouco a sua situação financeira.

Inconformado com a situação em que vivia, foi para a casa do homem mais rico da aldeia e perguntou:

- Não entendo por que sou tão pobre e não estou conformado com isso. Por favor, diga-me como devo agir para resolver minha situação.
- Quando a pessoa é pobre por muito tempo, é sinal de que em sua casa mora um Binbogami, o deus da Pobreza. O único modo de melhorar a situação é expulsando essa criatura de sua casa.- Mas, senhor, eu nunca vi nenhuma criatura estranha morando em minha casa.
- Ele nem sempre é visível, principalmente quando a casa está suja demais. Dizem que, quanto mais suja a casa, mais ele gosta, e mais invisível se torna, porque seu espírito “encosta” em algum objeto, animal preguiçoso ou pessoa pessimista e fica o tempo todo morando na casa sem que ninguém desconfie.
- E como devo agir para expulsar essa criatura de casa?
- Primeiro, você tem que fazer uma limpeza na casa, já que ele gosta da sujeira. Depois, você continua limpando diariamente, para manter a casa sempre limpa. Binbogami vai sentir-se pouco à vontade com tanta limpeza.
- Não existe um jeito mais fácil?
- Se você quer vencer na vida, terá que trabalhar bastante e sem reclamar. Quando chegar o dia 15 de novembro, cerque sua casa com um shimanawa (corda sagrada da religião xintô que separa o terreno sagrado do profano). Quando a noite chegar, dance cantando: “Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza!” Vá dançando e cantando por todos os cômodos da casa, sem parar. O deus da Pobreza não vai suportar ouvir essa música repetidamente e sairá de seu esconderijo. Assim, assustado com a limpeza que encontrará em sua casa, certamente irá embora. Depois, sua situação financeira irá de ruim para boa, e de boa para melhor.

Entusiasmado, o homem voltou para casa certo de que, a partir daquele conselho, sua vida se transformaria de água para saquê (vinho de arroz). Porém, como era muito preguiçoso, deixou a limpeza para o dia seguinte.

No dia seguinte, e nos outros que se seguiram, estava com muita preguiça e foi adiando a limpeza da casa. Na verdade, ele, em vez de começar a limpeza, ficou apenas preocupado em contar os dias que faltavam para 15 de novembro. Quando a data esperada chegou, o preguiçoso estendeu um shimenawa em volta da casa e começou a cantar dançando, como o ricaço havia lhe ensinado.

– Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza! – Apesar do jeito desajeitado de dançar e da voz pouco agradável de ouvir, sua performance era até interessante e, principalmente, muito engraçada. Enquanto dançava por toda a casa, tropeçou no cachorro preguiçoso que ele tinha.
O cachorro, que vivia o dia inteiro dormindo e tinha preguiça até de latir, esticou o pescoço lentamente e ficou assistindo a seu dono dançar. De repente, ficou de pé e começou a dançar, contracenando com seu dono. O homem ficou assustado vendo o cachorro dançando de pé. Porém, a surpresa maior veio quando o cachorro foi transformando, diante de seus olhos, num ser estranho com um chifre na cabeça e que lembrava o oni (demônio). Na verdade, o cachorro voltou a andar de quatro patas e o ser demoníaco desprendeu-se dele e foi em direção à porta.
– Nossa! Você deve ser o Binbogami, deus da Pobreza, e estava encostado no meu cachorro. Agora que deixou o cachorro, vai embora da minha casa, não é mesmo?
– Eu vou dar uma saída e volto logo. Assistindo e participando de sua dança, gostei demais. Aliás, bom demais para guardar só para mim. Por isso, vou chamar outros Binbogami para participarem também. Continue cantando e dançando. Meus amigos vão adorar essa casa suja e pobre.

Conta a lenda que, depois desse dia, a casa ficou tão cheia de Binbogamis, que nenhuma reza brava conseguiu exorcizar essas entidades malevolentes.

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bergson24/03/2008 09:32
De como o demônio vermelho chorou
(Texto e Ilustração: Cláudio Seto)



Era uma vez, uma única vez no mukashi banashi (antigas histórias do Japão), que havia um jovem Akaoni (demônio vermelho) bonzinho, simpático e muito amável. Ele morava sozinho, isolado, numa caverna da montanha, próximo de uma aldeia. Na verdade, ele havia sido expulso dos fundões da serra, por causa de seu jeitinho dócil de ser. Os outros demônios, que tinham a fama de cruéis, violentos e maldosos, discriminavam-no e tocaram para perto da civilização. Afinal, um demônio meio maricas era algo inconcebível para os temidos onis do velho Japão. Então, só lhe restou um amigo, Aooni, mas este demônio, por ser azul, morava em outra montanha, onde residiam os demônios da cor dele.

Akaoni, uma vez que não era aceito entre seus semelhantes, alimentou o sonho de viver amigavelmente entre os seres humanos. Queria travar amizade com o povo da aldeia que existia próximo de sua caverna. Porém, embora bonzinho, ele tinha chifres na cabeça, a pele vermelha e a cara feia demais para o gosto das pessoas. Por isso, o povo da aldeia temia sua presença nas proximidades e evitavam passar perto de sua caverna.

Uma bela manhã de primavera, quando a montanha estava coberta de flores de cerejeiras, Akaoni acordou inspirado, escreveu uma placa e pendurou-a numa árvore na beira de uma picada, próximo de sua caverna: “Na caverna, mora um oni bondoso, cujo sonho é fazer amizade e viver em harmonia com o povo da aldeia. Vá visitá-lo, há bolinhos de arroz e chá para recebê-lo”.

Assim, Akaoni limpou a caverna e ficou ansiosamente esperando que alguém lesse a placa e aceitasse seu convite. Antes mesmo do meio-dia, dois agricultores curiosos apareceram na entrada da caverna. Akaoni recebeu-os com toda a cortesia e ofereceu-lhes chá com bolinhos sem esconder sua alegria em ter pessoas da aldeia em seu lar.

Porém, os agricultores que nunca tinham visto um demônio de perto, estavam desconfiados, achando que poderiam ser devorados a qualquer momento e saíram correndo antes mesmo de terminar o chá.

Akaoni ficou arrasado. Muito nervoso, foi retirar a placa e jogou-a precipício abaixo. Naquele momento, passava por lá o Aooni (Demônio Azul), o único amigo que Akaoni tinha. Ele procurou saber o que tinha acontecido e o Demônio Vermelho contou toda a história.

– Meu amigo Akaoni, os seres humanos não confiam em nós, onis. Por isso, não adianta tentar conquistar a amizade deles com gesto amável ou boa conversa. É necessária uma boa estratégia que os levem a confiar em você.

– Mas como seria isso?

– Tenho um plano. Vou até a aldeia, faço uma adorável bagunça, arrebento os móveis da casas e dou um tremendo susto neles. Aí, você aparece e me expulsa a socos e pontapés. O pessoal da vila vai achar que você é um herói salvador e será tratado com muito respeito e amizade.

Akaoni ficou meio receoso, pois aquela farsa era violenta demais para sua maneira de ser. Porém, arrastado pelo amigo, foi até a aldeia e ficou escondido.

Aooni entrou gritando na aldeia e revirando tudo que via pela frente. Diante da súbita invasão, o pessoal ficou apavorado e tremendo de medo. Aooni berrava, ameaçando devorar todos da aldeia, derrubando caixas e móveis ao chão, numa tremenda algazarra que deixava todos em pânico.

Vendo o povo apavorado, Akaoni saiu de seu esconderijo e agarrou seu amigo para que ele parasse de atormentar o povo.

– Dê um soco na minha cara! –disse baixinho o Demônio Azul.

– Eu não consigo fazer uma coisa dessas – respondeu o Demônio Vermelho.

– Se você não me der socos até me botar fora da aldeia, pensarão que é meu comparsa e lhe odiarão ainda mais.

Embora muito a contragosto, Akaoni saiu socando seu amigo até botá-lo fora da aldeia.

O povo, agradecido, baixou a cabeça para Akaoni e fez dele um herói protetor. Assim, as pessoas passaram a visitar sua caverna e tornaram-se suas amigas. Akaoni estava feliz da vida, pois finalmente havia realizado seu sonho de ser amigo dos humanos.

Porém, meses depois, começou a sentir falta do seu amigo Aooni. Os humanos eram boas pessoas, mas a maioria deles só pensava em como ganhar dinheiro. Descobriu que a amizade que as pessoas tinham por ele era apenas por interesse. Na verdade, o povo queria proteção, e não amizade.

Desde o acontecimento da aldeia, nunca mais havia visto o Demônio Azul. Então, movido pela saudade, resolveu visitar o amigo, que morava numa caverna na montanha vizinha.

Chegando na entrada da caverna, chamou Aooni, mas não obteve resposta. Entrou para verificar, mas não encontrou ninguém dentro da caverna. De repente, percebeu que havia uma carta fixada na parede. Então, apanhou-a e leu:

“Amigo Akaoni:

Sei que agora você vive feliz, contando com a amizade dos humanos da aldeia. Por isso, acho que nunca mais nos veremos. Pois, se o virem conversando comigo, vão desconfiar de você, o que não será bom. Por isso, eu resolvi ir embora. Jamais lhe esquecerei. Grande abraço de seu amigo Aooni”.

Akaoni leu a carta várias vezes, até seus olhos encherem de lágrimas. Akaoni chorou, pois havia perdido o único amigo sincero que tivera.

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Claudio Seto, 60 anos, foi ao Japão quando tinha nove anos para estudar no Templo Myoshinji, da seita Zen, em Quioto. Após três anos, prosseguiu seus estudos religiosos e de cultura japonesa em Kyushu, no monte Ehiko-san, no templo de mesmo nome, pertencente à seita Shugêndô. No período em que ficou no Japão, Seto mergulhou na história do Japão e aprendeu muitas artes como: haiku, tanka, shodô, kadô, kendô, ninjutsu, mangá, kyudô e bonsai. Ao voltar ao Brasil, com 17 anos, Seto trabalhou como argumentista e desenhista de história em quadrinhos em São Paulo, editor de revistas em Curitiba, chargista, ilustrador e editor. Atualmente trabalha também nos jornais Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná. É editor do Jornal Garça da Sorte e da revista Planeta Zen.
bergson25/03/2008 05:49
O deus da Pobreza
Texto e desenhos: Claudio Seto



Há muitos e muitos anos, em algum lugar do Japão, vivia um casal que tinha muitos filhos. Apesar de a família trabalhar bastante, vivia na miséria. Um dia, desgostosos da situação, que nunca melhorava, decidiram deixar de trabalhar.

Quando o inverno chegou, já não havia nem arroz nem verduras para comer. Todos estavam sentindo muita fome, e os filhos disseram:

– Papai, nós temos muita fome, queremos comer alguma coisa.
– Perdão, eu e a mamãe trabalhamos muito, sempre demos duro, mas não sei por que sempre fomos pobres. Falei com a mamãe e decidimos deixar tudo por conta do “seja o que deus quiser”. Se vocês concordarem, saímos desta cidade e vamos tentar a sorte em outro lugar.
– Sim, nós vamos embora. Se continuarmos aqui, vamos morrer de fome – disse o filho mais velho.
Assim, resolveram que se mudariam dentro de três dias e começaram a arrumar as bagagens que levariam. Nessa noite, o pai viu uma criatura estranha em sua casa e levou um tremendo susto.
– Quem é você? O que faz aqui?
– Ora, sou o Binbogami, o deus da Pobreza, e moro aqui – respondeu o ser, que era meio homem e meio oni (demônio).
– Deus da Pobreza?
– Sim. Vivo há muito tempo nesta casa, mas nem sempre sou visível para vocês.
– E o que está fazendo agora?
– Eu vou embora com vocês, por isso estou confeccionando tabizori (calçado para viagem) de palha de arroz para mim. A viagem pode ser longa.
– Você também vai embora?
– Sim, vamos continuar vivendo em harmonia numa nova casa.
Surpreendido com tudo aquilo, à noite, o homem confidenciou tudo para a esposa, contando detalhadamente o ocorrido.
– Então é por isso que sempre fomos pobres! O deus da Pobreza mora em nossa casa.
– O pior – disse o marido – é que ele quer ir com a gente.
– Se ele for conosco, de nada vai adiantar, vamos continuar na miséria. Nesse caso, é melhor ficarmos aqui.
Ao amanhecer, o deus da Pobreza já estava esperando a família na varanda, pronto para partir com o pessoal.
– Puxa, estão demorando demais. Vou fazer mais calçados de palha, para matar o tempo enquanto espero.

O deus da Pobreza esperou o dia inteiro e nada de a família sair com as malas. No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, e ele continuou fazendo calçados para passar o tempo. Assim, esperou durante alguns dias e acabou fazendo muitos calçados. Ele até gostou de fazer sandálias e fazia-as com prazer.
Ao ver os calçados prontos, alguns vizinhos elogiaram, porque eram bem-feitos e pareciam ótimos para andar na neve. Ao ouvir os elogios, o deus da Pobreza ficou entusiasmado e passou a produzir mais ainda.

O dono da casa, vendo que todos os achavam bem-feitos, resolveu vender os calçados. Assim, levou-os até o centro do povoado, trocou-os alguns por alimentos e vendeu outros por bom preço. Porém, lembrou-se que, se o deus da Pobreza continuasse morando com eles, de nada ia adiantar ganhar algum dinheiro, que logo ficaria pobre de novo. Então, resolveu se livrar de vez de Binbogami.
– Com a venda das sandálias, recebi muito dinheiro. Por isso, vamos fazer bastante comida – disse o homem ao deus da Pobreza.
O jantar dessa noite foi regado a saquê (vinho de arroz) e muitas iguarias. O homem convidou Binbogami para jantar com a família. O deus da Pobreza, vendo toda aquela fartura, disse:
– Agora que vocês têm muito dinheiro, eu não posso continuar vivendo nesta casa. Só vou aceitar um pouco de saquê e esta noite mesmo vou embora.
Assim, pouco depois, ele calçou uma bota de palha e foi embora. O casal ficou muito feliz em se livrar do deus da Pobreza.
Antes de dormir, o pai resolveu tomar um banho de ofurô (banho quente de imersão) para amenizar o efeito do saquê. Porém, no corredor, deu de cara com Binbogami.
– Você ainda está aqui?
– Eu fui para outra casa, mas não me senti muito bem, por isso resolvi voltar.

O casal se entreolhou e pensou: “O que vamos fazer? Será que nossa sina é morar sempre com o deus da Pobreza? Pensando bem, já estamos acostumados com a presença dele aqui”.
Assim, Binbogami passava o dia inteiro fazendo sandálias e tomando goles de saquê. Como a produção era grande, concluíram que logo ia faltar palha de arroz para fazer sandálias e dar continuidade ao trabalho. Então, o casal resolveu semear arroz, para poder aproveitar a palha.
Passados alguns meses, não só o arrozal produziu belas palhas, como enormes cachos de arroz.
– Pelo menos sabemos que, agora, não vai mais faltar arroz para comer – disse o dono da casa para a esposa.
– Acho que, sobre o efeito alcoólico do saquê, o poder empobrecedor de Binbogami foi amenizado.
Contam que eles nunca chegaram a se tornar ricos com a venda das sandálias ou do arroz, mas pelo menos não faltou mais dinheiro e viveram felizes para sempre.

Comentário:
Antigamente, no Japão, quando uma família era muito pobre, as pessoas acreditavam que o motivo era que Binbogami (deus da Pobreza) habitava na casa dessa família. Então, realizavam rituais de purificação (orahai) ou exorcismos para expulsar o deus da Pobreza. Existem várias lendas que falam de Binbogami, mas ele não tem o biótipo definido como outros personagens lendários do Japão. Binbogami é retratado muitas vezes como um oni (demônio) de um só chifre, que vive no sótão da casa, ou como um velhinho anão que vive em armários de pobres. Diferente do deus da Fortuna, do deus da Sabedoria e do deus da Longevidade, que são representados com orelhas grandes, Binbogami geralmente tem as orelhas pequenas.

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bergson26/03/2008 05:48
Uri sennin
Texto e desenhos: Claudio Seto



No folclore japonês, existem seres imortais chamados sennin. São eremitas que vivem nas montanhas, dotados de poderes mágicos. A eles são atribuídos vários truques ilusionistas ou feitos milagrosos, como voar montados em animais e nuvens. Nos antigos casos que o povo conta, os sennin são citados em várias regiões do Japão, sendo conhecidos mais de 500 deles. Eles aparecem aos humanos em estradas montanhosas ou em sonhos caracterizados como um velhinho de barba branca que porta um cajado. Existem também muitos personagens reais, que, após acumular sabedoria durante toda a vida, se tornaram sennin em idade avançada.

Certa ocasião, há muitos e muitos anos, um carregamento de melões (uri) saiu de Yamato (antiga capital do Japão) rumo a Heian-kyo (nova capital) em uma carroça coberta por um pano grosso e puxado por três homens. No meio do caminho, a norte de Uji, os transportadores resolveram parar para um bom descanso, sob a sombra de um pé de caqui. Devido ao forte calor de verão, resolveram comer um melão cada um e deliciaram-se com a doce e cheirosa fruta.

Nesse momento, apareceu por lá um velhinho portando bastão que parou, de olho nos melões que os homem saboreavam.
– Estou com muita sede, será que não podem me presentear com um pedaço de melão?
– Gostaríamos de lhe oferecer um melão inteiro, mas a carga desta carroça é uma encomenda do palácio imperial, portanto, não podemos desfalcá-la – respondeu um dos homens, em tom de deboche.
– Vocês deviam ser mais educados com as pessoas de idade. Mas tudo bem, vou cultivar meus próprios melões para matar minha sede.
– O senhor vai morrer de sede antes de os melões madurarem – disse um dos rapazes, rindo do velhinho.
O ancião, sem se importar com a risada dos homens, fez o desenho de um canteiro com o bastão, juntou as sementes de melão que os homens haviam espalhado pelo chão e plantou no canteiro improvisado.

Os homens pararam de rir quando perceberam que as sementes recém-plantadas começaram a brotar, e as folhas foram se abrindo diante dos olhares de espanto. Os cipós cresciam sem parar e, em seguida, as flores se abriram e os frutos foram nascendo por toda parte. Em questão de minutos, o velhinho estava colhendo grandes melões maduros e de agradável aroma.

Os homens ficaram boquiabertos com o milagre que acabaram de assistir. Nem tiveram tempo para raciocinar sobre o que estava acontecendo, pois o velhinho disse:
– Vamos comer o melão que plantei e distribuí-lo para todas as pessoas sedentas que por aqui passarem.
Os homens pediram desculpas por terem sido egoístas e aceitaram de bom grado os melões que o bom velhinho estava oferecendo. Fartaram-se de comer e distribuíram a todos os transeuntes. Em dado momento, o velhinho disse:
– Vou continuar minha caminhada, porque já matei minha sede – assim, continuou em frente, até desaparecer nas curvas da estrada.
Quando os três homens voltaram também a seguir para a capital, perceberam que a carroça estava mais leve. Tiraram a lona que cobria os melões e perceberam que eles haviam desaparecido. Concluíram, então, que haviam cruzado com um sennin. E o truque ilusionista do sennin fez com eles comecem e distribuíssem os próprios melões.

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bergson27/03/2008 08:22
A moça e o pinheiro
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muitos e muitos anos, vivia numa cidade litorânea do Japão uma jovem e sua velha avó. A garota perdeu os pais na infância e foi criada pela avó. Os anos foram passando e sua avó estava com a idade bastante avançada. Assim, não podendo mais trabalhar, a moça sustentava a casa trabalhando de manhã até de noite na mansão de um milionário.

Certa noite, quando a moça voltava para casa e estava no meio do caminho, começou a chover, e ela teve que se proteger em baixo de um enorme pinheiro. O vento era tão forte, que fez os galhos da árvore uivarem como voz humana em forte sussurro. Primeiro, ela levou um susto, mas depois apurou os ouvidos e pôde escutar perfeitamente o que a árvore dizia através do vento:

– Moça, sei que você trabalha muito e leva uma vida difícil, por isso quero ajudá-la. Minha vida também está muito difícil: daqui três dias vou ser cortado por lenhadores e transformado em madeira por ordem do governador desta província. Depois, serei transformado em enorme navio e levado para o mar dentro de três meses.
– Oh! Sinto muito – disse a moça, abraçando a árvore penalizada.
– Quando forem me lançar no mar, eles terão uma surpresa. Eu simplesmente não vou me mover na rampa de lançamento. Então, certamente o governador dirá “já tentamos de todas as maneiras mover esse navio, mas não estamos conseguindo. Aquele que conseguir fazer o navio mover vai ganhar uma grande recompensa. Então, você deve dizer bem alto “navio entre em movimento: um, dois, três!” Daí eu vou me mover lentamente ao mar, e você será feliz pela recompensa que receberá do governador e poderá tratar bem de sua avó, sem ter que trabalhar fora até altas horas da noite.

Na manhã seguinte, ao acordar, a moça pensou que na noite anterior estava muito cansada e andou imaginando coisas, devido ao clima de ventos e trovoadas. Porém, três dias depois, a árvore foi cortada e transformada em madeira. E, três meses mais tarde, um grande navio ficou pronto no estaleiro.

Então, chegou o dia do lançamento do navio ao mar. Todos da cidade foram ao estaleiro para ver o grande acontecimento. Na rampa de lançamento, as travas foram tiradas e muitos homens tentaram empurrar o navio ao mar. Porém, para a surpresa de todos, o navio não se movia. Fizeram de tudo, tentaram alavanca com toras, puxaram com bois, mas de nada adiantou.

Por fim, o governador ofereceu uma gorda recompensa para quem fizesse o navio se mover.

Muitas pessoas se prontificaram, porém, sem sucesso. Então, a moça candidatou-se. O homem que estava recebendo as inscrições disse:
– Muitos homens fortes tentaram e não conseguiram. Como uma moça frágil como você vai conseguir?
E todos riram dela.
– Qualquer pessoa que quiser tentar é bem-vinda – disse o governador.
A moça foi para perto do navio e disse em voz alta:
– Mova-se navio. Um, dois, três!
Para a surpresa de todos, o navio começou a deslizar rampa abaixo em direção da água e, em poucos minutos, estava flutuando glorioso no mar.
O governador e todos os presentes exclamaram:
– Que moça misteriosa! Que estranho poder!
– Não tenho poder nenhum. Eu só repeti o que a árvore me disse. E contou o ocorrido para todos os presentes.
– Vou lhe dar a recompensa prometida – disse o governador – Peça o que quiser, qualquer coisa, sem limites.
– Eu tenho uma avó de idade bastante avançada e doente. Somos pobres e não temos dinheiro para comprar arroz e roupas.
– Você é uma neta dedicada, por isso a árvore resolveu lhe ajudar.
No dia seguinte, os homens do governador chegaram carregando muitas sacas de arroz e vários baús de roupas.

Assim, a garota pôde oferecer a sua avó uma vida confortável e cheia de carinho.

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bergson28/03/2008 08:50
Takarabashi, a ponte do tesouro
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Esta é uma história muito antiga. Do tempo em que os fogões eram à base de carvão. Havia então um jovem carvoeiro chamado Choji, que vivia numa casinha no meio da montanha. Muito trabalhador, ele catava lenha diariamente e preparava carvão para vender na cidade.

Certa noite, o carvoeiro teve um sonho bem diferente e muito bonito. Em seu sonho, ele andava por um caminho cheio de névoa, dentro de uma paisagem onírica, quando um homem de barba branca e cabelos compridos surgiu montado em um belo cavalo branco de asas enormes em sua frente e disse categoricamente:

– Choji, vá à cidade, e procure Takarabashi, a ponte do tesouro, e você se tornará uma pessoa afortunada.

Na manhã seguinte, lembrando do sonho que lhe pareceu tão real ao mesmo tempo fantasioso, Choji ficou pensando que aquele senhor que falou com ele em sonho só podia ser Zenchi-no-Mikoto, o “Deus das Graças Divinas”, e resolveu ir até o referido local.

Como tinha algumas entregas para fazer, colocou dois sacos de carvão nas costas e desceu a montanha em direção à cidade.
Depois de entregar os sacos de carvão para o comerciante que lhe havia encomendado, Choji foi até a ponte do tesouro e ficou ali parado, esperando, mesmo sem saber o que ia acontecer.

– Que tipo de fortuna virá ao meu encontro neste local? – pensou com seus botões.
Assim, o jovem carvoeiro ficou de plantão no meio da ponte, durante horas e horas, mas nada aconteceu. Exausto de tanto esperar, acabou sentando no assoalho da ponte e, ao anoitecer, pegou no sono ali mesmo.
No segundo dia, o sol estava muito forte, mas ele agüentou firme, com medo de não estar ali caso algo de bom viesse acontecer. Porém, o dia passou, a noite chegou e nada aconteceu.

No terceiro e no quarto dias, igualmente esperou dia e noite, mas nada aconteceu.
Na noite do quinto dia, o dono da loja de tofu (queijo de soja) que ficava quase em frente à ponte, despertado pela curiosidade, veio até perto de onde estava Choji e perguntou:

– Tenho observado você e já faz cinco dias que está aqui no meio da ponte. O que está esperando afinal?
– Eu tive um sonho em que Zenchi-no-Mikoto, o “Deus da Graça Divina”, me disse para vir a essa ponte – respondeu Choji.

O tofuyá (fabricante de tofu), ouvindo o rapaz , deu uma gostosa gargalhada e disse:
– Isso é uma coisa absurda! Eu não acredito em sonho. Sonho não tem nexo. Eu também sonhei que o deus Zenchi-no-Mikoto, com sua enorme barba branca, cavalgando um belo cavalo branco, aparecia de repente e dizia: “Na montanha, vive um homem chamado Choji. Vá até lá e cave a terra ao pé do pinheiro que fica ao lado da casa dele. Você ficará muito feliz com o que vai encontrar”. Por isso que não acredito em sonho, eu não conheço ninguém chamado Choji, muito menos alguém que mora na montanha.

Ao ouvir o seu nome, o carvoeiro ficou muito surpreso. Porém, como estava muito cansado, não deixou transparecer o susto. Em seguida, voltou para casa, cavou perto do pinheiro ao lado da casa e encontrou uma arca cheia de tesouros.
A partir dessa data, passou a ser chamado de Choja (milionário) e não mais de Choji, como de costume.

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bergson29/03/2008 21:15
O guardião do tesouro (Conto Zenchi)
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



No templo Byodo-in, onde havia famosos monges guerreiros, o “guardião do tesouro budista” morreu numa luta com o famoso espadachim Miyamoto Musashi. O mestre superior convocou, então, todos os monges lanceiros para escolher quem ocuparia o honroso cargo.

– Será o guardião do tesouro budista aquele, dentre vós, que conseguir solucionar o problema que eu vou apresentar – disse o mestre aos discípulos que estavam concentrados no grande salão.

Ato seguinte, o mestre colocou uma mesinha e, sobre ela, fez um lindo arranjo floral.

– Eis o problema! Resolvam!

Todos ficaram olhando a bela ikebana sem entender o que o mestre quis expressar com aquele arranjo, simples, porém de extrema beleza. Então, começou um zunzum de pessoas pensando alto:

– O que significa?

– Qual é o mistério?

– Por que um vaso achatado e uma flor esguia? Seria in (yin) e yô (yang)?

– O que a ikebana está representando?

De repente, um dos discípulos levantou-se empunhando uma lança, foi até o centro do salão e, num gesto rápido, decepou a flor e destruiu o vaso. Depois, voltou ao seu lugar e sentou-se.

– Você é o novo guardião do tesouro budista – disse o mestre. Não importa que o problema seja algo de extrema beleza. Se for um problema, precisa ser eliminado.

Nunca é demais lembrar um pensamento japonês que diz: “Não é possível beber saquê numa xícara cheia de chá; é necessário esvaziar primeiro a xícara, para então enchê-la de saquê”.

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bergson30/03/2008 11:51
O Buda de madeira
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muitos e muitos anos, existiu um homem muito rico, que vivia lustrando uma estatueta de Buda fundida em ouro. Sentia-se orgulhoso mostrando a todo mundo aquela preciosidade que lhe pertencia.

Num quartinho no fundo do quintal de sua mansão, vivia um jovem empregado, cujo trabalho diário consistia em preparar banho quente de imersão (ofurô) para todos que lá viviam.

Um dia, quando o jovem foi à montanha cortar lenha, encontrou um toco de árvore retorcido, cuja forma lembrava uma estatueta de Buda. O rapaz levou-o para seu quarto e, com uma faca conseguiu um belo trabalho, fazendo acabamento na madeira. Então, colocou-o sobre um móvel e, diariamente, rezava para o Buda de madeira. Uma oração simples, mas com toda a dedicação, pois assim ele se sentia protegido.

Certo dia, um dos criados que queria agradar ao patrão sugeriu que fosse realizada uma luta de sumô entre o Buda de ouro e o Buda de madeira.

– Patrão, seu Buda de ouro é magnífico. Com certeza vai vencer a luta de sumô.
– Sem dúvida nenhuma.
Assim, mandou chamar o jovem e fez a seguinte proposta: Se o seu Buda de madeira vencer a luta, dou toda a minha fortuna a você. E todos os dias vou preparar o ofurô para todos da mansão. Esta é uma proposta irrecusável.
O jovem voltou ao seu quartinho e contou ao Buda de madeira a proposta que havia recebido. Mas se sentia desconfortável ao tratar seu Buda como se fosse um objeto de apostas.

Porém, o Buda de madeira disse:
– Por mim está bem assim, não se preocupe. Vamos nessa.
O jovem levou um susto, pois era a primeira vez que ouvia seu Buda falar. Depois, recuperado do susto, levou seu Buda para a disputa. Todos, exceto o jovem, achavam que o Buda de ouro ganharia a luta.

A luta consistia em colocar os dois Buda sobre um tablado redondo, imitando a arena de sumô. Os dois jogadores batiam com os punhos de leve, porém repetidamente no suporte, fazendo vibrar a arena. Um Buda empurraria o outro movido pela vibração. Aquele que caísse ou saísse da arena perdia a luta. Teoricamente, o Buda de ouro venceria a partida, pois ouro é muito mais pesado que madeira, portanto, mais difícil de ser derrubado, ou de ser empurrado para fora por causa da vibração.

Todos queriam apostar na vitória do Buda de ouro. Entretanto, quando começou o embate, o Buda de madeira foi empurrando o Buda de ouro até a borda da arena. Para surpresa de todos, o Buda de ouro foi posto para fora da arena.
Desesperado, o homem rico perguntou ao seu Buda:

– Por sua causa tornei-me um homem pobre. Por que foste cair?
– Não queira me culpar, porque o culpado é você. Faltou devoção de sua parte, por isso eu não tenho força. Como você queria apenas me exibir para todo o mundo por eu ser de ouro, você vivia me lustrando ao invés de rezar. Eu estava tão liso de lustro, que o Buda de madeira me deu apenas um empurrão e eu escorreguei para fora da arena.

Nesse momento, o homem reconheceu seu erro e prometeu que mudaria seu modo de ser.

O jovem ficou muito feliz com a vitória. Recebeu a fortuna prometida e viveu feliz para sempre, pois era muito generoso e distribuía comida diariamente para os pobres da região.

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bergson31/03/2008 17:35
O Tengu Azul e o Tengu Vermelho
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Antigamente as florestas japonesas eram habitadas por criaturas chamadas tengu. Eram gênios da montanha com aparência humana. Uma de suas características era que tinham um leque mágico e à medida que abanava, seu nariz ia crescendo.

Nessa época, morava no alto da montanha um tengu vermelho chamado Vermelhão e um tengu azul chamado Azulão.

Certa ocasião, os dois sentados em cima de um enorme pinheiro, no pico da montanha, conversavam na maior descontração.

- Sabe amigo Vermelhão, estive pensando... Nós ficamos todos os dias daqui de cima, observando os seres humanos lá embaixo.

- É verdade amigo Azulão.
- Será que nós tengu gostamos de observar os seres humanos, amigo Vermelhão?
- Sei lá amigo Azulão, nunca pensei nisso. Observamos os humanos porque todos os tengu fazem isso.
- É verdade amigo Vermelhão.
- Amigo Azulão, quanto tempo faz que observamos eles daqui de cima?
- Acho que uns quinhentos anos, amigo Vermelhão.
- Os homens mudaram muito durante esse tempo, mas nós não mudamos nada - observou o tengu vermelho.
- Vira e mexe, eles constróem cidades, depois brigam e destróem. Depois constróem de novo, um pouco diferente, depois brigam e destróem. Vale dizer que de guerra em guerra, eles vão mudando um pouco e hoje estão completamente diferentes de quinhentos anos atrás - comentou o tengu azul.
- Acho que já sei amigo Azulão, temos que brigar e xingar. Nós nunca brigamos nestes quinhentos anos de convivência, por isso que nós estamos sempre na mesmice.
- Mas brigar para que se somos bons amigos? Para nós tengu, briga e guerra são coisas totalmente desnecessárias.
- Pois é, nunca brigamos, por isso nunca progredimos!
- Está bem, vamos brigar então. Assim, imitando os humanos, um passou a xingar o outro e ficaram de mal.

Certo dia Azulão estava, como de costume, observando as pessoas. De repente, viu alguma coisa muito bonita lá embaixo no castelo. Como ficou com vontade de tocar no belo objeto que via ao longe, começou a fazer vento no nariz com seu abanador mágico. O nariz começou a crescer, a crescer e foi crescendo na direção do castelo. O nariz atravessou rios, montes, ruas e muros do castelo, e passou em um quintal, onde uma criada estava estendendo formosos quimonos de uma princesa para secar. Distraída, a criada pendurou o quimono no nariz do tengu, pensando que era a vara de secar roupas.

Assustado com o repentino peso sobre seu nariz, o tengu recolheu seu nariz, abanando ao contrário. Como os quimonos estavam presos por grampos, foram levados para as copas das árvores. O tengu vermelho chegou no local para observar e perguntou:

- Quantos quimonos bonitos, como conseguiu?
- Alonguei meu nariz até o castelo, aí penduraram vários presentes. Vou te dar a metade.
- Não quero, estamos de mal, lembra-se? - dizendo isso Vermelhão foi para outro lugar.
Na verdade o tengu vermelho ficou com inveja de Azulão e resolveu fazer o mesmo.
- Eu também quero roupas bonitas. Vou alongar meu nariz até o castelo!
E assim, Vermelhão foi abanando e abanando seu nariz, até que esse atingisse o castelo. Alguns samurais praticavam kenjutsu, a arte do manejo da espada. Vendo aquele nariz avançando na direção deles, não tiveram dúvida, cortaram aquela coisa estranha que mais parecia uma cobra cega.

Vermelhão ao sentir uma dor aguda, recolheu o nariz mais do que depressa.
Azulão se aproximou do colega e perguntou o que havia acontecido. Vermelhão chorando de dor contou a tragédia.

Azulão penalizado disse novamente para Vermelhão não chorar mais e deu metade dos quimonos para ele. Assim os dois viveram em harmonia por mais quinhentos anos.

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bergson01/04/2008 11:03
O cúmulo da cortesia
Texto e desenhos: Claudio Seto



Nintoku Tenno que reinou entre os anos 313 a 399 foi um dos maiores imperadores da época proto-histórica do Japão. Conta a tradição que antes dele subir ao trono, houve uma homérica competição de modéstia e cortesia entre ele, príncipe Ohosazaki, e seu meio irmão, o Príncipe Herdeiro que residia no castelo de Uji. Foram necessários três longos anos, para os príncipes decidirem quem não seria o imperador. Isso porque, apesar do trono estar vazio, cada qual se achava menos apto de tornar-se o grande mandatário do País que o outro.

Naqueles dias, numa aldeia próxima de Naniwa, um pescador apanhou um peixe excepcionalmente grande e resolveu fazer uma cortesia ao imperador. Colocou esse peixe em um cesto e alguns menores em outro, cada cesto na extremidade de um pau, para balancear o peso. Assim, com os cestos equilibrados no ombro e seguido por mais meia dúzia de pescadores, dirigiu-se orgulhoso ao palácio em Naniwa para fazer sua oferenda.

Na portaria do palácio de Naniwa disseram ao pescador que levasse o peixe ao palácio de Uji, pois ali morava o imperador. Os pescadores percorreram em fila indiana, entre um palácio e outro e foram recebidos com grande cortesia no palácio de Uji.

Quando souberam do que se tratava, o príncipe de Uji pessoalmente lhes disse:
- Se querem presentear o imperador com esse magnífico peixe, por favor, levem para meu irmão no palácio de Naniwa. Ele é o Imperador.
Os pescadores novamente puseram o pé na estrada e foram para Naniwa. Sabendo que seu irmão recomendara pessoalmente que os peixes fossem entregues a ele, o príncipe Ohosazaki, disse com toda modéstia e cortesia:
- Eu, Imperador? Imagine uma coisa desta, sou indigno para tão grande honraria. Meu irmão sim, ele é o Imperador. Portanto, por favor, senhores pescadores, levem o peixe para ele com meus votos de grande estima e consideração.
Como o príncipe de Naniwa acrescentou ao peixe seus votos de estima, os pescadores se viram obrigados a levar o presente e o recado ao príncipe de Uji. Assim percorreram mais uma vez, a estrada que cortava vilas e arrozais.
Chegando no palácio de Uji, novamente foram mandados a Naniwa. E assim como bolinha de tênis, iam e vinham de palácio à palácio. Enquanto isso os peixes foram apodrecendo e a comitiva de pescadores puxa-sacos, deixava rastro de mau cheiro por onde passavam.

O Nihongi, o segundo livro mais antigo do Japão, conta que essa interminável competição às avessas, estava se eternizando e não chegaria a parte alguma. Então, o príncipe herdeiro disse antes de cometer suicídio: “Cheguei a conclusão que não é possível mudar a decisão de meu irmão. Enquanto eu estiver vivo ele achará que o trono é meu. Não devo mais causar problemas ao Império”.

É o cúmulo da cortesia. O príncipe herdeiro se mata para dar lugar ao seu irmão.
Quando o príncipe Ohosazaki (futuro imperador Nintoku) recebeu a notícia que seu meio irmão Príncipe Herdeiro morreu, ficou chocado. Foi para o palácio de Uji a cavalo. Diante do defunto bateu em seu peito, gritou e gemeu, expressando grande desespero.

Em seguida desatando o nó de seu cabelo e sentando-se sobre o cadáver, chamou pelo meio irmão três vezes, sacudindo-o pela gola.
- Meu irmão príncipe! Meu irmão príncipe! Meu irmão príncipe!
De repente o príncipe herdeiro voltou a vida e levantou-se. Então o príncipe Ohosazaki indagou:
- Ah! Que desgraça! Quanta tristeza! Por que fostes embora por sua própria vontade? O que pensará de mim no outro mundo o espírito do Imperador, nosso pai?
- Este é o meu destino. Ninguém poderia me deter. Se eu chegar a morada de meu pai, direi sem nada omitir, que meu irmão mais velho é um sábio e que muitas vezes tentou me ceder o trono - respondeu o Príncipe Herdeiro.
- Fico sem palavras diante de tanta cortesia.
- Cortesia fizestes Vossa Alteza, vindo de tão longe para me ver. Quero que aceite o símbolo de minha eterna gratidão.
Dizendo isso, o príncipe herdeiro ofereceu a sua irmã mais nova, nascida da mesma mãe, a princesa Yata.
- Creio que ela não é digna de se tornar sua imperatriz, mas honre-a tendo entre as damas da corte.
Depois, o Príncipe Herdeiro voltou à esquife e morreu de novo.

Comentário:
Esta lenda envolvendo personagens reais (em todos os sentidos) mostra que antes do confucionismo chegar ao Japão, e nortear os rumos do poder de Estado, o cúmulo da cortesia era visto como virtude, a ponto de um defunto de três dias, voltar à vida, só para isentar o imperador Nintoku de sua morte.
bergson02/04/2008 12:04
O desejo de visitar o Grande Santuário de Ise e morrer
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Em tempos antiqüíssimos, antes dos guerreiros samurais e de seus enormes castelos, o Grande Santuário de Ise, da religião nativa xintoísmo, era a mais bela obra construída pelo homem no Japão. Havia uma expressão popular que dizia: “Visitar o Grande Santuário de Ise e morrer!”. Era desejo do povo japonês da época visitar esse famoso santuário, pelo menos uma vez na vida. Esse desejo, conforme contam as lendas, não se limitava apenas ao homem, mas a todos os seres viventes.
Naquela época, moravam, em uma montanha na província de Mie, um macaco e uma carpa. Certa ocasião, o macaco estava na margem do rio, e a carpa comentou:
– Há muito tempo tenho vontade de visitar o Santuário de Ise.
– Eu também sempre tive esse desejo. Por que não vamos juntos? – perguntou o macaco.
Dito e feito. A carpa saiu nadando rio abaixo e o macaco desceu a montanha pulando de galho a galho, até encontrar um enorme campo. O macaco mediu com os olhos a dimensão da pradaria e disse à carpa:
– Eu gosto de montanhas cheias de árvores e confesso que sou um fracasso para percorrer um campo tão grande e tão reto. Não sei o que fazer...
Enquanto eles pensavam numa solução, apareceu por lá, de passagem, um cavalo e perguntou:
– O que vocês fazem tão pensativos?
Então o macaco contou que pretendiam visitar o Grande Santuário de Ise, mas estavam em dificuldades, pois o verde campo que tinham que atravessar era demais para suas pernas tortas.
– Visitar o Santuário de Ise é uma maravilha. Eu também sempre tive esse desejo. Deixem-me acompanhar vocês. Venha, macaco, suba no meu dorso e vamos embora.
Assim, o macaco montou nas costas do cavalo, e a carpa seguiu nadando pelo rio.
Mais para frente, o rio em que a carpa seguia nadando desembocava numa praia. Então, a carpa parou e disse para os dois amigos:
– Eu não gosto do mar. Não consigo nadar em águas salgadas.
A carpa, o macaco e o cavalo ficaram pensando em como vencer aquela dificuldade.
– Eu tenho uma boa idéia – disse o macaco, logo em seguida – Precisamos providenciar um balde, colocar água doce nele e a carpa vai andando junto com a gente dentro do balde.
– Um balde cheio de água é pesado. Eu não tenho mão para carregá-lo – disse o cavalo.
– Deixe comigo, que eu tomo conta da carpa – disse o macaco, todo prestativo.
E o macaco foi até o povoado e trouxe um balde de madeira, típico balde japonês daquela época. Encheu-o de água, colocou a carpa dentro dele e subiu no dorso do cavalo com o balde.
– Obrigada pela ajuda – disse a carpa, agradecida.
– Foi uma grande idéia – observou o cavalo.
Assim, seguiram a viagem ao Santuário de Ise, quase todos muito felizes.
Quase, porque o cavalo teve que carregar o macaco e um balde de madeira cheio de água nas costas. A carpa, apesar de não fazer nenhum esforço dentro do balde, não conseguia apreciar a bela paisagem a caminho do santuário. Já o macaco, sentado confortavelmente no dorso do cavalo, usufruiu a visão privilegiada do alto e ia ditando o caminho: “agora, vire à direita e, em seguida, vire à esquerda!”
Assim, chegaram ao Santuário de Ise sem maiores problemas, provando que “a união faz a força” e que quem tem idéias faz menor esforço.

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bergson03/04/2008 09:25
Hachizuke, o deus Inari
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muitos e muitos anos, havia um castelo de nome Obana no feudo de Wakasa, onde hoje é a província de Fukui. Naquela época, o senhor do castelo era obrigado a passar meio ano em Edo, então capital do Japão, por determinação do xogum Tokugawa.

Assim, quando o feudatário estava ausente, os vassalos cuidavam do castelo, porém não tomavam nenhuma decisão importante sem a ordem do senhor. Essa ordem chegava via postal, trazida por um carteiro da capital. Nessa época, demorava em média 15 a 16 dias para um carteiro ir correndo de Edo a Wakasa.

Quando os conselheiros discutiam uma maneira de encurtar o tempo, Hachizuke pediu uma audiência e disse:

– Posso entregar as mensagens ao senhor em cinco ou seis dias. Encarreguem-me dessa missão e não se arrependerão.
Os conselheiros não acreditaram muito na história, mas, como não tinham outra alternativa, resolveram arriscar, enviando uma mensagem a Edo.
Hachizuke saiu correndo, cortando campos, montanhas e rios sem passar pelas tortuosas estradas e evitando povoados e multidões das cidades que ficavam na rota tradicional. Conseguiu avançar cem milhas por dia, e os conselheiros ficaram muito felizes com seu trabalho.

Certa ocasião, um dos conselheiros disse a Hachizuke:
– Você é uma grande ajuda para nosso castelo. Fico preocupado que algo de mal possa acontecer a você e atrapalhar seu trabalho.
– Bem, eu não gosto de cães. Fico receoso, imaginando que um cachorro que está amarrado numa estalagem em Odawara possa se soltar e barrar meu caminho. Credo, como são repugnantes os cachorros!
– Nossa! Você tem mesmo medo de cão. Que coisa estranha – observou o conselheiro.

O tempo foi passando e Hachizuke prestou relevantes serviços ao Castelo de Obana. Certo dia, quando ele partiu para mais uma missão de Wakasa a Edo, percorreu como o vôo de um pássaro campos e montanhas. Quando chegou na estalagem em Odawara, um fato inesperado aconteceu. O cão soltou-se das amarras e avançou latindo para Hachizuke. O rapaz pensou em correr para a estrada, mas era tarde, estava cercado. Então, o carteiro entrou num buraco sob o assoalho da estalagem, na tentativa de se esconder do cão. Mas o cachorro também entrou embaixo do assoalho, em seu encalço. Foi uma barulheira danada naquele local.

Quando o silêncio voltou a reinar sob o assoalho, o cachorro saiu debaixo dele com uma raposa branca na boca. O dono da estalagem encontrou uma caixa amarrada no pescoço da raposa. Ao abri-la, constatou que era uma importante carta para o senhor que estava em Edo. Então, o homem levou a carta para o magistrado.

Assim, o mistério da rapidez do carteiro do Castelo de Obana estava desvendado. Hachizuke era, na verdade, uma raposa branca encantada. Por isso era atravessava campos e montanhas com incrível rapidez.

– Que exemplo digno a ser seguido! Trabalhou duramente para servir o senhor de Obana – disse o magistrado, com admiração.
Hoje, existe um santuário dedicado ao deus Inari Hachizuke, onde outrora existiu o Castelo de Obana.

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fabianoscosta03/04/2008 19:10
Boa essa, eu morei quase 3 anos em Fukui, é um lugar muito bom.

Abração,
Fabiano
bergson04/04/2008 14:01
Caro Fabiano,

Fico feliz em poder trazer boas lembranças!
bergson04/04/2008 14:07
Kin no kamikazari
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Com a obrigatoriedade criada pelo governo Tokugawa de que cada senhor feudal deveria permanecer metade do ano em Edo (hoje Tóquio), o comércio de luxo cresceu vertiginosamente, e a capital japonesa oferecia aos ricos senhores presentes que agradavam às mais belas e exigentes mulheres, tais como quimonos de seda pura, cerâmica de fino trato e maravilhosos adornos para cabelos.

Certa ocasião, quando um comerciante de produtos finos vendia um adorno para cabelos a uma rica senhora em sua loja, uma garotinha aproximou-se e ficou olhando admirada para os ornamentos que estavam sendo mostrados para a cliente.

Quando a rica senhora foi embora, a garotinha aproximou-se do vendedor e, apontando um ornamento para cabelos, disse que queria comprá-lo.
– Comprar o kin no kamikazari, o ornamento de ouro! – exclamou, surpreso, o proprietário da loja.
– É um presente para minha irmã. Por favor, faça um embrulho bem bonito.
– Você tem dinheiro suficiente para pagar?
A menina, então, tirou da manga do quimono um lenço dobrado, colocou-o sobre a mesinha e mostrou quanto dinheiro trazia.
– Veja, tenho tudo isso!



Eram poucas moedas, que somavam pequeno valor.
– Acho que minha irmã mais velha merece esse presente. Desde que mamãe morreu, ela cuida de mim e de meu irmãozinho com muito carinho. Ela trabalha tanto, que não tem tempo para se cuidar. Com esse ornamento, quero vê-la muito bonita.
O dono da loja colocou o ornamento numa embalagem laqueada e embrulhou-a cuidadosamente, com o lenço de seda.
– Sua irmã vai gostar muito do presente – disse o homem, entregando o embrulho para a menininha.
A menina foi embora toda feliz, e o dono da loja, com os olhos emocionados, acompanhou-a, até que ela desapareceu no final da rua.
Na tarde desse mesmo dia, uma bela moça procurou pelo dono da loja. Ao ser atendida, colocou na mesinha um embrulho conhecido e perguntou:
– Esse ornamento foi comprado aqui?
– Sim – confirmou o homem.
– Pode me dizer quanto ele custou?
– Quando se trata de um presente, é falta de ética dizer o preço.
– Foi a minha irmãzinha quem o comprou.
– Nossa loja só pode revelar o preço se a cliente assim o desejar.
– Minha irmã só tinha poucas moedas. Ela não poderia comprar um ornamento tão valioso.
– Ornamento de ouro – disse o dono da loja, refazendo o embrulho com muito cuidado. Em seguida, dobrou-o devidamente com o lenço de seda e entregou-o para a garota.
– Sua irmãzinha pagou o preço mais alto que qualquer pessoa pode pagar. Ela deu tudo o que tinha.
A moça apertou o embrulho junto ao peito e lágrimas rolaram por sua bela face. Em seguida, desfez o embrulho, pegou o ornamento de ouro e prendeu-o em seus cabelos. Despediu-se do dono da loja e saiu muito feliz, arrumando o ornamento e dizendo:
– Acho que os pequenos vão gostar de me ver assim.

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bergson05/04/2008 06:42
Shizuka-gozen e Sato Tadanobu - Parte I
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



No século XII, duas poderosas famílias disputaram o poder político do Japão durante décadas de guerra civil. De um lado, os Minamoto – conhecidos por clã Genji –; e do outro, os Taira – conhecidos como clã Heike. Na primeira fase, os Heike foram vitoriosos e dominaram o país por muitos anos. Porém, mais tarde foram derrotados pelos Genji, comandados por Minamoto- no-Yoritomo (1147~99). Durante uma série de batalhas em mar e terra, na guerra que ficou conhecida como Genpei, destacou-se um jovem general chamado Minamoto-no-Yoshitsune (1159~89), meio-irmão do comandante Yoritomo.

Os feitos de Yoshitsune durante a guerra ganharam grande popularidade, e ele se tornou um grande herói para o povo japonês. Nessa época, Yoshitsune tinha uma namorada chamada Shizuka, que era filha de Iso-no-Zenshi. A bela Shizuka Zenshi entrou para a história como Shizuka-gozen, pois gozen era um termo usado para identificar a mulher de um guerreiro. Shizuka era considerada uma das melhores shirabyôshi (praticante de dança sagrada) de Quioto.

Como reconhecimento por sua bravura, o imperador aposentado Goshirakawa presenteou Yoshitsune com um tsuzumi (tamboril – instrumento musical em forma de ampulheta). Como esse instrumento tem duas faces de couro, comentavam na corte que uma representava Yoshitsune e outra seu meio-irmão, o comandante Yoritomo.

Esses acontecimentos levaram Yoritomo a desconfiar que, devido à incrível popularidade conseguida por Yoshitsune, este poderia insurgir-se contra ele e tomar o poder. Então, ordenou que seu exército fosse ao encontro de Yoshitsune e acabasse com a vida dele. Realmente, havia comentários na corte que, se Yoshitsune batesse o tamborete tsuzumi, presenteado pelo imperador, uma rebelião seria conduzida com apoio da corte imperial contra o xogum Yoritomo. Entretanto, apesar de saber que seu irmão enviara um exército para matá-lo, Yositsune não bateu o tamboril, porque não queria guerrear com seu próprio irmão e com ele procurava conciliação.

Naquele dias, ocorreu um imprevisto: Mussashi-bo Benkei, monge guerreiro e fiel servidor de Yoshitsune, matou um soldado de Yoritomo, tornando quase impossível um entendimento entre os irmãos. Yoshitsune ficou furioso com Benkei e mandou que ele desaparecesse de sua frente, porém Shizuka intercedeu pelo amigo, dizendo a Yoshitsune que Benkei matou o servidor de Yoritomo por fidelidade a ele e deveria ser perdoado.

Como Yoshitsune não queria que seus fiéis guerreiros enfrentassem os soldados de Yoritomo, a única alternativa foi fugir para evitar o confronto.

Acompanhado de Shizuka e de cinco fiéis guerreiros: Mussashi-bo Benkei, Kamei Rokurô, Kataoka Hachirô, Ise Saburô e Suruga Jirô, para não chamar atenção por onde passasse, Yoshitsune empreendeu uma fuga e chegou ao santuário Inari (raposa) em Fushimi, localidade ao sul de Quioto.

Esse episódio envolvendo Shizuka e o tamboril deu origem a uma das mais famosas lendas do Japão.

Os cinco fiéis guerreiros de Yoshitsune reuniram-se e resolveram que Shizuka não devia mais acompanhar o grupo, pois estava retardando a fuga e pondo em risco a vida de todos. Se continuasse assim, seriam alcançados e exterminados pelo exército de Yoritomo.

Mas Shizuka queria acompanhar seu amado de qualquer modo e estava inflexível sobre a questão. Então, como prova de seu amor, Yoshitsune deixou sob a guarda dela o precioso tamboril que recebeu do imperador. Mesmo assim, Shizuka insistia em segui-lo. Não restou outra opção a Yoshitsune senão mandar seus guerreiros amarrarem as mãos de Shizuka num pilar do santuário.

– Logo, os sacerdotes estarão de volta e vão te libertar. Entenda que isso é para seu próprio bem, pois, se o exército de Yorimoto nos alcançar, não vão deixar ninguém vivo para contar a história.
Assim, Yoshitsune e seus guerreiros partiram do santuário Inari. Porém, antes que os sacerdotes voltassem, uma tropa comandada pelo capitão Hayami-no-Tota encontrou Shizuka.
– Mas que boa surpresa! A mais bela dançarina do Japão abandonada pelo seu herói e amante Yoshitsune.
– Abandonada nunca! Tenho comigo a prova do grande amor de Yoshitsune por mim: o tsuzumi imperial. Aconteceu que os guerreiros concluíram que eu estava atrasando seus passos e me forçaram a ficar aqui no santuário, sob a proteção dos sacerdotes – disse Shizuka, irritada.
– Soltem as mãos dela e vamos levá-la como prisioneira. Para mim, foi um presente dos deuses, eu não pretendia mesmo enfrentar os valentes guerreiros de Yoshitsune. Mas, levando sua amante e o famoso tamboril imperial, serei fartamente recompensado pelo comandante Yoritomo.
Os soldados de Tota agarraram Shizuka e arrastaram-na para fora do santuário Inari. A dançarina gritava a todo pulmão, resistindo violentamente à ação dos brutamontes. Naquele momento, surgiu um valente guerreiro. E, com incrível força e agilidade, foi derrubando um por um os soldados inimigos.

O guerreiro em questão era Sato Tadanobu, um fiel servidor de Yoshitsune. Assustados com a força sobre-humana de Tadanobu, os soldados saíram correndo de medo. O capitão Hayami estava fugindo com o tamboril. Vendo o instrumento musical sendo levado pelo inimigo, Tadanobu ficou furioso e perseguiu-o com incrível velocidade. Tomou o tamboril, matando Hayami-no-Tota a chutes, socos e golpes de artes marciais.

Yoshitsune e seu grupo, que ouviram os gritos de Shizuka ecoando montanha acima, voltaram a tempo de assistir de longe a façanha de Sato Tadanobu.

– Sou eternamente grato por ter salvado Shizuka e o tamboril. Mostrou uma valentia digna de um guerreiro Genji. Mas você não estava na sua terra natal, cuidando de sua mãe doente?
– Quando soube do desentendimento entre você e seu irmão, vim correndo para juntar-me a vocês.
Tenho dois pedidos a lhe fazer: primeiro, aceite esta armadura como símbolo de minha gratidão. Segundo, peço que retorne a Quioto levando Shizuka. Seja a sombra dela, protegendo-a até que haja conciliação entre mim e meu irmão.
Sato Tadanobu abaixou a cabeça, expressando sua fidelidade, e Yoshitsune partiu confiante que sua amada estava segura sob a guarda do valente Tadanobu.

Shizuka-gozen e Sato Tadanobu - Parte Final
(Texto e desenhos: Claudio Seto)




Na primeira parte desta lenda, foi retratada a rivalidade entre os Heike e os Genji, que lutaram entre si pelo poder do Japão durante vários anos. Quando os Genji, comandados por Minamoto-no-Yoritomo (auxiliado por seu habilidoso meio-irmão Minamoto-no-Yoshitsune), chegaram ao poder, boatos começaram a colocar um irmão contra o outro. Preocupado com um golpe, Yoritomo decidiu matar seu irmão e enviou seu exército para cumprir a missão. Yoshitsune, no entanto, querendo evitar o confronto com o irmão, decidiu fugir em companhia de seus fiéis guerreiros. Sua namorada, Shizuka, entretanto, foi obrigada a ficar para trás, em companhia de Sato Tadanobu, outro leal seguidor de Yoshitsune.

Com a investida do capitão Hayami-no-Tota, a bela Shizuka Zenshi compreendeu quanto sua presença seria perigosa na fuga de Yoshitsune. Assim, resignada, tomou o caminho de Quioto em companhia de seu guarda-costas, Tadanobu.

Pouco depois da primeira caminhada, encontraram um camponês que os alertou do perigo em continuarem na direção da capital. O exército de Yoritomo havia colocado postos de guarda nas divisas de cada cidade e várias tropas vinham naquela direção, vasculhando tudo.

Shizuka então resolveu que deveriam ir atrás de Yoshitsune, e ambos retornaram, seguindo na direção para onde fora o irmão de Yoritomo. O Monte Yoshino estava ainda coberto de neve, mas as mil cerejeiras já estavam todas floridas.

Shizuka ficou deslumbrada ao ver que o Monte Yoshino estava totalmente cor-de-rosa. Coberta de cerejeiras em flor, a floresta era um espetáculo da natureza de indescritível beleza. Então, ela resolveu descansar sob uma árvore, enquanto apreciava as flores.

De repente, ela percebeu que Sato Tadanobu havia desaparecido. Olhou para todos os lados e não havia ninguém perto dela. Vendo as pétalas das cerejeiras caindo levemente como plumas ao vento, Shizuka colocou o tamboril no ombro e resolveu tocar o instrumento enquanto cantava uma canção de amor e ensaiava passos de dança.

Quando ela produziu sons no couro do tamboril, repentinamente o guerreiro Sato Tadanobu surgiu ao lado dela. Shizuka levou um susto, mas conteve a emoção e continuou com sua música. Sem resistir à melodia, Tadanobu fez contradança com Shizuka.

Ela ficou admirada com a habilidade que Tadanobu tinha para dançar, pois era quase inacreditável que um homem forte, robusto e grande como ele pudesse dançar com gestos delicados de tamanha leveza.

Shizuka começou a desconfiar que aquele não era o guerreiro Tadanobu, mas, antes que pudesse interrogá-lo, ele havia desaparecido novamente. Solitária na bela paisagem florida do Monte Yoshino, a dançarina Shizuka compunha verbalmente poesias para seu amado. Quando tocava o tamboril para fazer acompanhamento, Tadanobu surgia repentinamente ao seu lado. Havia um mistério no ar.

Na verdade, aquele não era o verdadeiro Sato Tadanobu, e sim uma raposa branca encantada que se fazia passar pelo guerreiro. Pelo fato de ser uma raposa branca, quando não estava transformada na figura de Tadanobu, era confundida com a neve que cobria o chão do Monte Yoshino.

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bergson06/04/2008 06:25
O incêndio de furisode
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Em meados do século XVII, havia em Edo (atual Tóquio) uma linda garota de nome Osame, que era filha de um rico comerciante chamado Hikoyemon. Esse comerciante era distribuidor de um saquê famoso da marca Hyakushô-machi, e seu depósito ficava no distrito de Azabu.

Certa ocasião, Osame foi a um festival num templo e ficou apaixonada por um belo e elegante samurai. Infelizmente para ela, o jovem desapareceu na multidão antes que os empregados de seu pai pudessem descobrir de quem se tratava e de onde teria vindo.

Foi amor à primeira vista. Os dias passaram-se, mas a imagem do jovem guerreiro ficou impregnada na memória da garota. Desde o rosto jovial até as cores e detalhes de seu traje, tudo lhe pareceu extremamente maravilhoso. Então a garota mandou confeccionar para ela um quimono de mangas longas com as mesmas cores do traje do rapaz. Ela tinha esperança de chamar a atenção dele quando o encontrasse, numa ocasião futura. Quando o quimono ficou pronto, ela o deixou armado sobre um cabide e ficava imaginando o seu príncipe encantando acariciando o traje. Às vezes, passava horas e horas pedindo a Buda que proporcionasse um encontro com seu sonhado amor e freqüentemente repetia a invocação da seita do budismo Nichiren: Namu myo ho rengue-kyo. Mas, apesar de procurar por todos os cantos da cidade vestindo seu furisode (quimono de mangas longas), nunca mais viu o rapaz.

Desgostosa e sentindo-se extremamente solitária, adoeceu, foi definhando e morreu tempos depois. Durante o velório, ela trajava o furisode, mas, depois de cremada, conforme costume da época, a veste de mangas longas foi doada ao templo budista Honmyoji, do distrito de Hongo. Era uma maneira de os fiéis ajudarem na manutenção do templo, pois o monge podia vender o traje a um bom preço, já que se tratava de uma roupa de seda pura.

De fato, o furisode foi comprado na semana seguinte por uma mocinha com mais ou menos a mesma idade de Osame. A nova proprietária do furisode usou-o apenas um dia, ficou doente e começou a agir estranhamente, gritando que estava tendo visões de um jovem bonito e que iria morrer por amor a ele. Dias depois, realmente veio a falecer.

O quimono de mangas longas pela segunda vez foi doado ao templo. E, uma vez mais, o monge vendeu-o a uma mocinha, que o usou apenas uma vez. Ela disse estar tendo visões de um belo rapaz e morreu também. A vestimenta foi doada pela terceira vez ao templo. O monge começou a suspeitar de que havia algo de estranho naquele furisode.

Então, uma garota com mais ou menos da mesma idade das outras insistiu na compra do quimono. O monge acabou vendendo-o. A tragédia repetiu-se, e o furisode foi doado pela quarta vez ao templo.

Então, o monge não teve mais dúvidas. Aquele furisode estava tomado por uma força maligna. Chamou seus auxiliares e mandou fazer uma fogueira para queimar o quimono. Assim que fizeram a fogueira, a veste foi jogada nas chamas. O monge rezava com grande fervor para espantar a força do mal:

– Namu myo ho rengue-kyo! Namu myo ho rengue-kyo!

De repente, uma labareda subiu da fogueira e pegou fogo na madeira do telhado do templo. Nesse momento, um vendaval soprou sobre a cidade, e o fogo espalhou-se por várias casas, de rua em rua, de distrito em distrito, e quase toda cidade foi consumida pelas chamas. Existe outra versão desta mesma história que conta que, quando o monge botou fogo no furisode, a veste em chamas saiu correndo pelas ruas e espalhou o fogo pela cidade.

Comentário
Esta é a versão popular do grande incêndio da capital japonesa ocorrida no dia 18 de janeiro de 1657, que matou 10 mil pessoas. O incêndio ficou conhecido como Furisode Kaji e foi registrado num antigo livro chamado Kubin Daijin.


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bergson07/04/2008 10:41
Um lírio de 33 flores
Texto e desenhos: Claudio Seto



Certo dia, perto de Aomori, um jovem lavrador vinha voltando da cidade e viu duas meninas sentadas sobre uma rocha à beira de um riacho. Percebendo que elas estavam tristes, o moço perguntou se havia acontecido alguma coisa desagradável.
Elas responderam simultaneamente:
– Há muitos anos, moramos na casa do milionário Magozaemon, mas agora estamos de mudança para a casa do lavrador Jinbei, porque Magozaemon ficou pobre e perdeu a sua casa.
O moço, que já havia ouvido várias histórias sobre Zashiki Warashi (crianças que aparecem nos quartos à noite), lembrou que essas criaturas estranhas trazem prosperidades enquanto estão morando em determinada casa. Porém, quando elas resolvem abandoná-la, começa a decadência, podendo levar o recinto a falir, trazendo a pobreza.
Diante disso, o jovem lavrador ficou muito preocupado.
– Será que são Zashiki Warashi?
Realmente, algumas semanas depois, correram notícias de que os negócios do milionário Magozaemon iam de mal a pior e, tempos depois, a empresa do milionário acabou por falir.
Na aldeia vizinha, havia um lavrador de nome Jinbei, que havia sido pobre durante toda a vida, porém a situação começou a melhorar aos poucos.
Certa noite, Jinbei teve um sonho quase real, no qual duas meninas diziam para ele procurar um lírio com 33 flores e cavar até suas raízes, onde poderia encontrar uma coisa boa.
Na manhã seguinte, Jinbei encontrou o jovem lavrador e contou seu estranho sonho.
– Elas são Zashiki Warashi e estão morando em sua casa – disse o amigo, contando tudo o que ele havia ouvido tempos atrás, das meninas na rocha à beira do riacho.
Jinbei, entusiasmado, saiu à procura das flores de lírio. Como não era época de florada, andou por campos e montanhas, mas nada encontrou. Persistente, continuou mais meio ano procurando, até que começou a duvidar da existência de um pé de lírio com tantas flores.
Um dia, quando voltava cansado de andar pelas florestas e jardins em busca daquelas flores, sentou-se numa rocha na beira do riacho e começou a resfriar os pé cansados nas águas. Qual não foi sua surpresa ao avistar, na outra margem, um pé de lírio carregado de flores. Atravessou o riacho e contou quantas flores havia naquela planta. Exatas 33 flores foram contadas. Imediatamente, Jinbei cavou até a sua raiz e encontrou sete potes cheios de moedas de ouro!
Assim, Jinbei virou um milionário do dia para a noite. Parou de cuidar da roça e viveu fazendo farra com bebidas e mulheres. Um dia, porém, alguém viu duas crianças saírem de sua casa. Em pouco tempo, o dinheiro foi acabando e ele tornou-se mais pobre do que era.
Zashiki Warashi é assim. Aparece e desaparece sem motivo específico. Embora os casos aqui narrados sejam bastante antigos, hoje, existem lendas urbanas recentes no Japão que falam da presença desses seres em várias cidades.
– Boa noite!

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bergson08/04/2008 12:59
Ôoka Tadasuke e o caso do cheiro roubado
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Existem no Japão vários casos resolvidos pelo juiz Ôoka Tadasuke (1677-1751) que se tornaram legendários. Ôoka, natural de Edo (nome antigo de Tóquio), foi um juiz muito respeitado durante o governo dos Tokugawa (1603-1867). Indicado para trabalhar a serviço do xogum Tokugawa Yoshimune (1716-45), Ôoka logo ganhou a reputação de ser um dos oficiais mais competentes e incorruptíveis do governo. Como recompensa por sua sabedoria e grande capacidade como mediador, Yoshimune, nomeou-o também senhor de um pequeno feudo hereditário.

Depoimentos antigos dão conta de que o honorável juiz Ôoka Tadasuke nunca recusou ouvir qualquer queixa, por mais estranha ou absurda que se apresentasse. As pessoas às vezes vinham a sua corte com casos incomuns, mas Ôoka concordava em ouvi-las e fazer um julgamento justo. Entre os casos inusitados, está, por exemplo, o do “cheiro roubado”.Edo era a capital do Japão e centro dos acontecimentos mais importantes da época. A cidade era um formigueiro para onde todos convergiam em busca de oportunidades. Muitos jovens de pequenas cidades do interior dirigiam-se para a capital para aprender uma profissão que lhe garantisse sustento. Foi nessa época que um jovem aprendiz alugou um pequeno quarto sobre uma casa de tempurá. A loja vendia alimentos fritos que servia de mistura para o arroz nas refeições.

O aprendiz era um jovem muito esforçado e criativo, mas o dono da loja era um homem mesquinho e desconfiado. Não permitia que seus empregados beliscassem sequer uma pontinha das frituras e vivia desconfiado de que estava sendo lesado pelo seus auxiliares. Um dia, ele ouviu a conversa de dois aprendizes.

– É duro ser pobre. Mexemos com tanta comida e depois temos que engolir arroz puro, sem mistura – queixou-se um deles.
– É verdade – respondeu o outro –, mas eu encontrei uma maneira satisfatória de solucionar esse problema. Vou para o meu quarto almoçar e jantar nos horários em que a loja está fritando peixes e tempurá. O cheiro sobe e eu vou comendo meu arroz puro, com o cheiro da mistura. Assim, o arroz parece mais saboroso. Você sabe que o bom cheiro desperta o apetite e é responsável pelo bom gosto da comida.
O dono da loja ficou furioso ao ouvir a conversa. Sentiu-se lesado por alguém estar se aproveitando do cheiro de seus alimentos sem nada pagar.
– Eu exijo que você pague pelo cheiro que roubou!
– Um cheiro é um cheiro – respondeu o jovem aprendiz – qualquer pessoa pode cheirar o que quiser, pois o cheiro está no ar. Portanto, não vou lhe pagar nada.
Ofendido com a resposta, o dono da loja pegou o aprendiz pelo colarinho e o arrastou até a corte do juiz Ôoka Tadasuke.
Quem assistiu à cena achou-a absurda. Comentaram que um homem honrado e honorável como Ôoka jamais perderia tempo dando ouvidos a uma acusação de roubo de cheiro. Ledo engano, o juiz concordou em levar o caso a julgamento.
– Todos os cidadãos têm o direito de ser ouvidos por essa corte. Se esse homem sente que foi roubado e quer fazer uma queixa, como magistrado da cidade, devo ouvi-lo.
Assim, procedeu-se o julgamento. Todas as vezes em que o dono da loja dizia ao juiz que o aprendiz havia roubado o cheiro de sua comida, o povo presente ao ato caía na risada.
Pouco tempo depois, o juiz proferiu o seu veredicto:
– Nesse caso, obviamente o aprendiz é o culpado – disse com severidade na voz. Apropriar-se de algo sem que o proprietário saiba é roubo. Não posso considerar o cheiro diferente de qualquer outra propriedade. Portanto, esse caso é um ato de apropriação indevida.
O dono da loja ficou muito feliz; mas o aprendiz, horrorizado. O jovem era filho de um pobre lavrador do interior e, certamente, não tinha como pagar por três meses que ficou usufruindo do cheiro de tempurá da loja. Não tendo dinheiro para pagar, seria jogado na prisão até apodrecer.
– Quanto dinheiro você tem, meu jovem? – perguntou o juiz Ôoka.
– Somente cinco moedas de pequeno valor – respondeu o menino – e, se eu não pagar o aluguel do quarto com esse dinheiro, certamente serei jogado no olho da rua.
– Deixe-me ver o dinheiro.
O aprendiz tirou o dinheiro do bolso com uma mão e despejou-o na outra mão, para que o juiz pudesse vê-lo. Ouvindo o tilintar do dinheiro, o juiz perguntou ao dono da loja:
– Ouviu esse tilintar gostoso das moedas?
– Sim meritíssimo – respondeu o dono da loja, estalando os olhos para as moedas.
– Pois então considere-se pago pelo cheiro que lhe roubaram. Se, no futuro, tiver mais queixas a fazer, por favor, pode trazê-las a essa corte. Nosso desejo é que todos os crimes sejam punidos e todas as virtudes sejam recompensadas.
– Mas, meritíssimo, o ladrãozinho passou o dinheiro de uma mão para outra, mas nas minhas mãos nada chegou. Veja! – disse o dono da loja, mostrando suas mãos vazias ao juiz.
Ôoka olhou fixamente para o dono da loja e disse energicamente:
– Essa corte determina a punição de acordo com a gravidade do crime. Assim, decidi que o preço a ser pago pela apropriação e utilização do cheiro de alimento será o som característico do tilintar das moedas. Devo lembrar que o som das moedas quando estamos sem dinheiro é tão agradável quanto o cheiro da comida quando estamos com fome. Tenho dito!
Assim, a justiça foi feita, como de costume naquela corte.


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bergson09/04/2008 10:07
Zashiki Warashi
Texto e desenhos: Claudio Seto



Há muito tempo, havia uma grande hospedaria na pequena vila de Hachinohe (atual prefeitura de Aomori), localizada no norte do Japão. Naquela hospedaria, havia vários quartos e um, na parte dos fundos, especialmente bonito, junto ao jardim interno.

Certa ocasião, na hora do boi, um hóspede deitado, quase pegando no sono, viu a porta se abrir deslizando e um menino entrando no quarto. Aproximando-se do hóspede, a criança disse:

– Tio, vamos medir forças jogando braço-de-ferro?
O hóspede imaginou que o menino fosse filho do dono da hospedaria e havia vindo ao quarto para lhe dar as boas-vindas. Assim, brincaram algumas vezes jogando queda-de-braço. O incrível de tudo isso era que a criança tinha se mostrado muito forte, vencendo todas as partidas.
Na manhã seguinte, o homem comentou com o dono da hospedaria:
– Seu filho é muito forte, ontem à noite jogamos braço-de-ferro e eu não consegui ganhar nenhuma, por mais força que fizesse.
O hospedeiro olhou-o surpreso e disse:
– Mas, senhor, eu não tenho filho! De onde será que apareceu essa criança?!

Depois daquele dia, outros visitantes que também dormiram naquele quarto contaram que, à noite, uma criança aparecia pedindo para jogar braço-de-ferro. Interessante que nem o hospedeiro nem os empregados daquela casa haviam visto essa criança. Somente as pessoas que se hospedavam e dormiam naquele quarto podiam vê-la. Esse fato se espalhou pela redondeza, e todos passaram a comentar que naquela hospedaria morava um Zashiki Warashi.

(Zashiki em japonês significa quarto e Warashi, no dialeto da região de Aomori, significa “criança”, portanto Zashiki Warashi quer dizer “criança do quarto”. Muitas pessoas acreditam na existência dessas estranhas crianças que tanto podem ser do sexo masculino ou feminino, mas ninguém sabe definir se são fantasmas ou duendes. Existem muitos casos registrados no Japão e diversas situações em que as aparições desses seres se fizeram presentes. Nos dias atuais, existem várias casos ou lendas urbanas que falam da aparição desses seres nas grandes cidades).

A fama da hospedaria foi crescendo, e muitas pessoas que se julgavam fortes queriam pernoitar naquele quarto para jogar braço-de-ferro com o Zashiki Warashi. Outros que se julgavam corajosos queriam se hospedar simplesmente ver a criança. Assim, a hospedaria ficou muito disputada e os negócios foram de vento em popa, entrando muito dinheiro no cofre do hospedeiro, que se tornou um homem muito rico.

Com tanto dinheiro acumulado, o hospedeiro parou de trabalhar e deixou tudo por conta dos empregados. Assim, passou a levar uma vida folgada, com muitas festas e bebidas. Certo dia, quatro ou cinco anos depois, o dono da hospedaria estava sentado na varanda de seu estabelecimento e viu um menino andando no corredor.

– Quem é ele? – quis saber o hospedeiro.
E a criança saiu correndo para fora da hospedaria.
– Um menino que veio do quarto lá do fundo e foi embora – disse a mulher da limpeza.
Depois desse dia, a criança nunca mais apareceu para ninguém. Por isso, os hóspedes daquela casa foram diminuindo dia após dia e finalmente, alguns anos mais tarde, a hospedaria faliu.
Ninguém soube dizer porque a criança foi embora. Sabe-se apenas que, em outros lugares e situações, principalmente no norte do Japão, Zashiki Warashi tem aparecido, não só em hospedarias como em grandes hotéis e até em residências particulares. Há quem acredite que ele seja um deus que traz prosperidade e não faz mal a ninguém. O fato estranho e assustador é que, quando uma pessoa está sozinha na calada da noite, a porta do seu quarto se abre, e uma criança estranha lhe diz “boa noite”.

Se por acaso você está lendo essa lenda sozinho em seu quarto, preste atenção se não está ouvindo passos vindo na direção da porta.

– Boa noite!

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bergson10/04/2008 08:19
A Tartaruga e a Garça
(Kame-san to Tsuru-san)

Texto e desenhos: Claudio Seto



Antigamente, a tartaruga tinha o casco liso como casca de cabaça. Nessa época, Kame-san, o sr. Tartaruga, vivia num pequeno lago. Quando chegou o verão, a água foi baixando e baixando, devido à seca. Preocupado, o sr. Tartaruga ficava horas e horas olhando para o céu à procura de uma nuvem carregada de chuva. Mas o tempo foi passando e nada de chover.
Certo dia, o sr. Tartaruga viu Tsuru-san, o sr. Garça, nas margens da lagoa e aproximou-se dele.
– Tsuru-san, você, que vive voando nas alturas, será que não viu nenhuma nuvem chuvosa vindo para essa direção?
– Sabe, Kame-san, o céu está azul de ponta a ponta. Nenhuma nuvem à vista, nem chuvosa, nem branca.
– Tsuru-san, estou preocupado. Se a seca continuar, a lagoa vai secar, e eu não vou sobreviver por muito tempo. O que devo fazer?
– Olha, Kame-san, essa lagoa é pequena e tem pouca água. Se a seca continuar, ela será a primeira a secar até o fundo. Você deve se mudar para uma lagoa maior enquanto é tempo.
– Mas Tsuru-san, será que existe alguma lagoa grande nas proximidades?
– Bem... Se você atravessar aquela montanha, do outro lado encontrará uma grande lagoa, cinco ou dez vezes maior que esta. Lá, moram cerca de 20 tartarugas, que vivem nadando folgadamente, levando a vida que pediram a Deus. Aquilo sim é um bom lugar para você.
– Eu gostaria de mudar para lá. Mas tenho os pés curtos e levaria alguns anos para atravessar a montanha. Se fosse na estação da chuva, poderia agüentar bastante tempo; porém, em tempo seco como esse, creio que seja impossível eu agüentar até chegar do outro lado da montanha. Oh, como sou infeliz! Queria tanto ir para lá, mas não vejo como.
– Se você realmente quer ir até lá, podemos carregá-lo através da montanha.
– Realmente, Tsuru-san, isso é possível?! Eu imploro, leve-me até a grande lagoa!
O sr. Garça abriu as asas e começou a gritar: “kuwaa, kuwaa!”. Ele estava chamando outra garça. Não passou muito tempo, outra garça veio voando através da montanha e pousou no pequeno lago.
Tsuru-san então pegou no bico um galho seco e levou-o para a frente da tartaruga.
– Tudo bem, Kame-san, morda a parte do meio deste galho e segure-se firmemente. Eu e meu amigo vamos morder nas extremidades do galho e levantar vôo em direção à grande lagoa.
Assim, a tartaruga travou os maxilares em torno do galho, e as garças, batendo as asas, levantaram vôo no sentido da montanha.
No caminho, sobrevoaram uma aldeia de lavradores no pé da montanha. Algumas crianças da aldeia viram a tartaruga pendurada no galho e duas garças carregando-a. As crianças acharam engraçado e riram para valer. Apontando para tartaruga voadora, gritavam:
– Olha que tartaruga maluca, está tentando voar como as garças!
– Que tartaruga ridícula, pendurada pelo pescoço, até parece cabaça achatada.
Kame-san ficou irritado e gritou:
– Garotos mal-educados!
Porém, ao abrir a boca para gritar, o sr. Tartaruga desprendeu-se do galho e caiu em queda livre em direção ao solo. Espatifou-se no chão de costas. Se seu casco não fosse duro, teria morrido; porém, com o impacto, o casco ficou com várias rachaduras. Por isso, até hoje o casco da tartaruga é todo fragmentado.

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bergson11/04/2008 08:53
O Kozo e a Yamanbá (Parte 1)
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Há muito, muito tempo, havia no Japão um templo aos pés de uma montanha. Nesse templo, moravam um monge e um kozo (menino aprendiz de monge). Certa ocasião, o monge disse ao seu auxiliar que fosse à floresta para apanhar flores, pois o dia seguinte seria o Shunbun no Hi (Dia do Equinócio da Primavera) e era preciso deixar o altar muito bonito, pois os fiéis viriam rezar. Muitas oferendas seriam trazidas por eles, principalmente ohagi, que é uma pelota de arroz branco coberta com pasta de feijão azuki, pois os espíritos dos antepassados das famílias japonesas juntam-se em volta das oferendas alimentícias.
– Sim, senhor – disse Kozo, enquanto se preparava para sair em busca das flores.
– Vou lhe dar três omamori (talismã protetor) especiais, pois existem na floresta monstros ferozes, como a Yamanbá (bruxa) e o Tengu (gênio da montanha). Se qualquer coisa perigosa acontecer, atire o talismã no chão e peça um encanto dizendo uma palavra que você deseja para o momento. Se você quiser um oceano, diga exatamente: “venha oceano” e haverá um oceano.
– Sim – disse o menino.
Pegando os talismãs encantados, ele saiu do templo. Na montanha, as flores da primavera surgiam por toda a parte. Eram flores grandes e vermelhas que chamavam muito a atenção. Kozo examinou-as seletivamente, procurando saber qual delas colher, pois todas eram lindas. Como estava difícil dizer qual era a mais bonita, tentou fazer uma escolha por tamanho. Procurou pela maior delas, mas que também fosse bonita. O menino finalmente chegou a uma moita de flores onde todas eram grandes, acima até de sua altura.
– Vou ficar com esta – pensou Kozo – Não, aquela é maior ainda! Oh! A outra lá atrás é maior e mais bonita! – assim, o menino foi se embrenhando na floresta, completamente embriagado pela beleza das flores. Quando se deu conta da situação, a noite já vinha chegando.
– Oh! Está escurecendo, preciso voltar correndo, senão não vou enxergar o caminho.
Kozo deu meia volta e começou a andar com pressa, mas logo percebeu que não havia passado por ali quando veio. Tentou ir para um lado e para outro, mas entendeu que já não conseguia saber o rumo do templo. Começou a ficar apavorado, caminhando sem direção e apressadamente. Nessa altura dos acontecimentos, o sol já havia desaparecido e a floresta era completa escuridão.
O menino pensou em gritar pedindo socorro, mas lembrou-se que seus gritos podiam atrair as feras e resolveu que andaria até encontrar algum lugar conhecido. Depois de caminhar um bocado, viu uma luz brilhar entre as árvores no alto da montanha.
– Que bom, deve ter alguém morando lá! – disse, aliviado, o menino e resolveu ir pedir ajuda. Foi em direção à luz até que pôde distinguir uma janela de cabana. Era de onde vinha a claridade. Kozo agradeceu ao Buda em pensamento e aproximou-se do casebre.
– Boa noite. Sou o Kozo. Perdi o caminho de volta ao templo e peço que me deixe passar a noite aqui.
Uma estranha voz se fez ouvir e a porta foi aberta. Era uma velha Yamanbá de aspecto horroroso quem atendeu a porta. Assim que viu o menino, a Yamanbá esfregou as mãos uma na outra e disse:
– Oh! Um belo menino entre, entre. Então está perdido nesta densa floresta? É um terrível problema.
Kozo sabia que estava encrencado, mas não havia nada a fazer, senão tentar ser agradável com a Yamanbá e não despertar sua fúria.
Dentro da casa, ele tomou uma sopa do caldeirão da Yamanbá e pensou:
– Vou dar no pé quando ela dormir.
Porém, na hora de dormir, a velha Yamanbá deitou-se ao lado de Kozo, aparentemente para vigiá-lo. Então, o garoto fingiu que estava dormindo, roncando bem alto durante alguns minutos. Depois, tentou ver os olhos da Yamanbá, que lhe pareceram fechados. Para certificar-se, disse baixinho:
– Yamanbá-san, Yamanbá-san...
– O que é? – perguntou a bruxa com voz repreensiva.
– Eu preciso ir a casinha. Acho que sua sopa de ervas foi muito forte para mim – disse Kozo, para justificar o fato de tê-la chamado.
Alegando que era para não se perder na escuridão, a Yamanbá amarrou uma corda na cintura de Kozo e indicou a direção da casinha, que ficava fora da casa, e ficou deitada segurando a outra extremidade da corda.
Chegando na casinha, imediatamente Kozo desatou o nó e amarrou a corda numa viga. Em seguida, curvou-se e suplicou com todo o fervor:
– Senhor deus da casinha! Senhor deus da casinha! Por favor, eu lhe peço, se a Yamanbá me chamar, diga apenas: “um minuto que já vou...” (bost! bost!) Eu imploro, por favor...
Assim, Kozo saiu de fininho, engatinhando apressadamente entre os arbustos.

Kozo e a Yamanbá (parte final)
(Texto e desenhos: Claudio Seto)



Na primeira parte desta lenda, o kozo de um templo japonês aos pés de uma montanha foi enviado por seu mestre para colher flores na floresta para o Shunbun no Hi (Dia do Equinócio da Primavera). Entretanto, o menino se distraiu enquanto tentava cumprir sua missão e, perdido, quando a noite chegou, resolveu pedir abrigo em uma cabana. Para o seu azar, lá morava uma Yamanbá (bruxa). Agora, Kozo precisa fugir da velha para voltar ao templo. Tentando enganar a bruxa, o garoto pediu para usar o banheiro e aproveitou a deixa para fugir.
A Yamanbá pensou que o aprendiz de monge demorava em fazer suas necessidades, tanto quanto são demoradas as rezas budistas. Porém, como a demora já estava demais, gritou irritada:
– Kozo, que demora é essa? Volte logo, seu...
Nisso, uma voz apertada respondeu da casinha:
– Um minuto que já vou... (bost! bost!)
Como não havia outra alternativa senão esperar, resmungando, a Yamanbá deu um tempo. Passado esse tempo, o garoto ainda não havia retornado. Cada vez mais irritada, a Yamanbá gritou chamando Kozo três ou quatro vezes. Entretanto, cada vez que gritava ouvia a mesma resposta:
– Um minuto que já vou... (bost! bost!)
Como a demora estava exagerada, a Yamanbá deu um puxão na corda, dizendo:
– Não importa o que você está fazendo, volte já para cá.
O puxão foi com tal força que a velha e malfeita casinha desmoronou, fazendo um barulho escandaloso.
– Caramba, acho que, com o puxão da corda, derrubei o menino para dentro da fossa! – pensou a Yamanbá, levantando-se. Quando chegou com a lamparina na casinha desmoronada, viu que o menino lhe havia enganado.
– Aquele Kozo pestinha me passou a perna!
Imediatamente, saiu correndo atrás do menino. Kozo estava perdido e havia andado em círculos pela floresta. Com seu faro aguçado, a Yamanbá logo localizou o menino.
– Kozo! Kozo! Me espera, seu pestinha! – gritou a bruxa às costas do menino.
O aprendiz de monge ficou arrepiado de medo ao ver a Yamanbá se aproximando em incrível velocidade. Quando ela já estava para botar as mãos nele, o garoto tirou um dos talismãs que o monge havia lhe dado, atirou-o no chão e disse:
– Transforme-se num rio, um rio grande!
De repente, seu omamori (talismã) transformou-se num enorme rio, cheio de fortes correntezas, e a Yamanbá ficou do outro lado. Kozo, então, tratou de fugir correndo.
A Yamanbá, com um gesto mágico, arrancou um pêlo do nariz e deu um tremendo espirro que derrubou uma árvore. O tronco caiu transversalmente sobre o rio, improvisando uma ponte. Então, a velha recomeçou a perseguição. Kozo não teve tempo nem para descansar. Logo ouviu atrás de si a voz cadavérica da Yamanbá:
– Kozo, Kozo! Seu pestinha, espere!
O aprendiz de monge então atirou no chão o segundo omamori e gritou:
– Transforme-se numa montanha muita elevada!
Nesse momento, surgiu uma montanha alta, mas a Yamanbá, que sempre morou em montanhas, sabia que, para chegar ao outro lado, bastava contorná-la, ao invés de subir ao pico e descer. Então correu em direção contrária à que Kozo fugia.
Horas depois, quando Kozo pensou ter se livrado dela definitivamente, deu de cara com a bruxa que vinha correndo em sua direção:
– Kozo, Kozo! Seu pestinha! Agora te peguei.
O aprendiz de monge imediatamente lançou mão de seu último talismã protetor. Atirou-o na direção da Yamanbá, gritando:
– Transforme-se em fogo! Um mar de fogo!
Naquele instante, uma labareda surgiu, e as chamas logo subiram tão altas como as árvores. Uma cortina de fogo impedia a passagem da Yamanbá. Com gestos mágicos, ela apanhou um ramo de árvore. Em seguida, recitando palavras incompreensíveis, começou a atravessar o fogo agitando o ramo.
Kozo pensou em fugir, mas, de repente, com a claridade do fogo, descobriu que estava quase em frente do templo.
– Oh! É o nosso templo! – disse, aliviado, o Kozo.
O garoto correu para a porta, mas, como era noite, estava trancada. Então, bateu com toda a força, chamando o monge.
– Osho-san, Osho-san! Abra a porta depressa! Estou sendo perseguido por uma Yamanbá. Abra depressa! Depressa!
De dentro do templo, Kozo ouviu a voz do monge.
– Calma menino, já vou abrir, espere um pouco que preciso fazer xixi primeiro.
– Osho-san, o senhor não entendeu! A Yamanbá está chegando perto da porta, abra logo, porta favor!
– Não seja impaciente, esqueceu os ensinamentos de Buda?! Estou lavando a mão e logo vou abrir.
Finalmente a porta abriu e Kozo, que já estava branco de medo, entrou correndo e se escondeu no cesto das roupas sujas da lavanderia, pedindo que o monge lhe escondesse da Yamanbá. Então, o monge içou o cesto para cima do telhado do poço. Nisso, ouviu a voz da Yamanbá, que havia chegado ao templo.
– Osho! Osho! Onde foi parar o Kozo?
– Yamanbá-don, aqui não apareceu nenhum Kozo.
– Osho, como não está, se eu vi com meus próprios olhos quando ele entrou aqui?
– Deve ser engano, Yamanbá-don. Se duvida, pode procurar à vontade.
A Yamanbá percorreu todo o templo, mas nada encontrou. No quintal, com seu faro aguçado, sentiu cheiro de criança. Foi seguindo a direção indicada pelo faro e chegou ao poço. Olhou para dentro dele e viu algo refletido na superfície da água. Como era noite, ela não percebeu que via o seu próprio reflexo.
– Ah! Descobri, o pestinha está escondido dentro do poço!
Assim, ela saltou para dentro do poço para pegar o Kozo. Vendo aquilo, o monge tratou de tampar o poço colocando uma pesada rocha sobre a tampa.
Desde então, ninguém mais removeu a rocha, que ainda hoje está sobre o poço, no quintal de um templo na montanha do Japão.

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